La belle e la bête
Resolvi aproveitar o sétimo dia nas ruas de Jordaan e no Festival de música tradicional holandesa. Não quis trabalhar, porque sou muito séria com essa história de tradição e dia santo. Pode-se dizer que gozo todos os feriados de todas as religiões para minha própria alegria e espiritualidade. Com isso, é justo que felicite todos os amigos judeus pelo ano novo que aconteceu sexta-feira. Rosh Hashaná! Axé meu povo, muita paz no ano novo e viva um mundo melhor para todos os homens da terra.
Eu não sou religiosa e nem judia, como o amigo pode desconfiar pelo meu sobrenome. Mas sou brasileira, filha de mãe zen, padrasto católico e pai libanês e ateu. E tantas são as voltas da vida e da lua, que desenvolvi minha própria crença. Acredito em feriados. Acredito que todo ser humano deva ter tempo livre para pensar, criar e transformar. Acredito no poder do ócio, da natureza e da catuaba selvagem.
Domingo, eu deveria dedicar o dia a outra religião, mas infelizmente eu tinha roupa para lavar e passar, além de dar um trato no apartamento. Sou rápida. Um pouco depois do almoço eu já estava livre para curtir o dia de descanso. Então, fui andar de bicicleta, tomar café com um livro de contos de Chekhov e novamente passear pelo FilmMuseum. Dessa vez, queria um filme para relaxar a cuca da semana de trabalho.
Primeiro, eu deveria escolher um filme ou em inglês, francês, ou português. Arriscar outra língua com legenda em holandês seria um pouco demais para um domingo de ócio. O filme da vez foi “Belle Toujours”, em francês, do diretor português Manoel Oliveira. Segundo a sinopse, uma homenagem ao clássico “Belle de Jour” de Luis Buñuel, com Catherine Deneuve. Como eu havia assistido ao primeiro, achei que seria interessante ver a nova obra, uma tentativa de diálogo com Buñuel. O filme traria um encontro de Severine e Henri Husson 38 anos depois.
Eu diria que o Manoel fez uma sequela para nada dizer. Não é nem que ele ligou pra dizer te amo, sabe? Manoel quis explicar o que deve permanecer inexplicável, colocar outro peso nas personagens, dar luz ao remorso. A contextualização do filme de Buñuel acontece num balcão de bar, quando Henri fala para o barman sobre as duas vidas de Severine. E depois disso, vamos ao encontro de Severine e Henri, num jantar com diálogo pobre, truncado. Depois de longo silêncio, ela diz: “Eu não sou a mesma”. Sim, Bule Ogier não é Deneuve. Tudo é muito raso, longo e arrastado. Tivesse eu revisto o original, na sala ao lado. Perdi 68 minutos do meu ócio para ver todo o trabalho de Manoel. Acho que o diretor também precisa de mais descanso.
Arqueei a sobrancelha, sou bonito, eu sei. Desculpe-me, tenho a boca seca de tanto bufar e bufar e bufar minha covarde reticência. “Belle de Jour”, um filme cheio de questões. Agora “Belle Toujours”, um filme de culpa… arqueei a sobrancelha de novo, eu sei. Falta-me tempo. It is not for me, como eles dizem, not for me. Sim, falta-me esperança. Matei toda dúvida com um tiro no peito. Mas sou bonito, eu sei. Disso, eu não duvido.

coitadinho do manoel!!
gostei da explicação genética para sua espiritualidade!
tamo.
boa, bem explicado. Como agnóstico, afirmo crer em feriados prolongados.
Achei o endereço do seu blog nos links do Haja Saco. Adorei e esse último post é o melhor! Não achei arquivos mais antigos, o blog é recente?
Apesar de eu escrever bem esporadicamente, passa lá no meu. Vou tentar acompanhar 1 pouco mais do seu, pq você escreve bem e isso pra mim é mais importante do que a informação em si.
Abraço.
Reclamação: teu feed não aparece mais completo, mesmo que vc publique o bichinho inteiro aqui no blog. snif!