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O Haiti é aqui

20100121 16:34

CrisisCommons

Quando vi o Haiti recebendo a ajuda que o povo tanto precisa depois do terremoto que devastou o país no dia 12 de janeiro, tive duas reações: uma de alegria com a comunidade internacional que é capaz de rapidamente socorrer um país em situação de crise, outra de receio pois ninguém planeja as ações de maneira transparente. O risco de metade do esforço ir para o ralo em reuniões, confusões e falta de foco precisa ser evitado.

Penso muito sobre a duplicação de esforços da ajuda internacional desde que passei um tempo em Moçambique. Sabemos que muitos projetos internacionais nas áreas da saúde, educação e moradia são feitos em regiões carentes e sem recursos. Porém, o modelo de ação e de relacionamento entre as organizações internacionais e governos mais dificulta a eficácia desses projetos, que muitas vezes são bem financiados, que qualquer outra coisa. Para piorar, a forma como o dinheiro de ajuda é gasto na contratação de pessoal também parece bastante controversa. A falta de respeito aos profissionais locais do país é evidente. Profissionais locais quase nunca são seriamente levados em conta, apesar de conhecerem o problema e entenderem os caminhos sociais, políticos e culturais profundamente.

A comunidade deveria ter um mapa do que precisa ser feito e selecionar projetos de organizações não-governamentais para atuarem em pequenas partes do problema, envolvendo o pessoal local. Sentia falta de um espaço que organizasse os projetos em andamento e mapeasse tudo claramente, para evitar repetição e desperdício. Por isso, a proposta do Crisis Commons merece destaque: um espaço que visa a participação e monitoração por quem faz e precisa.

O que acontece:

As organizações internacionais não governamentais parecem brigar pelo mesmo pedaço de pão (desculpe a ironia, mas acho importante lembrar que o negócio das instituições filantrópicas é justamente a falta de condições básicas de moradia, educação e saúde). Quando essas situações de crise aparecem, essas organizações movimentam-se em busca de projetos para solucionar o problema.

O problema é que quando as organizações humanitárias se movimentam, elas giram em torno do próprio umbigo. Em outras, escrevem os projetos com inteligência da casa, contratam profissionais especializados também de sua rede fechada de colegas e entram na região carente para realizar o tal plano já com a ‘cambada toda’ reunida com salários justos (em dólar/euro). Na região de ajuda contratam somente os auxiliares de limpeza e motoristas, profissionais baratos sem especialização e que recebem em moeda local. Até então, o que houve foi um projeto internacional financiado por doação de um governo/fundação/empresa estrangeira que empregou equipe de fora. Sim, a maioria dos profissionais que atuam em projetos sociais internacionais são estrangeiros, sendo eles acadêmicos, especialistas, empresas ou estudantes. Para ‘colorir’ ainda mais esse cenário pouco discutido, quando o dinheiro da comunidade européia é usado em um projeto social na África, por exemplo, a entidade que ‘administra’ a doação deve prioritariamente usar fornecedores europeus. O mesmo para projetos americanos, que usa fornecedores americanos. O dinheiro retorna ao bom filho. Mas vamos em frente…

Como funciona:

Parte do dinheiro vai para a organização/universidade em forma de doação e essa deve prestar contas de como administrou o fundo (contratando especialistas, organizando materiais pedagógicos, em viagens, em eventos e congressos, para publicações e, certamente, com custos administrativos). Outra parte do dinheiro doado vai diretamente para o governo do país beneficiado, para que contrate serviços de ajuda. Em outras palavras, o ministério ou secretaria que precisa de ajuda recebe o fundo (ex: min. saúde, educação, planejamento) para investir nas áreas em crise. Esse ministério escolherá e ‘apoiará’ alguns projetos internacionais. Daí começa o lobby das ONGs, fundações e universidades, em reuniões ‘bem caras’ com esses representantes do governo local.

Para se ter idéia do custo de uma reunião, calcule que em média cada profissional internacional recebe 40 dólares por hora para estar ali, além das passagens, noites de hospedagem, dias de alimentação, horas de táxi ou motorista. Em reuniões longas e constantes, que abarcam mais de um desses consultores especialistas, muita coisa é não-resolvida e encaminhada.

O processo de ajuda parece afundar em um festival político. O governo sem o devido preparo ou planejamento segue no controle do saco de dinheiro doado para financiar projetos estrangeiros. Entra cá, vai cá, entra lá, vai lá. E a coisa vai para frente ao passo mole e enrolado da burocracia, nas mãos de administradores que não se preocupam em analisar todos os projetos para evitar a duplicação de esforços, sem interesse em resultados. Viva o projeto assinado em reunião, com carimbo e aperto de mão. O voluntariado e grupo de especialistas que trabalham no campo tocam o plano como podem, sem condições, com pouco apoio e à base de muito empurra-empurra.

Daí encontramos um monte de gente de real boa vontade, como os voluntários, os estudantes, os idealizadores do projeto perdidos entre politicagem com o governo local e lobbistas. E no meio desse mar político, até as pessoas de boa vontade ficam amarradas em reuniões para explicar porque o projeto deles é tão importante ou porque o da organização “concorrente” não é assim tão prático como o deles.

Não por acaso, encontramos 20 organizações fazendo exatamente a mesma coisa, sem cooperar, sem dialogar, sem contribuir uma com a outra para solucionar o mesmo problema. Isso tudo entre organizações internacionais de ajuda. Se optarmos que tudo seja centralizado por uma organização mundial (que seria a ONU) teremos o risco de mais burocracia e lentidão.

Por isso, um projeto como o da Crisis Commons deve ganhar espaço. Vamos colocar quem está com a mão na massa para discutir, organizar e trabalhar igualmente. Vamos participar de maneira inteligente, eficiente e honesta. E que cada organização atue com foco em somente uma parte do problema e colabore ativamente para o sucesso da organização vizinha.

Habitat for Humanity

20070830 16:55

new house

Burnaby, Canadá – encontramos Dallas e outros amigos para participar na construção de casas populares da organização sem fins lucrativos Habitat for Humanity. Saímos de Seattle quinta-feira à noite e sexta-feira às 8h da manhã já estávamos no local ao norte de Vancouver, prontos para trabalhar no quarto bloco de casas do complexo.

Os futuros proprietários destes pequenos sobrados de três quartos são famílias de baixa renda, sem recursos próprios, a maioria imigrantes latinos e chineses. Este é um verdadeiro projeto de inclusão. O mais interessante da proposta é apostar inteiramente no trabalho voluntário e doações, além de batalhar por parcerias importantes com o setor privado -para doação de materiais, serviços e expertise técnica local – e governo – para doação de terrenos e divulgação.

Brian at work

As pessoas que participam na construção das casas não são necessariamente as que vão morar nelas. No nosso grupo encontramos funcionários da Microsoft, pessoas de outras empresas de internet, um grupo de cinco funcionários de uma seguradora, mecânicos, engenheiros e até o dono de uma concessionária de carros. Qual a nossa parte? Um fim de semana por ano de trabalho voluntário e o sentimento de fazer algo concreto por uma comunidade mais eqüilibrada no futuro, sem jogar todo o peso da desigualdade exclusivamente no governo. Esperar a prefeitura construir casas para todos os excluídos é arrastar dezenas de famílias sem dar a chance de vida nova.

Em 2006, a organização comemorou o marco de 200 mil casas e mais de um milhão de pessoas com teto ao redor do mundo. Atualmente já são mais de 225 mil residências em três mil comunidades. Os projetos são simples, decentes e possíveis de financiar; o padrão varia de acordo com cada país. Enquanto nos Estados Unidos e Canadá as plantas têm três quartos e as casas são feitas de madeira, na América Latina são usados tijolos, na África e Ásia, barro e madeira. A organização busca soluções e modelos locais. O senso do que é digno varia dentro de cada realidade.

Os novos proprietários recebem a casa popular por um preço bem abaixo do mercado, além de contar com financiamento de 30 anos sem juros. Os preços variam entre 800 dólares, nos países em desenvolvimento, até 60 mil dólares, nos Estados Unidos e Canadá. Os moradores também precisam contribuir com 400 horas na construção de novos projetos na região.

roof trusses

Para minha alegria, descobri que o Habitat for Humanity também está no Brasil. Eles começaram o trabalho em Belo Horizonte há 15 anos e hoje já estão no Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo dados da Fundação João Pinheiro, em 2000 o Brasil tinha um déficit de mais de 6,5 milhões casas, com uma concentração de 81,3% nas regiões urbanas. Mais de 50 milhões de pessoas vivem em condições precárias, em favelas.

Enquanto eu ajudava na seleção do lixo, eu fiquei imaginando o trabalho no Rio. Em 2004, Laurent e eu passamos um mês na cidade maravilhosa e devo confessar que apesar da beleza arrebatadora, senti a dureza da separação entre ricos e pobres, uma sensação muito mais cruel que em São Paulo. Encontramos ricos e milionários literalmente cercados por pobres e miseráveis, mas sem a menor integração. A idéia de grande família é somente ilusão de Carnaval. Manhã tão bonita manhã. E pensei nos moradores de Ipanema e Lagoa, bairros de classe média alta, com as mangas arregaçadas para refazer a Rocinha.

Holiday season

20070103 17:20

A dica de livro é a biografia de Casimiro Montenegro, escrita por Fernando Morais. O livro é recheado de boas aventuras de Mimiro, o rapaz que saiu do Ceará com o sonho de ser piloto de avião (mais ou menos como querer ser astronauta hoje) , foi para a capital federal Rio de Janeiro, fez e aconteceu na revolução tenentista, criou o Correio Aéreo Nacional, ligou Norte a Sul do Brasil e idealizou o ITA – Instituto Tecnológico da Aeronáutica no Brasil.

Ele foi pai de Fabio Montenegro, quem projetou, pensou e criou o Instituto Paulo Montenegro, instituição sem fins lucrativos com foco em Educação ligada ao IBOPE. Trabalhei sob sua supervisão (ou super-visão) durante dois anos e aprendi muito. Fabio era um sujeito inteligente, criativo, engraçado e muito exigente. Lembro-me de sua felicidade com o projeto do livro. Ele falava sobre as pesquisas, trazia fotos, contava as conversas com Fernando Morais (uma vez, o escritor sofreu um acidente em Paris e quebrou os dedos da mão – como digitar o livro, uhn?), trazia as fotos que o pai tirou pelo Brasil, carregava brilho nos olhos.

Gostoso ler o livro sobre seu Casimiro e imaginar o Brasil dos anos 30 sob a perspectiva de um visionário que queria voar. Ensine-me a ter liberdade e a acreditar nos meus sonhos. Dê-me asas.

Jifunza Biblioteca

20060825 23:02

Na semana passada, começamos como voluntários do projeto-piloto Jifunza Library, que planeja e viabiliza a construção e desenvolvimento de bibliotecas e centros comunitários em pequenos vilarejos da África. O objetivo da organização é alfabetizar e fortalecer comunidades locais. O Jifunza tem apoio da Universidade de Washington (UW), de Stanford (SU), da UNESCO e da rede Half Price Books.

Colaboraremos seis horas por semana, nesta fase inicial do programa. Laurent e eu, devido o histórico da Duck (gerenciamento de projetos) e nossos trabalhos atuais, lideraremos os times de estudantes que coletam livros para a primeira biblioteca. Em resumo, devemos coordenar a coleta, seleção e catálogo de dez mil livros, que serão enviados via container para o vilarejo muçulmano de Larabanga, em Gana. A comunidade foi eleita para o piloto, por causa de ligações do Departamento de Pós-Graduação em Antropologia da UW e SU com lideranças no país africano.

O primeiro encontro foi na casa da diretora-executiva da organização em Seattle, a antropóloga Ruth Zaslow. Lá, tivemos o prazer de conhecer a outra voluntária, Zola Maddison, que terá a mesma função que a gente. Passamos o domingo, entre caixas de livros, a estabelecer critérios e fluxo de trabalho.

Na quarta-feira, encontramos os estudantes que ajudarão no piloto. Durante duas horas de treinamento, discutimos a missão do programa, o perfil do trabalho e os desdobramentos. Jifunza é uma idéia bonita, e toma o conceito de que educação surge do diálogo, participação na construção do conhecimento e autonomia.

Kubatsirana

20060811 00:30

Hoje, fui conhecer o programa e o pessoal da HAI, uma organização sem fins-lucrativos que atua em Moçambique e Timor Leste.

Minha anfitriã foi Molly Robertson, uma americana que morou dois anos no Brasil, em Recife, para fazer a pesquisa de seu doutorado. Sua tese, em fase de finalização, fala sobre a relação entre Saúde x Candomblé: rituais de nascimento e morte. Ela fala um português bonito, com sotaque do nordeste.

Em setembro, Molly vai para Moçambique, com a missão de gerenciar o programa de fortalecimento comunitário da HAI. Ficará no país por um ano. Talvez eu e Molly ainda nos cruzemos por aí, ou por lá…

Kubatsirana, que eu vou!

A tricoteira na reunião

20060510 21:21

Terça-feira, dia de reunião geral no trabalho. Três horas semanais para ouvir os projetos da universidade no mundo. E piadas institucionais, lógico. E lavação de roupa suja entre gerentes de projetos. E cortesias. E cantar parabéns para o aniversariante da semana. Essas coisas. Muitos aproveitam o tempo para desenhar no bloco de notas, outros para jogar no palm, outros escrevem e-mails e outros … fazem tricô! O quê?! Literalmente, tricô! Sim, eu até cocei meus grandes olhos cansados e sonhadores. Mas não, a professora doutora sei-lá-o-quê levou um novelo de lã e duas agulhas de tricô para a reunião. Explicou o efeito mágico do tricotar: além de despertar o lado inativo do cérebro, ajuda na concentração.

1. Bem, minha primeira curiosidade é voltada para business: quantos cachecóis a professora conseguirá terminar até o Natal? Será que podemos abrir lojinha!? Echarpes especiais para pessoas inteligentes – aceito cheques.

2. Eu ouvi dizer também que luz baixa, olhos fechados e sons de baleia são maravilhosos para concentração. Será que eu devo experimentar o método terça-feira que vem? Não, eu ainda não sou doutora. Por isso, enquanto ela tece o marasmo, eu desenho.

ONG Phone

20050914 10:21

ThinkGeek

Lá estava meu chefe querido, novamente, em suas aventuras dentro da firma. Tinha uma reunião importantíssima com o grupo de acionistas e o diretor de RH do Group Brimbrim. Sua apresentação de Power Point estava super enxuta, com a fonte mínima valendo a metade da idade da pessoa mais velha do meeting: ele usou Arial 35. A idéia geral era mostrar os feitos de 2005 da Fundação Brimbrim e pedir mais orçamento para os programas ambientais de 2006.

A secretária tinha uma missão, também. Ligaria em 20 minutos, após o início do encontro.

((TRIM TRIM))

Apertou o botão responder no celular e pegou o retrophone na mesa.

- Sim, estou na reunião ainda. Sei, sei. Resolvo isso assim que voltar.

Saiu e conseguiu mais orçamento.

Newman’s Own

20050623 12:53

Se Paul Newman é conhecido por seus papéis em clássicos de Hollywood, ele é superstar por sua linha de produtos “socialmente responsáveis”. Desde 1982, o ator descobriu que sua imagem vendia qualquer coisa. Não há nada de novo nessa estratégia, Xuxa e Angélica têm bonecas, George Foreman tem churrasqueira, Cicarelli e Ronaldo têm casamento fajuto e por aí vai. Dúzias de celebridades fazem dinheiro com produtos, mas Paul Newman merece destaque. Ele descobriu o poder do marketing social há mais de 20 anos.

Quando o consumidor compra um produto Newman, todo o lucro é revertido para causas sociais. Assim, usar Newman é uma prova de cidadania (ohoh)! “Newmans Own” começou com molho de saladas. Depois, com o sucesso da campanha social, a empresa passou a vender produtos como molhos de tomate para macarrão e pipoca de microondas. Em toda a história da empresa, cerca de 150 milhões de dólares já foram doados. Bem, não sabemos qual o faturamento total da “Newmans Own”, quais seus custos de produção e se os 150 milhões representam realmente 100% do lucro da empresa (é fácil diminuir o ganho auferido, aumentando os salários dos funcionários e da presidência, não?).

Do outro lado

Com o sucesso da marca, a filha do ator, Nell Newman, provou-se astuta. Em 1993, lançou uma empresa associada à do pai, a “Newman’s Own Organics”. Em 2001, à socapa, desvinculou-se. Nell visava o lucro e não há nada de errado nisso. O fato é: se a “Newman’s Own Organics” não compartilha dos objetivos sociais da “Newmans Own”, por que Nell usa os dados da marca do pai em sua publicidade? Sim, além de não explicitar a separação, Nell usa fotos ao lado do pai, cifras da “Newmans Own” – exemplo: “o grupo Newman doou 150 mi” – etc. Curioso.

Atualmente a “Newman’s Own Organics” tem mais de 72 artigos. De bolachas a velas, de rações de cachorro a sopas, tudo é orgânico. No momento em que a demanda por orgânicos é crescente, Nell ganha espaço nas prateleiras dos supermercados. Ora, para quem já é a favor do orgânico, nem precisa se preocupar com o social. Papai faz.