Pular para o conteúdo

O método 6 – antropoética (Morin)

Morin está dizendo que a ética do nosso tempo não pode mais ser apenas individual, nacional, religiosa ou abstrata. A humanidade entrou numa era planetária: todos os povos estão ligados por interdependências ecológicas, econômicas, técnicas, científicas e políticas. Mas essa interdependência não gera automaticamente solidariedade, compreensão ou justiça.

Por isso ele propõe uma antropoética, isto é, uma ética voltada à condição humana inteira. Essa ética precisa considerar três dimensões inseparáveis:

indivíduo, sociedade e espécie.

A ética, então, não é só “ser uma boa pessoa”. É assumir conscientemente o destino humano comum, reconhecer a diversidade humana, compreender o outro, reformar a educação, a ciência, a sociedade, a política, a relação com a natureza e a própria forma de viver.

I. Assumir a condição humana

Aqui Morin define a antropoética como uma ética de assumir o destino humano. Ela não nasce automaticamente da antropologia, nem de um saber científico. Ela depende de uma decisão consciente, isto é, da autoética.

O ponto importante: conhecer o ser humano não basta para agir eticamente. O saber pode esclarecer, mas não substitui a decisão moral.

Morin propõe que assumir a condição humana exige reconhecer nossas contradições internas. O ser humano é, ao mesmo tempo, egoísta e altruísta, racional e apaixonado, sábio e louco, prosaico e poético. Por isso ele fala em dialogia, uma relação entre elementos opostos que convivem e se tensionam sem que um elimine completamente o outro.

A ideia de sapiens/demens é essencial. Para Morin, o humano não é apenas racional. Ele é também movido por paixões, mitos, afetos, delírios, desejos e imaginação. A ética não consiste em expulsar a paixão da razão, mas em manter uma relação lúcida entre razão, paixão e sabedoria.

Também aparece aqui uma crítica às “ideias mestras”. Morin alerta que ideias, ideologias e crenças podem se tornar possessivas, autoritárias e violentas. Por isso, a ética exige consciência crítica, autocrítica e compreensão.

Frase-chave para entender esse trecho:

Não há piloto automático em ética. A ética exige escolha, aposta e estratégia.

Morin recusa uma ética mecânica, pronta, automática. A vida moral acontece em situações complexas, incertas e contraditórias.

Rumo ao humanismo planetário

Neste trecho, Morin amplia a antropoética para a escala planetária.

Ele diz que a antropoética contém o circuito:

indivíduo, sociedade e espécie.

Ou seja, não se pode pensar o indivíduo isolado da sociedade, nem a sociedade isolada da espécie humana, nem a espécie humana separada do planeta.

A ética planetária precisa reconhecer duas coisas ao mesmo tempo:

a unidade humana e a diversidade humana.

Esse é um ponto central. Morin critica tanto o universalismo abstrato, que fala da humanidade de forma genérica e esquece as culturas concretas, quanto os comunitarismos fechados, que protegem apenas o próprio grupo e excluem os outros.

A ética planetária deve ser um universalismo concreto. Isso significa reconhecer que há uma humanidade comum, mas essa humanidade só existe concretamente em línguas, culturas, povos, histórias, territórios e modos de vida diferentes.

O humanismo planetário

Aqui Morin diz que, pela primeira vez, o universal se tornou realidade concreta. A humanidade está objetivamente interligada.

Isso não quer dizer que todos se sintam solidários. Quer dizer que os destinos estão conectados. Uma crise ecológica, uma guerra, uma pandemia, uma crise econômica ou uma decisão tecnológica podem afetar povos distantes.

A globalização, para Morin, não deve ser entendida apenas como fenômeno econômico ou técnico. Ela é uma relação complexa entre o global e o local. Cada parte influencia o todo, e o todo influencia cada parte.

Esse trecho é bem pensamento complexo: cada elemento é, ao mesmo tempo, causa e efeito, produtor e produto.

Atenção para uma distinção importante:

interdependência não é solidariedade.

Morin insiste nisso. Estamos conectados, mas não necessariamente nos compreendemos. Temos comunicação técnica, mas isso não garante compreensão humana. Temos muita informação, mas informação não é conhecimento. Temos conhecimento acumulado, mas conhecimento não é sabedoria.

Essa crítica conversa diretamente com o mundo atual: redes sociais, excesso de informação, comunicação instantânea, mas também ódio, incompreensão, isolamento e barbárie.

Universalismo concreto

Morin aprofunda a crítica ao universalismo abstrato e às comunidades fechadas.

O universalismo abstrato ignora as comunidades concretas, as etnias, as pátrias, as culturas. Já as comunidades fechadas se isolam e esquecem que pertencem a uma totalidade humana maior.

A solução de Morin não é escolher um lado. Ele propõe integrar.

A ética planetária deve respeitar as éticas nacionais e comunitárias, mas não pode ficar presa a elas. Ela precisa formar uma ética da comunidade humana.

Aqui aparece uma tensão muito importante:

o planeta se unifica tecnicamente, mas se fragmenta politicamente, culturalmente e religiosamente.

Por isso Morin fala que a antropoética e a antropopolítica precisam enfrentar a complexidade de um mundo que pode estar tanto em agonia quanto em gênese. Ou seja, a crise pode ser sinal de colapso, mas também pode abrir possibilidade de transformação.

Os nove mandamentos

Morin apresenta nove tomadas de consciência necessárias para uma ética planetária. Não são mandamentos no sentido religioso tradicional. São consciências fundamentais.

  1. consciência da identidade humana comum na diversidade. Somos diferentes em culturas, línguas e histórias, mas pertencemos à mesma humanidade.
  2. consciência da comunidade de destino. O destino de cada ser humano está ligado ao destino do planeta.
  3. consciência da incompreensão. As relações humanas são devastadas pela incapacidade de compreender o próximo e também o distante, o estranho, o diferente.
  4. consciência da finitude humana no cosmos. A humanidade precisa reconhecer limites. Não pode continuar imaginando expansão material infinita.
  5. consciência ecológica. A Terra não é apenas planeta físico mais biosfera mais humanidade. Ela é uma totalidade complexa físico-biológico-antropológica. Aqui está um ponto importantíssimo para você: Morin rejeita a separação redutora entre humanidade e natureza.
  6. dupla pilotagem do planeta. A humanidade precisa agir conscientemente, mas respeitando a auto-organização da natureza. Não se trata de dominar tudo, mas de combinar ação humana reflexiva com os processos eco-organizadores da biosfera.
  7. consciência cívica planetária. Somos responsáveis e solidários com os “filhos da Terra”.
  8. responsabilidade com os descendentes, inspirada em Hans Jonas. Ética não é só com os vivos de agora, mas também com as gerações futuras.
  9. consciência da Terra-Pátria. A Terra-Pátria não elimina as culturas e nações. Ao contrário, acrescenta um enraizamento mais amplo: pertencemos também à comunidade terrestre.

Terra-Pátria e política da humanidade

A ideia de Terra-Pátria é central em Morin. Ela substitui dois erros:

  • o cosmopolitismo abstrato, que ignora as culturas concretas;
  • e o internacionalismo míope, que ignora a realidade das pátrias.

Morin propõe uma pertença mais profunda à comunidade terrestre. Não se trata de arrancar ninguém de sua cultura, mas de acrescentar um enraizamento comum.

Daí vem a missão antropo-ética-política do milênio:

realizar a unidade planetária na diversidade.

Ele afirma que a Terra está ameaçada por antigas barbáries e por uma nova barbárie fria: a dominação pelo cálculo tecnoeconômico.

Aqui entra uma ideia muito cobrável:

os quatro motores descontrolados: ciência, técnica, economia e lucro.

Morin não é contra ciência, técnica ou economia em si. O problema é quando esses motores funcionam sem consciência ética, sem limites e subordinados ao lucro.

Ele diz que a ciência exclui juízos de valor, a técnica é instrumental, e o lucro invade todos os campos. Por isso são necessárias uma ética da compreensão planetária e uma ética da solidariedade planetária.

Hospitalidade e ética planetária

Morin retoma Kant e a ideia de hospitalidade universal. A finitude geográfica da Terra impõe o dever de não tratar o estrangeiro como inimigo.

Esse ponto é muito atual: migrações, refugiados, fronteiras, xenofobia, crise climática.

Morin diz que, diante das migrações da era planetária, a ética da hospitalidade exige acolhimento e adoção, e não rejeição e desprezo.

Ele também faz uma observação importante: a ética planetária não é exclusivamente ocidental. Grandes autoridades éticas do planeta vieram também de fora do Ocidente, como Gandhi, Mandela e Dalai-Lama. Ao mesmo tempo, ele reconhece que direitos humanos, direitos das mulheres, democracia e secularização nasceram em tradições ocidentais.

A conclusão dele é que a ética planetária precisa ser simbiótica, isto é, precisa integrar contribuições de diferentes civilizações.

Sociedade-mundo?

Aqui Morin pergunta se estamos formando uma sociedade-mundo.

A tese dele é que a globalização criou infraestruturas técnicas, comunicacionais e econômicas para uma sociedade-mundo. A internet aparece como esboço de uma espécie de rede neurocerebral semiartificial.

Mas há um problema: a economia liberal criou as infraestruturas, mas impede a formação de uma verdadeira sociedade-mundo, porque bloqueia um sistema jurídico, político e ético comum.

Para existir sociedade-mundo, seria preciso:

  1. reformar a ONU;
  2. criar instâncias planetárias capazes de enfrentar problemas vitais;
  3. democratizar o planeta;
  4. substituir a política de desenvolvimento por uma política da civilização e uma política da humanidade;
  5. aprofundar uma consciência ética e política de pertencimento à mesma Terra-Pátria.

A contradição é forte:

a sociedade-mundo é necessária para sair da crise da humanidade, mas a reforma da humanidade também é necessária para criar uma sociedade-mundo.

Ou seja, uma coisa depende da outra. É pensamento complexo puro: não há causa simples nem solução linear.

III. As vias regeneradoras

Nesta parte, Morin passa da crítica para as possibilidades de transformação.

Ele pergunta: como civilizar em profundidade? Como sair da barbárie civilizada? Como reformar a humanidade?

A resposta dele é que nenhuma reforma isolada basta. Reformar só a sociedade não resolve. Reformar só a educação não resolve. Reformar só a vida individual não resolve. Reformar só a ética não resolve.

É preciso articular várias reformas:

reforma da sociedade, reforma da civilização, reforma do espírito, reforma da educação, reforma da vida, reforma ética e ciência reformada.

Todas essas reformas são interdependentes. Cada uma precisa das outras.

Esse é um ponto decisivo: Morin não acredita em solução única. Ele critica reformas separadas. A transformação precisa ser complexa, articulada e recursiva.

Reforma/transformação de sociedade

Morin reconhece que transformar estruturas sociais injustas é necessário. Mas ele critica a ideia de que apenas mudar a estrutura econômica ou política produzirá automaticamente um ser humano melhor.

Ele cita os exemplos da União Soviética e da China maoísta para dizer que uma revolução social pode substituir uma forma de dominação por outra, às vezes pior.

Esse ponto exige cuidado: Morin não está dizendo que estruturas sociais não importam. Ele diz claramente que a reforma social é necessária. Mas ela não basta sozinha.

A reforma da sociedade deve combater centralização, hierarquia, burocratização, racionalização mecânica e dominação pelo lucro. Deve favorecer policentrismo, criatividade, solidariedade, invenção e formas mais democráticas de organização.

No plano planetário, Morin diz que muitas estruturas ainda nem existem. Precisamos criar instituições planetárias capazes de enfrentar problemas globais.

A frase-chave aqui é:

a transformação material necessita de uma transformação espiritual.

Ou seja, mudar instituições sem mudar mentalidades, valores e formas de compreensão pode reproduzir novas barbáries.

Reforma do espírito / reforma da educação

Morin diz que precisamos reformar as mentes para enfrentar os problemas fundamentais e globais da vida privada e social. Mas essa reforma das mentes depende da educação, e a educação atual também precisa ser reformada.

O problema do sistema educacional, para ele, é a separação dos saberes, das disciplinas e das ciências. Isso produz mentes incapazes de conectar conhecimentos e de compreender a complexidade dos problemas globais.

Aqui entra diretamente o pensamento complexo: a educação precisa religar saberes.

Um novo sistema de educação deveria favorecer a capacidade de pensar problemas globais e fundamentais, compreender a complexidade e educar para a compreensão entre pessoas, povos e etnias.

Morin também diz que a reforma do espírito é necessária para todas as outras reformas, porque permite:

  1. autocrítica;
  2. crítica dos próprios erros e ilusões;
  3. resistência ao imprinting cultural;
  4. união entre cultura humanista e cultura científica;
  5. recusa de ideias autoritárias e possessivas;
  6. desenvolvimento de uma consciência planetária.

Reforma de vida

Ele afirma que a civilização contemporânea produziu bem-estar material, mas também mal-estar interior. A industrialização, a urbanização, a lógica do lucro e a supremacia do quantitativo criaram insatisfações psicológicas orientadas para o consumo incessante.

A reforma de vida aparece como busca por qualidade de vida, sentido, comunidade, corpo, natureza, arte e liberdade.

Morin cita experiências como Monte Verità, movimentos de vida comunitária, alimentação saudável, slow food, medicina natural, dança, arte, relação estética com o corpo e harmonia com a natureza.

Mas ele não está fazendo uma defesa ingênua de estilo de vida alternativo. Ele percebe essas experiências como “germes” dispersos de outra forma de viver. Sozinhas, elas são frágeis. Articuladas a outras reformas, podem ter potencial regenerador.

A ideia central:

qualidade de vida não é apenas conforto material. Inclui necessidades poéticas do ser humano.

Isso é bem bonito e importante. Para Morin, o humano não vive só de cálculo, produção, consumo e eficiência. Vive também de arte, vínculo, comunidade, beleza, natureza, corpo, afeto e sentido.

A regeneração moral

Morin diz que a reforma de vida comporta uma reforma moral. Mas ele faz uma distinção importante: não se trata de criar novos princípios morais abstratos, nem de adaptar a ética ao nosso tempo.

Ao contrário:

é preciso adaptar o nosso tempo à ética.

Ele critica as morais do amor e da fraternidade quando elas ficam apenas no discurso. Muitas religiões e ideologias que pregavam amor e fraternidade também produziram ódio, perseguição, fanatismo e incompreensão.

Por isso, o problema ético não está apenas na falta de bons princípios. Está na falta de autoética, de autocrítica e de compreensão de si e do outro.

Morin afirma que a civilização ocidental favorece o programa egocêntrico, enquanto o programa altruísta e comunitário permanece subdesenvolvido.

A regeneração moral precisa reativar nossas potencialidades altruístas e comunitárias.

Mas ele faz novo alerta: exortações éticas isoladas são inúteis. Pregações morais não bastam. A regeneração ética só pode acontecer junto com transformações humanas, sociais e históricas.

O aporte de uma ciência reformada

Ele diz que a ciência também precisa ser reformada para participar da regeneração humana. A ciência moderna avançou muito, mas também fragmentou o conhecimento, separou disciplinas e muitas vezes se afastou da reflexão ética.

Uma ciência reformada deveria:

  1. complexificar o conhecimento;
  2. religar disciplinas;
  3. aproximar cultura científica e cultura humanista;
  4. tornar o saber acessível aos cidadãos;
  5. favorecer uma democracia cognitiva;
  6. refletir sobre si mesma;
  7. oferecer conhecimento complexo do mundo, do humano e de si.

A expressão democracia cognitiva é importante. Significa que os cidadãos não podem ficar condenados à ignorância sobre problemas vitais. Se os grandes problemas são científicos, técnicos, ecológicos e políticos, a cidadania precisa ter acesso a conhecimentos que permitam compreender e participar das decisões.

Morin também toca numa questão ética delicada: as ciências biológicas e neurocerebrais poderão modificar a natureza humana. Isso torna ainda mais urgente uma reforma ética.

Complementaridade em circuito das reformas

Morin diz que não se trata de escolher entre quatro ou cinco reformas, nem de tratá-las como rivais. É preciso articulá-las.

A reforma de vida contribui para a reforma ética. A reforma ética contribui para a reforma de vida. A reforma da educação ajuda a pensar bem. A reforma social deve criar solidariedade, regular o lucro e favorecer qualidade de vida. A política de civilização deve apoiar a reforma da vida.

A chave é o circuito recursivo: cada reforma produz e é produzida pelas outras.

A ética, para Morin, é ao mesmo tempo autônoma e dependente. Ela não pode ser reduzida à sociedade, à política ou à educação. Mas também não floresce sozinha, fora dos contextos que a tornam possível.

Por isso ele afirma:

a reforma ética não pode ser solitária. Só pode acontecer numa polirreforma da humanidade.

A crise planetária pode abrir consciência e transformação, mas também pode gerar regressão, ilusões e barbárie. O caminho será longo, incerto e difícil.

No final, Morin afirma que a grande reforma é ao mesmo tempo realista e utópica. Utopica porque enfrenta forças gigantescas de erro e ilusão. Realista porque está dentro das possibilidades concretas da humanidade.

E ele conclui com uma ideia bonita:

as grandes transformações começam muitas vezes com movimentos marginais, desviantes, incompreendidos e ridicularizados. Quando esses movimentos se enraízam, se conectam e se propagam, podem virar força moral, social e política.

A palavra final é metamorfose. Para Morin, talvez precisemos de algo mais profundo do que uma revolução: uma transformação da forma de viver, pensar, educar, conhecer, conviver e habitar a Terra.

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *