O som deste domingo
O violonista Baden Powell, que ganhou o nome em homenagem ao general inglês fundador do escotismo, foi mestre na arte do dedilhado. Criador de um estilo próprio ao violão, Powell reformulou a MPB pós-bossa nova. Em 2000, aos 63 anos, lançava o álbum Lembranças. E naquele mesmo ano, seu violão ficou mudo. As cordas calaram na observância de um som que ainda existe, num “Encontro com a Saudade” e noutro “Samba Triste”.
O repertório, escolhido a dedo, traz clássicos da MPB e da bossa nova. Entre as canções, figuram “Falei e Disse”, uma parceria com o sambista Paulo César Pinheiro, “Tem Dó”, parceria com Vinicius de Moraes, “Pastorinhas”, de Noel Rosa e João de Barro, e “Inquietação”, de Ary Barroso. O álbum –todo instrumental – revela rigor estético ao violão e beleza.
Breve perfil
Sua habilidade nas cordas não decorreu do acaso, desde menino interessou-se por música. Filho de violonista, ele acompanhava as reuniões musicais na própria casa. Aos oito anos, tomava aulas de violão com um professor particular. Foram cinco anos dedicados ao estudo de clássicos, num dedilhar sem fim. Aos 13, já animava bailes do subúrbio carioca, matava aula para tocar com os amigos no morro da Mangueira.
Quando terminou o ginásio, Powell fugiu para a Rádio Nacional. Fez excursões no país acompanhado pelo pessoal da emissora. Quando atingiu a maioridade, em 1955, entrou para o trio do pianista Ed Lincoln, tocando jazz em uma boate carioca. Aos 19, compôs em parceria com Billy Blanco a canção “Samba Triste” —gravada quatro anos depois, por Lúcio Alves.
O melhor ainda estava por vir. Aos 25 anos, conheceu o poetinha Vinicius de Moraes, de quem virou parceiro. Surgiram das mãos dos dois “Samba do Prelúdio”, “O Astronauta”, “Consolação”, “Samba da Benção”, “Tem Dó” e “Só Por Amor”. No fim dos anos 60, o músico foi para França com seu violão. Ao exibir seus sambas e composições eruditas, Baden fez tanto sucesso, que fechou um contrato para produzir a trilha sonora do filme “Le Grabuje”.
Na volta ao Brasil, partiu em uma pesquisa sobre as sonoridades africanas, com o intuito de incorporá-las em sua música. Passou seis meses na Bahia, quando estudava os cantos dos terreiros e o candomblé. Quando encerrou a pesquisa, compôs uma série de afro-sambas como “Tristeza e Solidão”, “Canto de Xangô”, “Canto de Ossanha” e outras bonitezas.
Enquanto isso, na Europa, fazia fama. Entre seus grandes feitos, participou do Festival de Jazz de Berlim, ao lado dos guitarristas Jim Jall e Barney Kessel; tocou com a Orquestra Sinfônica de Paris; gravou os discos “Baden Powell Quartet”, “Baden Powell”, “Baden Powell Trio & Opera Frankfurt”, entre outros. Com personalidade avessa ao rebuliço, preferiu silenciar a façanha. No Brasil, era lembrado em composições eternizadas na voz de grandes nomes da MPB. Mas seu forte era o violão, que sozinho, tinha caldo, tinha sonho e encantava.

