Mia Couto
As belezas se subtraem:
a gente vê borboleta e esquece a flor.Somava tanta espera que já esquecera o que esperava.
Termino de ler dois livros de Mia Couto com olhos d’água. Ele escreve poesia em prosa e reinventa a língua para contar histórias de Moçambique, um país que depois de quase cinco séculos como colônia portuguesa -a independência só viria em 1975- enfrentou uma longa e devastadora guerra civil. Estima-se que entre 1977 e 1992 mais de um milhão de moçambicanos tenha morrido por causa do conflito e da fome no país. O interior ficou com um legado de campos minados e homens amputados. A poesia de Mia surge como fruto da pobreza, guerra, fome, seca e dor do país. Vamos viajar juntos para “esse território onde todo homem é igual, fingindo que está, sonhando que vai e inventando que volta”.
Mia vem manso como gato e queima palavras como sol no verão moçambicano. ‘Lamentochão’ ou ‘pressentimentalismo’ em terra tão ‘perfumegante’? Diria uma de suas personagens com o copo de cerveja na mão, ‘estou bebendo é o tempo, a ver se ela não demora tanto’. A partir de toda aquela tristeza que esconde ‘mais gravidade que o planeta’, o autor desemudece para narrar a vida de um ‘cabistonto’, outro ‘reumasmático’, um ‘desajuste de contas’, um inusitado ‘hiperpótomo’, dias ‘neblinublados’, uma menina de ‘olhos cristalindos’, outra ‘calafrígida’, os saltos de uma ‘alma pernarda’, o ‘penúltimato’, um que começa a ‘desviver’ e outro que ‘cai, esparramorto’.
Mergulhamos nas crendices populares moçambicanas, religiões, a sociedade machista e a ‘lenga-lengação’ bonita das mulheres. Enquanto uns cometem o ‘pecado imortal’ porque não crêem em platonismos e praticam ‘sexo à primeira vista’, outros mais religiosos não escondem certezas. Mia trata de todas convicções, mesmo aquelas políticas, para mostrar como ‘sem a luz da dúvida, o ódio cresce melhor’. Eis quando a guerra desembarcou naquele chão ainda recém-recente e foi ‘capaz de todas as variedades de morte. A vida se tornou demasiado mortal’.
Em todo o Moçambique a guerra está parar.
Sim, agora já as chuvas podem recomeçar.
Todos estes anos, os deuses nos castigaram com a seca.
Nos últimos dias, naveguei em ‘Terra Sonâmbula‘ e ‘Estórias Abensonhadas‘. Cai na manha de Mia e quero mais. Mesmo assim, ouso também desdizer o que se escreve em muitas críticas literárias brasileiras nessa mania de classificar tudo que se vê pela frente. Dizem que Mia é a voz da África -a cantora sul-africana Miriam Makeba, morta no mês passado, também recebeu esse título. Enfim, eu não concordo com a generalização porque a África é muito complexa para exigir que um único autor ou cantora, por melhor que seja, fale por todo o continente. Jorge Amado é a voz da América Latina? A África, atualmente, se grita em uníssono, é um choro mudo de dor dilacerante. Ou teremos sempre peneira nos olhos para o que acontece por lá? Ainda se quiséssemos ler Mia como a voz de Moçambique, eu seria contrária a esse rótulo. A criatividade e sensibilidade de Mia contam a vida com voz dele mesmo. É um modo singular e muito lindo. Acho que o autor já ficaria bem feliz com esse título.
O pouco se fazia tudo e o instante transbordava eternidades.

menina, escrevestes nestes tempos, hein? rs rs rs. três posts de uma só vez ou eu que fiquei atrasada =)?
adorei conhecer mia couto que eu, em minha ignorância, achava que era uma mulher. fiquei com vontade de ler também.
compartilho com você sobre os rótulos, acho que eles só servem para que a gente consiga acalmar a nossa própria ansiedade em compartimentar o mundo e o conhecimento dentro de caixinhas que já nos são conhecidas. três vivas, palmas e um bailado para o que escreveste!
adoro inventar palavras mesmo que elas só vivam no âmbito dos meus amigos mais próximos, rs. assim, acho que vou adorar ler os livritos do mia!
um beijo sabor nuvem de algodão, fofa, depois eu volto para ler o post aí de baixo!
miki
Mia Couto é um gênio. A sua prosa é tão comovente que às vezes a gente até esquece das guerras civis como pano de fundo
Miki e Fabinho, como adoro encontrar recados de vocês aqui!!
Mia Couto é demais, né? Fiquei emocionada com os livros e o jeito especial de contar histórias.
hihi, Miki, escrevi três posts numa sentada só. Talvez, por isso, apesar de autores bem diferentes, eu abuse do mesmo fôlego e ritmo. Mas só ontem fiquei com vontade de escrever. o.O
Agradeço o carinho de vocês dois, sempre.
Um beijo, Pat
sei como é isso de não ter vontade de escrever o.O hihi bisou
(:
palavras sempre contam histórias…umas contam melhor, outras pior…
às vezes basta ler, sem ter que achar nada…