PALESTRA1: Mário Adônis Silva
pedagogo, mestre em Educação pela UFOPA e atua em Santarém na área de educação, com trajetória ligada à formação docente e à reflexão crítica sobre escola, ciência e sociedade. Sua produção acadêmica dialoga com temas como historicidade da educação, religiosidade e escolarização.
1. Diferença entre moral e ética
A moral aparece como o conjunto de normas, costumes e regras socialmente estabelecidas em determinado tempo e contexto. Já a ética é apresentada como uma reflexão mais profunda e crítica sobre a ação humana, orientada por princípios que devem ser examinados à luz da dignidade humana. Nessa chave, nem tudo o que uma sociedade aceita como normal pode ser considerado eticamente legítimo.
Ética por Rousseau propriedade privada
O professor relaciona essa reflexão a diferentes tradições filosóficas. Em Rousseau, aparece a crítica à desigualdade produzida pela propriedade privada, entendida como marco histórico de distorção das relações humanas. A lembrança de Rousseau, aqui, não serve apenas como referência histórica, mas como provocação contemporânea: quando a apropriação privada da terra, dos bens comuns e da natureza se converte em regra, a vida coletiva passa a ser organizada menos pela justiça do que pela dominação.
Ética por Comte hierarquia das ciências
Ética por Comte base do conhecimento científico matemática, sociologia ápice, todas as ciências a serviço da dignidade do ser humano, todas as vezes que a ciência vai contra os interesses do ser humano vai contra a ética.
Ao mencionar Auguste Comte, o professor recupera a ideia de hierarquia das ciências e o papel da sociologia como ponto culminante do conhecimento positivo. Mas o ponto central não é simplesmente classificatório. O que se destaca é a noção de que a ciência deve estar a serviço da humanidade. Assim, sempre que o conhecimento científico, técnico ou universitário é mobilizado contra os interesses humanos, contra a justiça social ou contra as condições ecológicas de existência, ele entra em contradição com sua própria razão ética. Não basta que algo seja tecnicamente possível ou metodologicamente defensável. É preciso perguntar a serviço de quê e de quem esse saber está sendo colocado.
Ética por Kant hierarquia das ciências
se kant diz q ética é categorica, nao é condicional, quando o indíviduo ignora a ética profissional e faz pareceres técnicos para coisas que vao contra a dignidade humana a favor de um emprrendimentos capitalistas como a mineracao, a monocultura, a destruição ambiental por um porto de soja em sitio arqueológico em Santarem…
Nesse contexto, a referência a Kant aparece de forma decisiva. Se a ética tem caráter categórico, e não meramente condicional, então ela não pode ser dobrada por conveniências econômicas, políticas ou institucionais. Isso significa que o profissional que elabora laudos, pareceres ou estudos técnicos favoráveis a empreendimentos sabidamente destrutivos não pode se escudar apenas na legalidade formal de seu ato. Ainda que siga protocolos, ele incorre em grave problema ético se contribui para processos que ferem a dignidade humana e degradam a base material da vida. Essa crítica se torna especialmente contundente quando aplicada a situações concretas da Amazônia, como mineração predatória, monoculturas extensivas e grandes empreendimentos portuários que ameaçam territórios, sítios arqueológicos e modos de vida em Santarém.
A palestra também trouxe uma crítica importante à compreensão corrente da universidade. Segundo o professor, a universidade costuma ser definida como instituição produtora de conhecimento, mas essa formulação exige maior precisão. Conhecimento, em sentido amplo, é produzido por todos os sujeitos em sua experiência concreta de vida, inclusive por comunidades tradicionais, povos indígenas, trabalhadores e populações que enfrentam e resolvem problemas práticos no cotidiano. O que caracteriza a universidade, mais especificamente, é a produção de ciência, isto é, de explicações sistemáticas, causais, conceituais e metodologicamente organizadas sobre a realidade. Essa distinção é importante porque impede que a academia se arrogue o monopólio do saber e, ao mesmo tempo, esclarece sua responsabilidade própria.
Enquanto instituição produtora de ciência, a universidade deveria contribuir para que a sociedade compreendesse melhor seus problemas e construísse soluções mais justas. No entanto, segundo a crítica apresentada, houve um desvio histórico de rota. Capturada pelos interesses da burguesia e pela manutenção da ordem vigente, a universidade muitas vezes deixa de cumprir sua função emancipadora e passa a operar como engrenagem de reprodução social. Em vez de formar sujeitos livres, críticos e comprometidos com o bem comum, ajuda a instrumentalizar o ser humano e a legitimar estruturas de exploração. Daí a necessidade, defendida pelo professor, de um resgate da ética profissional e acadêmica, capaz de recolocar ciência e formação universitária a serviço da dignidade humana e não da acumulação capitalista.
O professor Mário Adônis também recorre a Gramsci para destacar uma fratura histórica entre saber e sensibilidade. Em formulação bastante conhecida, a ideia é que os intelectuais muitas vezes sabem, mas não sentem, enquanto o povo sente, mas nem sempre dispõe dos instrumentos teóricos para explicar aquilo que vive. O problema, então, não é opor povo e intelectualidade, mas denunciar essa separação e defender a necessidade de recompor conhecimento e sensibilidade, reflexão e indignação, teoria e vida concreta.
A crítica do professor vai além. Ele sugere que a sociedade contemporânea vem passando por um processo de embrutecimento, no qual os seres humanos perdem progressivamente a capacidade de se indignar diante daquilo que é feio, injusto, cruel e desumanizador. Esse ponto é central, porque a perda da indignação não é apenas um problema emocional ou moral individual. Trata-se de um efeito histórico de uma ordem social que normaliza a violência, a desigualdade e a destruição, até que passem a parecer inevitáveis, banais ou mesmo aceitáveis.
Nesse sentido, a formação humana não pode ser reduzida à aquisição de técnicas, títulos ou competências funcionais. Tornar-se humano exige desenvolver qualidades que efetivamente nos conferem humanidade, como solidariedade, pertencimento, responsabilidade diante do outro e capacidade de reconhecer a dor e a beleza do mundo. Sem isso, pode haver instrução, especialização e até erudição, mas não há humanidade plena. A crítica do professor sugere justamente que uma sociedade pode produzir indivíduos altamente treinados e, ao mesmo tempo, profundamente dessensibilizados.
Essa reflexão reforça a crítica anterior à universidade capturada pela lógica burguesa. Quando a formação acadêmica privilegia apenas desempenho, produtividade e adequação ao mercado, ela corre o risco de formar profissionais competentes do ponto de vista técnico, mas incapazes de reagir eticamente ao sofrimento social e à devastação ambiental. A consequência é grave: laudos são assinados, pareceres são emitidos, políticas são justificadas e territórios são destruídos sem que isso mobilize a consciência de quem participa desses processos.
No horizonte defendido pelo professor, portanto, o resgate da ética passa também por um resgate da sensibilidade humana. Não basta saber. É preciso sentir o peso do mundo, reconhecer a injustiça e recusar a naturalização da barbárie. Só assim ciência, universidade e formação profissional podem voltar a servir à vida, e não à reprodução de uma ordem que transforma pessoas e territórios em meros instrumentos.
a universidade vem sendo identificada coomo instituicao produtora de conhecimento, mas ela nao é isso, ela é produtora de ciencia, pq quem produz conhecimento é cada indíviduo que resolve seus obstáculos e atua e encontra respostas, mas por limitacoes ele nao consegue fazer uma explicacao causal para aquela solucao por ele causada. por exemplo, nossas relacoes tradicionais sabem de muita coisa.
- enquanto produtora de ciencia deve ajudar a sociedade na solucoa de seus problemas, mas tem um desvio de rota, por ter sido conquistada pela burguesia, a universidade foi apropriada como instrumento mantenedor da ordem vigente. instrumentalizar o ser humano
PALESTRA1: Raimunda Lucineide Gonçalves Pinheiro
Pedagoga, doutora em Ciências Ambientais e professora da UFOPA, com atuação em Santarém voltada à educação, ética e sustentabilidade. Sua trajetória acadêmica articula formação humana, educação ambiental e uso sustentável da água, com forte inserção regional amazônica.
A discussão é ampliada a partir de uma perspectiva de ética latino-americana, que busca romper com o eurocentrismo e recolocar a reflexão ética desde os territórios, os povos e as contradições concretas de nossa história. Ela reforça a diferença entre ética e moral, mas acrescenta um ponto fundamental: a ética não deve se limitar à dignidade do ser humano, devendo abranger também a natureza. Esse acréscimo é decisivo, porque desloca a reflexão para uma compreensão mais ampla da vida, na qual o humano não pode ser separado da trama ecológica que o sustenta.
Nessa formulação, a ética diz respeito a princípios mais profundos de respeito à vida, à dignidade e às condições de existência, enquanto a moral corresponde a códigos socialmente construídos e, por isso, variáveis conforme o grupo social, o território e a época. Desse modo, o que é legal nem sempre é ético, e o que é moralmente aceito em determinado grupo também pode ser injusto. A professora exemplifica isso ao falar da “moral do garimpeiro”, da “moral do desmatador” e da “moral da burguesia”: universos normativos próprios, internamente coerentes para seus agentes, mas que frequentemente normalizam devastação, desigualdade e violência.
Essa formulação é muito importante porque desmonta a confusão frequente entre legalidade, moralidade social e justiça. Um empreendimento pode cumprir exigências burocráticas, obter licenças e ser defendido por especialistas, e ainda assim representar uma agressão ética à vida humana e não humana. É nesse ponto que a professora traz a crítica aos EIA/RIMA que, apesar de formalmente bem estruturados, podem ser usados para legitimar megaprojetos profundamente lesivos. O exemplo do porto do Maicá em Santarém é emblemático: um estudo de impacto pode afirmar compatibilidade normativa e minimizar danos, mas isso não elimina a pergunta ética sobre os efeitos reais do empreendimento sobre comunidades, águas, ecossistemas, patrimônio arqueológico e futuros possíveis da região.
A menção a Enrique Dussel ajuda a aprofundar ainda mais essa crítica. Na filosofia da libertação, Dussel questiona a totalidade de um sistema que naturaliza a dominação e transforma seus agentes em sujeitos incapazes de sentir o peso ético da violência que reproduzem. Quando você anota a ideia do “herói dessa totalidade que não sente peso na consciência”, isso conversa muito com essa chave: trata-se do sujeito que cumpre sua função dentro do sistema, sente-se correto por obedecer às regras do jogo, e por isso já não percebe o sofrimento dos que ficam fora ou abaixo da ordem dominante. Ele se pensa racional, técnico, eficiente, até meritório, mas atua dentro de uma estrutura que produz exclusão e destruição. A ausência de culpa, nesse caso, não é sinal de inocência moral, mas de adaptação profunda à lógica da totalidade.
A professora também critica a compartimentação e a fragmentação do conhecimento nas universidades, como se a realidade pudesse ser dividida em partes isoladas, estudadas separadamente, sem relação viva entre si. Esse modo de pensar, herdado da racionalidade moderna e funcional ao pensamento burguês, reduz a complexidade do mundo e enfraquece a capacidade crítica da formação universitária. Em vez de compreender os fenômenos em sua totalidade histórica, social, ecológica e territorial, a universidade frequentemente os transforma em objetos técnicos recortados, administráveis e despolitizados.
Essa crítica dialoga com Edgar Morin, para quem a fragmentação disciplinar impede compreender a complexidade do real. Quando se separa o econômico do ecológico, o técnico do humano, o território de sua memória, ou a natureza dos sujeitos que a habitam, perde-se justamente o essencial: as relações. E é nesse vazio que prospera o pensamento dominante, porque um conhecimento fragmentado enxerga menos, questiona menos e serve mais facilmente à manutenção da ordem.
Nessa perspectiva, não se pode discutir, por exemplo, o Maicá apenas como área logística, hidroviária ou objeto de licenciamento. Falar do Maicá exige falar também de seu povo, de seu território, de sua história, de seus modos de vida, de sua ecologia, de suas águas, de sua pesca, de sua memória e das relações que sustentam a vida naquele espaço. Quando esses vínculos são apagados, o território vira apenas “área de implantação”, e a violência do empreendimento passa a ser tratada como detalhe técnico. A fragmentação do saber, portanto, não é neutra. Ela pode funcionar como mecanismo de dominação, porque ajuda a invisibilizar a totalidade concreta dos impactos e a neutralizar o juízo ético.
ética latinoamericana rompendo com o pensamento eurocentrico
a uma grande diferenca entre ética (dignidade ao ser humano e à natureza [ela acrescenta a natureza]), que é absoluta, e a moral (regras da sociedade), que é relativa ao tempo, grupo social, território etc. E o que é legal nem sempre é ético, nem sempre é moral.
cita a moral do garimpeiro, a moral do desmatador, a moral da burguesia… que cria injusticas e destruição
Dussel? herói dessa totalidade q nao sente peso na consciencia
Emanel devira
outridade o outro naquilo que ele é , seu principio fundamental,
acolhida
da resposnsabilidade