Durandeau 2.0

Resumo do conto “Complementos”, de Émile Zola

Paris, século XIX - o belo inebria mais que hálito de vinho ou fumo. Beleza vira commodity e os investidores franceses produzem cosméticos e vestuários em larga escala. A indústria está a toda. Neste cenário competitivo, o inventor L. Durandeau busca uma idéia diferente para investir, algo com pouco risco e verdadeira chance de sucesso. Perambula. Eis quando passa por um casal de jovens amigas que atraem seu olhar com magnetismo. Apesar de indelicado, ele olha para trás de impulso: uma linda e a outra hedionda, repulsiva! Meu deus, como pode existir tamanho deseqüilíbrio! Qualquer sujeito faria a comparação inevitável. Uma tão assustadora e a outra a cada gesto mais cheia de graça. Euréka! É isso! Sem titubear, Durandeau abre sua Agência de Complementos, especializada em “acompanhantes de contraste” para mesdemoiselles ricas desfilarem na cidade da luz. O aluguel pode ser diário, para casos de festa, ou somente por hora, para vaguear pelas calçadas largas da Champs-Elysées. O produto prova-se mais eficiente que o melhor cosmético.

Já pensei antes em montar a rede pat-rent-a-pet para alugar cachorros na entrada de parques. Filhotes seriam mais caros. Mas depois de ler o conto de Zola, imaginei a versão da agência Durandeau para o século XXI. Um site especializado no aluguel de pessoas “extravagantes e inadequadas” para ocasiões especiais. Por favor, evite o julgamento precipitado. A agência não ofereceria qualquer tipo, somente os mais grosseiros, arrogantes e sem discernimento. Aqueles que fazem o comentário indevido, promovem guerras, têm convicções pavorosas, defendem causas nazistas e podem ser bodes expiatórios para quase toda ocasião.

They misunderestimated me“, diria o presidente americano. O primeiro desafio seria encontrar os candidatos, já que muitas das aberrações parecem bem empregadas. Mas com persistência e calma, perceberíamos que há matéria-prima para dar e vender, um artigo mais comum que vexame de celebridade pop americana em capa de revista. Mesmo assim, muita cautela na hora de convidá-los para o projeto. Nossos candidatos poderiam se ofender facilmente.

Até o mestre Durandeau enfrentou apuros para encontrar suas fealdades. Somente meninas razoavelmente jeitosas candidatavam-se espontaneamente. Um trabalhão para convencê-las do engano: veja bem, você não é suficientemente feia. No caso da agência de “extravagantes e inadequados” o problema seria outro: como atender um sujeito em fase de descoberta? Devemos estabelecer desde o princípio que não somos um consultório de psicanálise. Eu descartaria todo candidato voluntário na hora, sem dó. Se a pessoa já desconfia da própria falta de senso, isso é sinal de melhora, filosofia ou milagre.

Queremos pessoas categoricamente estúpidas, aquelas com o rei na barriga, certas de sua genialidade, missão, título e ética. Donos da solução para o mundo, para as gerações futuras e passadas, capazes de narrar qualquer caso em tom de sermão. Pessoas acima do bem e do mal, contra raios UV-A e UV-B, possíveis pastores evangélicos. O crème de la crème.

A agência ofereceria acompanhantes para toda ocasião, online e offline: chats no uol, lista de discussão, blogs, exposições e eventos culturais, convenções de vendas, jantares com sogros, festas da firma, casamentos. Um sucesso, principalmente entre políticos e assessores de imprensa.

Só não nos responsabilizaríamos pelo uso impróprio do material. Um pequeno contrato, com dois pontos obrigatórios, seria suficiente. A primeira regra: essencial destacar as diferenças e não as semelhanças entre você e o acompanhante. Regra número dois: nunca, nunca contrate um complemento para fazer uma entrevista de emprego na mesma empresa que você pretende trabalhar. Em testes realizados no mundo inteiro, ele tem mais chance de ser contratado.

Ah, que agito. Tantas solicitações, corre-corre, reservas… Teríamos um estoque de verdades. E depois viriam as notícias, escândalos, queixas, processos. Correntes, possíveis revelações, líderes e… seguidores. Começou a soar perigoso. Meu coração. Talvez seja melhor retrabalhar a idéia de pat-rent-a-pet no Ibirapuera. Menos risco, diria mestre Durandeau, menos! E filhotes sempre serão irresistíveis.

O fim dos tempos. Para isso que você tem blog?



3 Comments

  1. Fabio Chiorino wrote:

    Olha, gostei bastante do post. Puta sacada e propriedade ao pegar um trecho do mestre Zola e traçar a réplica contemporânea. As assessorias de imprensa adorariam a novidade, alugando de 6 a 12 para lotar coletivas e eventos pré-fracassados. Beijos, Pat-rent-a-pet

  2. Ana Carmen wrote:

    Estou rindo sozinha. Adorei o comentário visual do crítico. Ele me pareceu ser o cara do Ratatouille, mas essa olheira azul é um clássico.
    É o fim dos tempos, ele tem razão. Mas digamos assim que ele mudasse de idéia. Seria “extravagante e inadequado” o suficiente para ser uma das companhias da agência? O personagem poderia ser “inadequado com cérebro”, um espécime raro, culto, cansado de banalidades da vida, preocupado com as grandes questões: o ser, o nada, o vir a ser e o estar. Tudo ao mesmo tempo agora. Aluga-se. Com cérebro.

    pakalil: Os inadequados com cérebro são os melhores – hehe. Vai de Bill O’Reilly, passa por Clodovil e chega até o papa! É só contratar o “acompanhante de contraste” e esperar ele soltar a batatada, naturalmente. Neste momento, o contratante faz aquela cara de “quem-é-esta-criatura?” e marca a diferença. “Eu discordo completamente do senhor…”, ou “Que absurdo aquele sujeito pensa, eu acho…”. Jogo ganho! ;)

  3. k wrote:

    Não fosse o mal o bem não existiria, né? =P

    Criativa, as always.

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