A QUE o associativismo respondeu?
Antes de ser “teoria”, o associativismo foi estratégia de sobrevivência.
Ele nasce para responder a três crises do capitalismo do século XIX:
- Exploração do trabalho na Revolução Industrial
→ salários baixos, jornadas de 14–16h. - Exclusão do mercado
→ pequenos produtores não conseguiam competir com grandes comerciantes. - Risco e instabilidade
→ camponeses e artesãos sozinhos não suportavam perdas, doenças, quebras de safra.
A resposta foi simples e radical:
unir gente pequena para ganhar força coletiva.
COMO surgiu no mundo
a) Raízes antigas (antes do capitalismo)
Muito antes das cooperativas formais, já existiam:
- mutirões camponeses na Europa medieval
- guildas de artesãos
- caixas de socorro mútuo
- irmandades religiosas
Era um associativismo moral e comunitário, baseado em:
- confiança
- reciprocidade
- reputação
- vizinhança
→ exatamente o que você chamou de associativismo camponês baseado em confiança.
b) Marco moderno: Rochdale, 1844 – Inglaterra
28 tecelões criam a Sociedade dos Probos Pioneiros de Rochdale.
Eles definem princípios que viram base mundial:
- adesão livre
- gestão democrática (1 pessoa = 1 voto)
- retorno das sobras
- educação cooperativista
- neutralidade política e religiosa
👉 Aqui nasce a cooperativa moderna, diferente da associação comunitária.
c) Difusão no mundo (séculos XIX–XX)
- Alemanha: cooperativas de crédito de Raiffeisen
- França: cooperativas de produção operária
- Itália: cooperativas sociais
- EUA: cooperativas agrícolas e de eletrificação rural
No século XX o cooperativismo vira política de Estado em vários países.
3) E NO BRASIL?
a) Final do século XIX – início do XX
- 1889: Cooperativa dos Funcionários de Ouro Preto (MG)
- 1902: cooperativas de imigrantes alemães no RS
- forte influência da Igreja e do movimento operário
b) Era Vargas e pós-guerra
- cooperativas agrícolas integradas ao projeto de modernização
- foco produtivista
- modelo empresarial
c) Ditadura (1964–1985)
- cooperativismo tutelado pelo Estado
- associações rurais muitas vezes usadas para controle político
d) Redemocratização (anos 1980)
- Constituição de 1988 garante liberdade de associação
- surgem:
- associações de agricultores familiares
- movimentos de economia solidária
- organizações de pescadores, quilombolas, ribeirinhos
e) Anos 1990–2000
- PRONAF e FNO exigem associação formal para acessar crédito
- expansão rápida de CNPJs no campo
- mas muitas “associações de papel”
→ aqui aparece o conflito central da Amazônia:
forma jurídica ≠ associativismo real.
4) DIFERENÇAS ESSENCIAIS
Associação x Cooperativa
| Aspecto | Associação | Cooperativa |
|---|---|---|
| Finalidade | Social, política, cultural | Econômica |
| Distribui sobras | Não | Sim |
| Nº mínimo | 2 pessoas | 20 pessoas |
| Capital social | Não obrigatório | Obrigatório |
| Natureza | Sem fins lucrativos | Sociedade de pessoas com fins econômicos |
Associativismo camponês x associativismo burocrático
1. Camponês (tradicional)
- mutirão
- troca de dias
- compadrio
- fundo de panela
- palavra vale mais que contrato
Base: confiança e reputação
2. Burocrático (induzido)
- estatuto
- ata
- CNPJ
- exigência bancária
- prestação de contas
Base: regra formal e crédito
👉 Quando o segundo ignora o primeiro, surgem:
- desconfiança
- clientelismo
- inadimplência
- associação fantasma
5) O QUE MUDOU NO TEMPO ATUAL
Mundo
- cooperativas viraram grandes empresas (ex.: Mondragón, Aurora, Sicredi)
- surgem cooperativas sociais e de plataforma
- debate ambiental e governança dos comuns (Ostrom)
Brasil
Três modelos convivem:
- Cooperativismo empresarial
– agroindústria, crédito, grandes cadeias. - Economia solidária
– autogestão, feiras, agroecologia. - Associações de política pública
– PNAE, PRONAF, manejo comunitário.
Amazônia
Desafio específico:
- povos tradicionais têm lógica própria
- Estado exige formato padrão
- tensão entre:
- território vivo
- planilha bancária
PDF de aula
- Analisar a importância do associativismo para pequenos produtores rurais.
- Avaliar benefícios econômicos, sociais e agrícolas gerados pela organização coletiva.
- Estudo de caso da Associação de Famílias de Produtores Rurais da Queimada Velha, em São Sebastião do Paraíso (MG)
Contexto e fundamentos
- A agricultura familiar é estratégica para abastecimento alimentar e desenvolvimento local.
- O associativismo ganhou força no Brasil a partir de 1980, com incentivo da Constituição.
- Associações são organizações sem fins lucrativos, baseadas em gestão democrática e ações coletivas.
Princípios do associativismo
- Adesão voluntária e livre.
- Gestão democrática pelos associados.
- Participação econômica justa.
- Autonomia e interdependência.
- Educação e formação contínuas.
- Cooperação entre associações.
- Compromisso com o desenvolvimento da comunidade.
Diferença entre associação e cooperativa
- Associação: foco na defesa de interesses coletivos, sem finalidade lucrativa.
- Cooperativa: organização econômica que comercializa e distribui resultados entre membros.
- Número mínimo: associação (2 pessoas), cooperativa (20 pessoas).
Papel da agricultura familiar
- Responde por cerca de 70% dos alimentos consumidos no Brasil.
- Emprega 74% da mão de obra do campo.
- Apoiada por políticas públicas como o PNAE e linhas de crédito específicas.
Estudo de caso – Associação Queimada Velha
- Fundada em 2002 para unir produtores e facilitar acesso a máquinas e mercados.
- Apoio inicial da prefeitura com trator e implementos.
- Comercialização para escolas (PNAE) e redes de supermercados.
- Associação emite notas fiscais e repassa pagamentos aos produtores.
Benefícios percebidos
- Acesso a maquinários e insumos.
- Facilidade de comercialização e formalização fiscal.
- Maior poder de negociação coletiva.
- Fortalecimento da produção individual.
Problemas identificados
- Pouca participação nas reuniões.
- Falhas de comunicação e transparência financeira.
- Carência de assistência técnica especializada.
- Necessidade de novos implementos e maior união entre produtores.
Conclusões
- O associativismo é ferramenta central para inserir pequenos produtores no mercado.
- Programas públicos potencializam os resultados da organização coletiva.
- A associação fortalece a comunidade, mas precisa aprimorar gestão e participação interna.
E também:
Objetivo do estudo
- Analisar a expansão das associações formais no meio rural do Nordeste paraense.
- Verificar se essas entidades realmente expressam associativismo autêntico (baseado em confiança e cooperação) ou se são apenas exigências burocráticas para acessar políticas públicas.
Contexto amazônico
- Grande diversidade de grupos: pescadores artesanais, agricultores familiares, quilombolas, extrativistas.
- Crescente difusão da forma jurídica “associação”, estimulada por:
- Programas de crédito (FNO, PRONAF);
- Políticas ambientais e de gestão de reservas;
- ONGs e agências de desenvolvimento.
Problema central
- A associação formal nem sempre corresponde às formas tradicionais de cooperação camponesa (mutirões, ajuda familiar, trocas de dias).
- Muitas entidades tornam-se grupos apenas formais, criados para cumprir exigências bancárias.
Metodologia
- Entrevistas com líderes de 43 associações em quatro municípios do Pará.
- Tipos pesquisados: agricultores (48%), pescadores (26%), quilombolas (12%), mulheres, artesãos e mistas.
Principais achados
1. Associações induzidas pelo crédito
- Dois terços foram criadas para acessar FNO/PRONAF.
- Formação apressada, sem base de confiança prévia.
- Associações funcionavam como intermediárias de contratos, não como espaços de decisão coletiva.
2. Efeitos negativos
- Desconfiança entre sócios e dirigentes.
- Reforço de práticas clientelistas: políticos e sindicatos como mediadores.
- Elevada inadimplência e descrédito nas organizações.
3. Falhas das políticas públicas
- “Pacotes” de financiamento descolados da realidade local.
- Assistência técnica insuficiente.
- No caso da pesca, aumento do esforço sem considerar limites ambientais.
Quando dá certo?
- Associações com melhor desempenho tinham:
- Histórico prévio de trabalho coletivo;
- Redes de apoio com ONGs e órgãos públicos;
- Atividades próprias (plantios coletivos, fundos comuns).
Conclusões
- Associação legal ≠ associativismo real.
- Imposição institucional pode desestruturar laços tradicionais.
- É necessário:
- diálogo com as lógicas camponesas;
- contratos mais flexíveis;
- políticas construídas de forma participativa.