O Haiti é aqui

CrisisCommons

Quando vi o Haiti recebendo a ajuda que o povo tanto precisa depois do terremoto que devastou o país no dia 12 de janeiro, tive duas reações: uma de alegria com a comunidade internacional que é capaz de rapidamente socorrer um país em situação de crise, outra de receio pois ninguém planeja as ações de maneira transparente. O risco de metade do esforço ir para o ralo em reuniões, confusões e falta de foco precisa ser evitado.

Penso muito sobre a duplicação de esforços da ajuda internacional desde que passei um tempo em Moçambique. Sabemos que muitos projetos internacionais nas áreas da saúde, educação e moradia são feitos em regiões carentes e sem recursos. Porém, o modelo de ação e de relacionamento entre as organizações internacionais e governos mais dificulta a eficácia desses projetos, que muitas vezes são bem financiados, que qualquer outra coisa. Para piorar, a forma como o dinheiro de ajuda é gasto na contratação de pessoal também parece bastante controversa. A falta de respeito aos profissionais locais do país é evidente. Profissionais locais quase nunca são seriamente levados em conta, apesar de conhecerem o problema e entenderem os caminhos sociais, políticos e culturais profundamente.

A comunidade deveria ter um mapa do que precisa ser feito e selecionar projetos de organizações não-governamentais para atuarem em pequenas partes do problema, envolvendo o pessoal local. Sentia falta de um espaço que organizasse os projetos em andamento e mapeasse tudo claramente, para evitar repetição e desperdício. Por isso, a proposta do Crisis Commons merece destaque: um espaço que visa a participação e monitoração por quem faz e precisa.

O que acontece:

As organizações internacionais não governamentais parecem brigar pelo mesmo pedaço de pão (desculpe a ironia, mas acho importante lembrar que o negócio das instituições filantrópicas é justamente a falta de condições básicas de moradia, educação e saúde). Quando essas situações de crise aparecem, essas organizações movimentam-se em busca de projetos para solucionar o problema.

O problema é que quando as organizações humanitárias se movimentam, elas giram em torno do próprio umbigo. Em outras, escrevem os projetos com inteligência da casa, contratam profissionais especializados também de sua rede fechada de colegas e entram na região carente para realizar o tal plano já com a ‘cambada toda’ reunida com salários justos (em dólar/euro). Na região de ajuda contratam somente os auxiliares de limpeza e motoristas, profissionais baratos sem especialização e que recebem em moeda local. Até então, o que houve foi um projeto internacional financiado por doação de um governo/fundação/empresa estrangeira que empregou equipe de fora. Sim, a maioria dos profissionais que atuam em projetos sociais internacionais são estrangeiros, sendo eles acadêmicos, especialistas, empresas ou estudantes. Para ‘colorir’ ainda mais esse cenário pouco discutido, quando o dinheiro da comunidade européia é usado em um projeto social na África, por exemplo, a entidade que ‘administra’ a doação deve prioritariamente usar fornecedores europeus. O mesmo para projetos americanos, que usa fornecedores americanos. O dinheiro retorna ao bom filho. Mas vamos em frente…

Como funciona:

Parte do dinheiro vai para a organização/universidade em forma de doação e essa deve prestar contas de como administrou o fundo (contratando especialistas, organizando materiais pedagógicos, em viagens, em eventos e congressos, para publicações e, certamente, com custos administrativos). Outra parte do dinheiro doado vai diretamente para o governo do país beneficiado, para que contrate serviços de ajuda. Em outras palavras, o ministério ou secretaria que precisa de ajuda recebe o fundo (ex: min. saúde, educação, planejamento) para investir nas áreas em crise. Esse ministério escolherá e ‘apoiará’ alguns projetos internacionais. Daí começa o lobby das ONGs, fundações e universidades, em reuniões ‘bem caras’ com esses representantes do governo local.

Para se ter idéia do custo de uma reunião, calcule que em média cada profissional internacional recebe 40 dólares por hora para estar ali, além das passagens, noites de hospedagem, dias de alimentação, horas de táxi ou motorista. Em reuniões longas e constantes, que abarcam mais de um desses consultores especialistas, muita coisa é não-resolvida e encaminhada.

O processo de ajuda parece afundar em um festival político. O governo sem o devido preparo ou planejamento segue no controle do saco de dinheiro doado para financiar projetos estrangeiros. Entra cá, vai cá, entra lá, vai lá. E a coisa vai para frente ao passo mole e enrolado da burocracia, nas mãos de administradores que não se preocupam em analisar todos os projetos para evitar a duplicação de esforços, sem interesse em resultados. Viva o projeto assinado em reunião, com carimbo e aperto de mão. O voluntariado e grupo de especialistas que trabalham no campo tocam o plano como podem, sem condições, com pouco apoio e à base de muito empurra-empurra.

Daí encontramos um monte de gente de real boa vontade, como os voluntários, os estudantes, os idealizadores do projeto perdidos entre politicagem com o governo local e lobbistas. E no meio desse mar político, até as pessoas de boa vontade ficam amarradas em reuniões para explicar porque o projeto deles é tão importante ou porque o da organização “concorrente” não é assim tão prático como o deles.

Não por acaso, encontramos 20 organizações fazendo exatamente a mesma coisa, sem cooperar, sem dialogar, sem contribuir uma com a outra para solucionar o mesmo problema. Isso tudo entre organizações internacionais de ajuda. Se optarmos que tudo seja centralizado por uma organização mundial (que seria a ONU) teremos o risco de mais burocracia e lentidão.

Por isso, um projeto como o da Crisis Commons deve ganhar espaço. Vamos colocar quem está com a mão na massa para discutir, organizar e trabalhar igualmente. Vamos participar de maneira inteligente, eficiente e honesta. E que cada organização atue com foco em somente uma parte do problema e colabore ativamente para o sucesso da organização vizinha.



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