Valentine’s Day

Sorria um silêncio saariano enquanto arrumava a cama com o novo lençol de seda vermelha que havia comprado para nossa noite especial. Acendi a vela de figo verde e romã, apaguei todas as luzes e coloquei o álbum “Deep in a Dream”, Chet Baker, para tocar. Deitei nua. Havia a melancolia do trompete e da voz de Chet, o respiro, o elo entre os sons isolados das notas e os espaços, a música. Havia também a dança de meus ecos, coreografia de passos repletos e repetidos. Havia tudo e nada, em companhia. Respirava fundo para calar tantas perguntas vazias com a imensidão de agora: presente infinito. Relaxava… Os braços arrepiados, a nuca, as costas deslizavam no tecido macio. Meus bicos duros marcavam a seda virgem. Sentia minhas pernas moles e úmidas. Havia apenas a luz da vela, o perfume inebriante e, como há muito tempo, algum sentido de pertencimento.

PARA CONTINUAR

Algo estranho acontecia no ar, um convite secreto para partir para outro mundo. Seu sopro ao pé do ouvido, amor, e a passagem aberta. O lençol envolvia meu corpo e o colchão acomodava meu peso: entregue e amortecida. Mergulhava molhada em música enquanto a seda beijava minha pele com delicadeza. Prendia o ar para me afogar em prazer. Os dedos abertos e o espaço no olhar. Aceito. O tecido enrolado, enrolando em mim. Mais. O lençol multiplicava-se a cada inspiração. Vem. Voltas e voltas e mais voltas… A seda se auto-tecia e já transbordava da cama, do quarto, da casa. O colchão mole e fundo me engolia inteira. Eu caia, eu casulo, em seda virgem.

Intra. Um barulho ensurdecedor de casulo em catálise. Sônico. Meus braços e pernas não respondiam. Entre. Eu estava completamente envolvida naquele pano sem fim, a trama, um invólucro perfumado e vermelho. Nova realidade, ou sonho. Sou bicho-da-seda, simplesmente. Solo. Desejava com egoísmo colocar todas as fibras para fora, fazer meu casulo imenso. Sobrenatural.

Dormia sobre um tapete de folhas secas. Agradecia a cama de folhas e encontrava calma no meu coração. O tempo rastejava e mesmo assim não havia instante de pressa. Sou bicho-da-seda. Tinha a impressão que eu estava lá há dias. Meu objetivo era fazer somente o que era necessário ser feito. Destino. Sem dúvida ou certeza, apenas com outra dimensão de existência.

Percebi que não estava sozinha. Centenas de casulos, todos brancos, dividiam a cama de folhas de amora comigo. Outros casulos? De outros sonhos? Sem pânico, porque naquele mundo nem tudo tinha a urgência da razão. Eles em branco, eu em carmin. Era dia. Ouvi uma língua estranha, outra melodia. Camponesas pobres com chapéu cônico… Sim, aquele chapéu era o famoso non-là do Vietnã . Eu calada. Percebi também que não estava no chão, mas em uma rede coberta por uma cama de folhas. Na rede, também, os outros casulos.

As mulheres vietnamitas andavam para lá e para cá, controlando o crescimento de nossos casulos e o momento certo para fervê-los. Depois do cozimento, puxariam a fibra para a fabricação do tecido e comeriam nossa crisálida sem tempero. Elas, curiosamente, tinham pressa. Atrás das máquinas de ferver os bichos, havia a máquina de tear e tingir as fibras.

Eu e os outros, sem mobilidade. A água quente embaixo da rede, eu, as centenas de bicho-da-seda. Queria voar antes de ferver. Aquele sonho parecia muito real. Eu tinha ainda noção do quarto, do lençol de seda vermelha, da passagem para esse mundo. Eu ainda não conseguia mexer meus braços e pernas. Sabia que meu corpo estava vermelho, casulo do lençol de seda. Sabia o fim, sem saber coisa alguma.

- Mực đỏ! Mực đỏ! – gritou uma das moças, enquanto apontava para mim.

Um grupo reuniu-se ao meu redor. Conversavam e sorriam. Discutiam meu futuro e eu não podia fazer nada. Uma das moças me pegou para olhar de perto, admirada. Passei de mão em mão, até que a última me carregou pelo galpão inteiro até os fundos da fábrica. Havia um pequeno quintal, com bancos de madeira e uma árvore de amora. Elas almoçavam lá, vi os restos de comida, os pratos com arroz e peixe na mesa. E eu sabia que aquela árvore era especial, a paisagem particular das camponesas, o mini templo na fábrica de seda. Ela me colocou no pé da amoreira. Durante os próximos dias, elas iam e voltavam, olhavam para mim, acompanhavam meu crescimento. Rezavam. Pareciam esperar por minha transformação, tanto quanto eu.

Eu precisava voar, sair do casulo, deixar minha asa secar e partir. E com o passar dos dias, perdi o medo, o desespero e a angústia. Eu não queria mais entender meu vazio. Estava repleta. O dia estava úmido, meu corpo grudado e embebido na gosma de minha seda. Precisava voar para longe, voltar para meu mundo. Estava pronta. Tentava abraçar meu corpo, já abraçado. Havia calma, entendimento e entrega total. Quando abri os olhos, estava no quarto,  na cama imensa. O lençol de seda havia desaparecido e o teto estava coberto de borboletas vermelhas. Em estado de graça, abri a janela e admirei as borboletas colorindo o céu de Seattle.

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