Mama África

O que a Mama África fez que Bush Filho, Bill Clinton, Monsanto, Bill Gates estão todos fantasiados de Madre Teresa? Quantos bilhões de dólares as farmacêuticas americanas estão levando nos acordos com o governo americano. Como achar este valor? Dinheiro que paga não só as farmacêuticas e campanhas políticas, mas também financia diversos outros interessados.

Em 2003, Bush lançou o plano de ajuda PEPFAR 2003-2009, com a doação de U$15 billhões de dólares para o combate da AIDS nos países mais atingidos pela epidemia. Em 2004, grande parte do orçamento daquele ano foi destinado à compra de medicamentos patenteados (ou seja, dos grandes laboratórios farmacêuticos como Merck, Abbott, Pfeizer, Bristol-Myers, Roche). Este mesmo período foi marcado pela eleição presidencial americana. A campanha de Bush recebeu forte apoio das mesmos laboratórios e outras empresas envolvidas com a guerra no Iraque. Sem surpresa, Bush foi reeleito.

Além da droga

Em pesquisa divulgada em 2004, a Organização Mundial da Saúde estimou que 39,4 milhões de pessoas no mundo estavam com o Vírus da Imunodeficiência Humana (HIV). Das pessoas afetadas, 65% (25,4 milhões) viviam na região sul do continente africano, conhecida como África Subsaarina: Angola, Moçambique, África do Sul (Bono), Namíbia (Jolie-Pitt), Malawi (Madonna), Lesotho, Suazilândia e Zimbábue. Porém, para resolver a epidemia na África, não basta garantir “distribuição gratuita” dos medicamentos. Primeiro, sem treinamento ninguém sabe o que fazer com aquilo. Outros dois fatores devem ser considerados:

  1. uma vez iniciado o tratamento, este não deve ser interrompido para o resto da vida do paciente; em caso de descontinuidade -temporária que seja-, o corpo gera resistência e vírus mutantes são espalhados. Podemos pensar em populações inteiras contaminadas com vírus mutantes!
  2. falta infra-estrutura: não há hospitais e nem pessoal de saúde (médicos) capacitados para prescrever o tratamento.

Sobre o primeiro ponto, eu só tenho uma pergunta: o governo americano vai doar remédios para o resto da vida de todos os pacientes que iniciaram o tratamento, uma vez que não se deve parar? Êta lobby bom. As farmacêuticas estão felizes. Afinal, seria extrema falta de noção iniciar um trabalho na África sem a certeza da continuidade? Pobre África, que sofre de problema histórico.

É mais fácil, por ora, solucionar o segundo ponto, a falta de pessoal qualificado. O governo americano contrata inúmeras ONGS e departamentos inteiros de universidades públicas para desenvolver treinamentos em linha de produção. São cursos sobre questões básicas de gestão de saúde e cuidado ao paciente soropositivo.

Milhares de profissionais e estudantes de escolas de Saúde Pública (com salários entre U$5 a U$20 mil por mês, o que totaliza bilhões de dólares por ano) trabalham na produção enlouquecida e sem planejamento de cursos de formação. Público: enfermeiras, técnicos de medicina e conselheiros. Sim, porque os médicos africanos não estão na África. Os que estão por lá são todos de ONGs internacionais, muito bem pagos por suas organizações.

Só o I-TECH, Centro Internacional de Treinamento e Educação em HIV, ligado à Universidade de Washington, recebeu este ano 19,2 milhões de dólares. Este dinheiro foi investido em treinamentos na África, Ásia e Caribe, feitos às pressas para usar o orçamento do ano fiscal.

Então vem Bush, sempre cristão, dizer que os africanos precisam seguir o princípio ABC, com base na abstinência e fidelidade. Povo mais sem-vergonha, né, presidente? Campanhas para sexo só após o casamento ou celibato. Ah, rapaz, vai aprender com o Brasil que sexo é bom no carnaval!

Também vamos para o céu

Bill Gates -com a maior fundação do mundo- inventou um gelzinho lubrificante que mata o vírus ali, no ato. Nada de falar para o povo parar de transar. Nada de falar que sexo depois do casamento é mais seguro. No lugar de dizer para mulherada que elas precisam forçar o maridão a usar camisinha, Gates confere autonomia à mulher. Agora ela pode se proteger, sem depender da vontade do outro. Em outra frente, Gates investe na descoberta da cura, na busca incansável por vacinas.

A Monsanto, vilã dos orgânicos, também tem sua cota no desenvolvimento de suplementos nutricionais. Fome Zero 2, uma solução imediata. Porque quem tem anti-retroviral no estômago, também precisa de comida.

A Fundação Clinton aproveita os fundos e patrocínios do governo para promover mais cursos para médicos na África e Ásia. Inúmeras ONGS e Fundações correm em paralelo, na realização de programas descentralizados. Todos se criticam, poucos se abraçam numa ação conjunta. Re-trabalho em escala.

Mama África é a mãe de todos. É tão bom ajudar a África, um senso de realização pessoal, o gosto de fazer o bem. Isso me faz lembrar de Sharon Stone, em Davos 2005. A loira arrecadou 1 milhão de dólares, numa cruzada de pernas, para o governo da Tanzania comprar redes contra mosquitos.



6 Comments

  1. Ana Carmen wrote:

    Adorei ter uma guia no cipoal de interesses que assolam o continente mais fragilizado de todos.

    Quero saber mais, quero mais detalhes, quero entender quem joga do lado de quem. Há mocinhos nessa história?

  2. Thaianne wrote:

    Preciso fazer um trabalho de colégio e gostaria de saber o significado de “Os filhos da Mama África”
    Podem me explicar o q exatamente significa isso?
    Obrigada****

  3. Patrícia Kalil wrote:

    Oi Thaianne,
    Eu não tenho seu e-mail, uma pena. Eu só queria lhe responder que eu não sei quem são os filhos da Mama África.

  4. Patrícia Kalil wrote:

    Aninha, tem saída? Pensei na sua pergunta, sobre mocinho e bandido: tem mocinho?
    Tem vítima, pobreza, doença, fome, analfabetismo. Tem política, grana, lucro, muito lucro. Tem corrupção, emprego para estrangeiro, muito emprego. Tem tradição, tem choque, tem dor. Vez por outra, tem herói, sim. E são pessoas de lá. Sem saída.

  5. [...] por exemplo, onde a situação é catastrófica – e a informação, mínima. A Pati Kalil escreveu sobre sua experiência em Moçambique e acho mais que pertinente citar isso [...]

  6. [...] motiva corrupção e uso errado do poder? dentro desse mesmo tópico, leia também o artigo “Mama África” que escrevi sobre a “ajuda” da indústria farmacêutica no continente [...]

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