EAD em Moçambique
Ainda não posso deixar o link para o relatório, porque agora o bichinho vai passar de mão em mão para pegar assinatura de gente importante e sofrer mudanças internas na Universidade de Washington (UW). De toda forma, não vejo a hora de ver a pesquisa publicada. A vida é rara, o mundo é grande e o objetivo da educação é muito mais belo que politicagem interna e tapas no ombro. No entanto, pelo menos aqui na casa de Alice, vou me dar o crédito merecido por esse trabalho bonito e, sim, cansativo.
Para ler mais…
Preparação: de outubro a dezembro
Tudo começou em outubro do ano passado, com muita pesquisa sobre a história recente moçambicana. Eis aqui uma breve introdução para contextualizar meu amigo leitor.
Moçambique é o quinto país mais pobre do mundo, ocupando o 172 lugar de uma lista de 177 países avaliados. Com graves atrasos na rede de eletricidade (só 13% tem luz) e distribuição de água potável (só 32% tem água), a população sofre para ter as mínimas condições de vida . O capengante sistema público de educação e saúde rasteja graças à ajuda internacional*.
Depois da independência de Portugal em 1975, o país enfrentou uma guerra civil de 1977 até 1992. A luta foi travada entre o partido Frente de Libertação de Moçambique apoiado pelos soviéticos e o partido de Resistência apoiado pela África do Sul (e Estados Unidos). O pouco da estrutura que restava depois da guerra de independência foi destruída.
A taxa de HIV é alta (20%) e a expectativa de vida é baixa (50 anos). Por causa da guerra e doença, Moçambique é um país adolescente, com 45% da população mais nova que 15 anos. O passado duro também é marcado pelo baixo índice de alfabetização (57% homens, 32% mulheres). Não há profissionais da saúde porque falta escolas de nível básico. Não há escolas porque falta muita coisa. O problema do baixo letramento é também fruto do modelo de colonização português com economia baseada na exploração agrícola. Em 1975, cerca de 90% da população era analfabeta porque negros tinham difícil acesso à escola. Os brancos e “assimilados”, como eles falam, estudavam em escolas privadas católicas ou nas missões. Os mais influentes, mudavam-se para a Europa.
Mergulhamos juntos até aqui? Então agora vou voltar para a fase de preparação da “Avaliação Nacional para Educação à Distância: Capacidade e Demanda”. Eu precisava encontrar e entrar em contato com instituições de ensino técnico de saúde, descobrir ações de Educação à Distância (EAD) já em uso, fazer uma lista dos locais para visitar, levantar dados oficiais sobre desenvolvimento de infra-estrutura, tecnologia, saúde e educação em Moçambique nos últimos 10 anos. Só com essa lição-de-casa feita pude traçar um primeiro termo de objetivos da avaliação e roteiro da pesquisa para a equipe da UW apresentar para o governo. Também, definir com o grupo da UW os questionários a serem usados.
Pesquisa de campo: fevereiro
Como janeiro não é um bom mês para visitar instituições de ensino, a pesquisa de campo foi marcada para fevereiro. Visitei 4 estados (lá chamados províncias) e 7 cidades (lá chamados distritos). Minha dupla de pesquisa não falava português e, então, em 4 semanas eu precisei conduzir os:
- 4 grupos de discussão com trabalhadores de saúde em hospitais (de 5-8 pessoas cada)
- 4 grupos de discussão com professores em escolas técnicas de saúde (de 5-8 pessoas cada)
- 4 grupos de discussão com alunos (de 5-8 pessoas cada)
- 4 entrevistas individuais com diretores e diretores pedagógicos das escolas técnicas
- entrevistar o diretor de um projeto de EAD que foi feito através de rádio e correspondência para formar professores de escolas pública nos anos 80 e 90, Miguel Buendia (que publicarei a entrevista inteira nesse site porque vale!)
- entrevistar o diretor do Instituto Nacional de Educação à Distância (INED)
- entrevistar a coordenadora nacional da rede de Telecentros e Rádios Comunitárias no país
- entrevistar o coordenador de uma das rádios comunitárias em um distrito rural
- entrevistar diretores de três ONGs na área da saúde com projetos educativos: HAI, FGH e HeF
Já ciente da falta de domínio de português da minha dupla, gravei e tomei copiosas notas de tudo. Ainda em Moçambique, apresentei o projeto de pesquisa para o Centro de Controle de Doença dos Estados Unidos (CDC-USA) em Maputo e para o Ministério de Saúde (MISAU). Ah, um dia antes de voltar, fiz uma apresentação durante o primeiro Seminário Internacional de Educação à Distância de Moçambique, com a ilustre presença da Fundação Oswaldo Cruz do Brasil, para contar mais sobre a pesquisa e fazer um resumão da situação no país.
Entrada de dados: março
Em casa, fiz metade das transcrições dos áudios, terceirizei a outra metade. O tempo ia sem demora.
Ainda em março, ficou sob minha responsabilidade escrever um primeiro documento com “achados preliminares” para ser entregue ao CDC e MISAU. Em adição, definir uma estrutura de relatório, capítulos e temas por capítulo, para o próximo passo.
Relatório: abril
Os capítulos a serem escritos e autores ficaram definidos como abaixo:
- Introdução: Moçambique
- Introdução: o que é Educação à Distância
- Introdução: qual foi a metodologia da pesquisa (entrevistas, focus group)
- Capacidade das Instituições de Formação Técnica em Saúde de Moçambique – autor: P.K
- Sumário dos Principais Programas de EAD em Moçambique – autor: P.K
- Análise da Infra-estrutura de Moçambique: eletricidade à internet – autor: P.K.
- Potencial para EAD no país – autor: P.K e A.N.
- Demanda de EAD para trabalhadores de saúde segundo stakeholders – autor P.K.
- Recomendações
Hoje, entreguei meu último capítulo. Agradeço do fundo do meu coração todo o apoio, carinho, paciência para revisão, questionamento, edição e atenção de Laurent nesse mês. Todo o material foi entregue em inglês corretíssimo, um capítulo por semana, sem furar.
Estou muito feliz com a pesquisa, aprendi muito, apanhei outro tanto.
Sempre em frente, nunca pra trás
A semana que vem vou desligar computador, fechar lojinha e ir para o meio de lugar nenhum. Daqui uma semana volto! Até lá.
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*mais de 60% do produto interno bruto do país vem de ajuda externa. Tal disparate atualmente levanta sérias perguntas sobre efetividade da “ajuda”: é para estimular a autonomia e crescimento do próprio país ou para produzir uma nova forma de dependência via essa militante “neo-colonização”? Quanto disso motiva corrupção e uso errado do poder? Dentro desse mesmo tópico, leia também o artigo “Mama África” que escrevi sobre a ação da indústria farmacêutica no continente africano.

Você é muito divertida, na forma como encara a vida. E cheia de energia. Parabéns pelo esforço. Não vejo a hora de ler! Abraçao e bom descanso no meio de lugar nenhum… (vai levar o Kindle?)
e, no meio do tiroteio, linda Pata ainda achou jeitinho de juntar duas girafas. Really hope the other giraffe can read us…
<3 sempre.
Os pés na terra, as mãos espalhando luz… os olhos e o coração para o alto, sempre!
Te amo.
[...] EAD em Moçambique Recomendo acompanharem o Blog da Patricia Kalil http://www.patriciakalil.com/blog/?p=1125 nele, ela relata uma pesquisa que esta em sua fase final sobre a situação de nossos amigos de [...]
olá
Muito interessante este relato. Há algum site onde se possa ter acesso aos resultados sobre o EAD em Moçambique. Obrigada.
zé