O Modelo caiu da passarela
Os corredores que somavam partos com pressa
agora se desencaminham abandonados
o prédio apagado na noite e morto no dia
sem vivalma
um vazio profundo desse meu vizinho
Imagino aquelas macas e camas caladas
a conhecida sala de emergência para consultas esporádicas
o pronto-socorro onde checava meus ataques de hipocondria
esses medos urgentes de risco de vida
essas descobertas de sintomas e estados trágicos
o destino, o raio-x e o passado sem volta
Os taxistas do ponto da frente
já transportaram histórias
de cá pra lá, sem caminho certo
agora desocupados se empregam com previsões
dizem que no futuro
aqueles corredores contarão cânceres
boletim da próxima encarnação terminal
É que no futuro tudo ainda pode ser
mas agora recém-morto o Modelo segue
precário, drogado e sem visitas – fim da carreira
seus andares escuros, molhados, sujos
caindo aos pedaços, janelas quebradas
telhado rachado, ferrugem nos canos, elevador abafado
mofado, o prédio inteiro escurecido por fora
por dentro os quartos tão impacientes
as salas de espera esperando sem ninguém
qualquer emergência
nem doentes, nem enfermeiras ou plantonistas
tudo segue sem remédio nem receita
Foi olhando pra lá que meses atrás
quando ainda havia qualquer atividade
vi um casal de águias sobrevoando o céu
‘águia dá a luz no hospital modelo!’, li a manchete
sabia que alucinava em plena luz do dia
será que elas estão aqui para me resgatar…
‘você viu? você viu uma águia no céu?’
delírio de chamado de pássaro pra fora daqui
uma vida no ar, livre e longe desse retrato triste
da minha janela cega via tudo sem ver nada
o mesmo diálogo de silêncio de cá e de lá
suspensos, vazios e sem maternidade

Hospital Maternidade Modelo,
o vizinho de fundo, fechado em 2010
foto por Tung com olho de peixe na Lomo

Tão triste
Tão lindo
Vontade de te dar abraço e te colocar no colo…
o modelo, que não é mais, está no devachan – um estado intermediário temporário antes de um eventual renascimento no mundo físico…
lá ele descansa, pois sua próxima tarefa não será fácil…
assim, abandonado pelos homens, ele se refaz em silêncio.
Garoa.
Tudo cai
depois evapora.