Made in China

Como diz uma música de Frank Sinatra, é muito bom viajar, mas é ainda melhor voltar para casa, descansar de verdade, tirar o peso dos ombros e ficar à vontade. A felicidade foi tanta que ontem reservei uma hora para ir ao novo salão de beleza do bairro: “Nail”. Queria aproveitar o dia de folga para depilar e fazer as unhas. Depois de um tempo na Europa, os preços americanos pareciam promoção especial. Entrei no salão e perguntei se tinha espera. “Não”, respondeu o atendente. “Está pronta?” Eis quando me dei conta que o manicure era o próprio rapaz. Um chinês de 20 e poucos anos, sorriso largo, ombros fortes e movimentos rápidos.

Xu mostrou-me a poltrona psicodélica do Homer, com massageador mecânico e controle remoto para definir a pressão do Shiatsu ou intensidade do modo vibratório. Pediu-me para retirar os chinelos e dobrar a barra da calça. Cada um com seu tocador de MP3 e mãos à obra! Eu estava feliz da vida com o novo audiobook The Fountainhead, de Ayn Rand. O chinês segurou meus pés com firmeza e começou o trabalho. Ao terminar, massageou meus tornozelos e pés com creme polidor. Fechei os olhos. “Ah, isso é tão bom quanto lavar cabelo no cabeleireiro”, pensei. Acorda Alice.

“Agora, vamos sentar ali”, apontou uma mesinha branca, com um banco de cada lado e nada de cadeira com massageador no encosto. Ele perguntou alguma coisa e eu não entendi. Pegou meu iPod para ver qual música eu estava ouvindo. “Ah, não é música, é um livro”. Xu sorriu. Minha mão estava tensa, inclinada. Ele pediu para eu relaxar, apoiando os dedos sobre meu punho. “The question isn’t who is going to let me; it’s who is going to stop me”, disse Howard Roark em Fountainhead.

E apareceu uma senhora com cara de porcelana, cheia de pó de arroz, sobrancelha feita com lápis e sorriso pronto. “Waxing?” Convidou-me para a sala de depilação, com misteriosa simpatia. Ela também não falava muito bem inglês. Pensei: será que ela é “delicada” como as garçonetes de Dim Sum chinês? Ela vai gritar “cera!!!” e um chinês vai aparecer do nada com um balde fervendo?

Expliquei como queria a sobrancelha: “só quero limpar o excesso, sem tirar muito”. Rezei para o dragão dourado chinês e os outros doze bichos do zodíaco. Em questão de segundos, o palito com cera quente já estava no meu rosto. Cola o papel! Puxa! Ai! Na cera usada no papel, vejo um monte de pêlos…

- Oh, my god!

- Not too much, not too much…

- But I want some hair – resmunguei enquanto via o traço fino que desenhava a sobrancelha-less dela. Excuse me, do you have a mirror?

- Mirror…

- Thanks. Oh, yes! Sorry, that is perfect! Thanks.
Sim, estava perfeito. Ela sorriu.

Fui ao caixa e paguei a conta com prazer. Adorei o atendimento direto, sem fofoca e intimidades, comentário maldoso ou pergunta automática. Adorei o manicure homem e seu iPod. Ah, a massagem. Vidrei no sorriso enigmático da chinesa e posso aplaudir a perfeição da réplica: tenho duas sobrancelhas bem desenhadas e unhas de boneca. Viva eu Made in China!

2 Comments

  1. Fabio Chiorino wrote:

    hahaha, adorei a história. Mais um sinal de que a China será a grande potência da próxima década. Se já estivéssemos no ano das Olimpíadas, vc seria eleita mascote global.

  2. Ana Carmen wrote:

    Ah, Pat, conta mais. Essas diferenças culturais me fascinam. Imagine se aqui no Brasil o homem manicure não seria alguém atacadíssimo, de turbante e salto alto, a la Herchcovitch .

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