Pamplemussa
Abriu os olhos com o nascer do sol. Levantou-se, deu três passos até a janela para conferir o novo dia. Olhou o céu laranja e sentiu o gosto ácido de seu paladar vencido. Outro dia com a cor –e gosto– da pamplemussa. Os dias secos são chocantes pela beleza cristalina. Tudo permanecia do lado de fora nos seus devidos lugares, exatamente como JT viu antes de dormir: a melancolia e a preguiça, a lixeira cheia e o vazio. Desceu para preparar seu café, abriu a porta da frente, pegou o jornal do dia jogado no capacho de sua casa e não viu ninguém na rua. Com o bule de café fresco, foi para a sala ler o jornal.
Leu a publicação inteira enquanto saboreava xícaras de café amargo e fumava cigarro. Nada trazia tanto alívio quanto a fumaça perfumada de seus cigarros matinais misturada ao gosto encorpado de café na língua. Sem novidades, ainda assim era interessante observar os anéis cinza-azulados estampados no ar provisoriamente enquanto relia as velhas histórias recontadas com novas personagens e por novos autores. Tudo permanecia provisório: o artista do ano, o anel de fumaça, o livro do mês, outro anel de fumaça, a política, a guerra, o cotidiano, tudo fumaça. JT lia e memorizava trechos soltos, guardados para sua coleção mental de humanismos. Guardava esses recortes mentais sem categorizá-los muito, com a esperança que dali pudesse nascer uma nova versão pessoal.
Ele passava dias sozinho, cultivando suas singularidades. Se na juventude havia sido desregrado, agora JT encontrava no método sua salvação. Tudo na vida tinha seus horários, até a loucura, a leitura e a fé. Ele achava fascinante “o equilíbrio necessário entre liberdade e disciplina”. Tinha lido sobre isso em algum lugar e, apesar de ser um sujeito excêntrico, tentava ser coerente. Dez horas, banho tomado e vestido com uma de suas camisas brancas de botão e calças jeans. Seu armário repetia figurino, com todas as peças da mesma marca e tamanho; o uniforme para se transformar em qualquer um.
JT gostava do anonimato e saia para escrever entre dez e meio-dia, todos os dias, na biblioteca central. Já na biblioteca, escolheu sua mesa de sempre e observou quem estava na sala. Observou alguns estudantes jovens na área de ciências, história e política, imigrantes na seção de línguas, curiosos passeando à toa, e alguns perdidos que sentavam com um livro na mão para passar a tarde. Reparava que quanto mais entretida a pessoa estava, mais invísivel ela ficava. Virava objeto. E de pensamento em pensamento, ele mesmo ficava absorto. Aos poucos, nada mais chamava sua atenção assim como ninguém mais se incomodova com a presença dele. “O homem quis ser invísivel”, ouviu seu pensamento… E ele sabia a fórmula para a invisibilidade.
Era tempo e o relógio batia com pressa. Pegou seu bloco de notas e caneta barata. Gostava de escrever à mão e sentir o peso de sua mão no papel. Às vezes, demorava para encontrar a primeira palavra –gostava muito das primeiras palavras — e ficava rabiscando a última folha do seu bloco até ter certeza do início. Nesta página final, o rabisco já não tinha forma e era o avesso da fumaça: tinta sobreposta e escura. Enquanto rabiscava qualquer pensamento, resgatou seu sentimento de estar assistindo a sua história acontecer, como platéia de si mesmo. Talvez ele se visse nas letras soltas de um livro, dando vida às palavras e forma às coisas. “Viviam no centro do mundo com a sensação de que sua vida devia estar acontecendo em outro lugar”. Será que letras tinham qualquer sensação? Será que o A se sentia melhor que o Z, ou o inverso. Apesar de achar o pensamento um tanto ridículo, permitiu-se. Começou a imaginar palavras iniciadas por diferentes letras, até escolher a palavra do dia. Em uma análise panóptica de seu local de autor, olhava para todos os espaços da página em branco, cuidando das letras que formariam a primeira palavra.
Lembrou do gosto na boca. PAMPLEMUSSA. Ácido e doce, pamplemussamorento. Profundo como o mar que é cama do misterioso barco. Pensou no tempo e na ilusão de passado, a promessa do futuro, o agora. Memória no espaço é como chuva de saudade. Chuva ácida e doce: pancadas de pamplemussa. JT pode ser um sujeito um pouco estranho, mas quando escrevia “tinha a sensação de que ela tocava diretamento o coração das pessoas”. Palavras-com-mãos. De seu centro, seu ponto constante, podia deixar a vida fluir com graça. Com ar. Sentia e mergulhava fundo. Tanta água. Regou sua própria árvore enquanto tentava acariciar o céu. “As folhas sacodem ao favor do vento, mas o tronco está ali, constante”, lembrou de ouvir essa frase de um amigo um dia no parque. Voltou à primeira palavra, PAMPLEMUSSA, seria ela, estava decidido. Com ela, embarcou na página nova ainda em branco e ousou novos mapas, viajando seus países.
Tocou o sino da Igreja. Meio-dia. Ele ainda não estava satisfeito com o texto que começara na manhã, mas sabia que a rotina da tarde poderia mostrar caminhos que ele não podia ver prisioneiro da página. Seguiu sua agenda de criador. Já era o momento da caminhada diária em busca de perspectiva. Será que funcionaria? Se alguém olhasse seu trajeto do céu, repararia que ele andava letras e desenhava palavras. Hoje a palavra era Pamplemussa, uma longa caminhada. “Mistério, expressividade, emoção e até um pouco de exotismo”, pensassem o que e se quisessem. Para JT, a caminhada fazia parte de seu processo de descoberta de possibilidades, de meditação e encontro.
Vestido com sua capa de invisibilidade e transformação, o jeans e camisa branca de botão, JT contornar as letras do seu caminho. Naquele dia, usou seu figurino multiuso para encarnar uma pessoa toranja vermelha e ácida, “conhecida por sua vaidade, tanto quanto pelo temperamento explosivo e a excentricidade”. Aos poucos, e principalmente para ele mesmo, tentava a ilusão de ser outra pessoa.
Passou decidido na frente da padaria enquanto fazia a curva do P dando a volta completa em um quarteirão. Caminhou dois blocos para cima, dois para baixo e subiu mais um para atravessá-lo no meio, cruzando o A. Nada parecia acontecer, nenhuma ideia nova, mas ele seguiu sua proposta percorrendo o primeiro M. Já havia caminhado pelo menos meia hora. No segundo P, resolveu começar pela curva e terminar pela perna, descendo para um estacionamento de shopping. Perdeu-se entre carros para sair na porta dos fundos, onde entrou em um restaurante barato para comer um salgado, seu l minúsculo seria uma pausa vertical. Comeu em pé e aflito, em busca de respostas e calma. Tinha pelo menos 10 minutos. JT “era um tipo curioso, que cultivava com cuidado a própria singularidade.” Sem muita conversa, pagou a conta e torceu para que ninguém cruzasse seu caminho no segundo tempo. Fez o E em três blocos e começou a montar seu M, montanhoso. Ele migalhava-se. Subiu e desceu e subiu e desceu duas paralelas. Já estava quase no fim. A caminhada era mais importante que o destino. Não havia chegada. No primeiro S sentiu-se sozinho e sombrio. Sabia estar perto do fim. No seu segundo S começou a soluçar sem trégua. “Ainda hoje me parece mais misterioso, tocante, com a emoção à flor da pele.”. Terminou com o A, completamente abandonado.
Voltou para casa. Como previsto na agenda, era o momento de ouvir música. Colocou Chopin. “Drama, poesia, sedução, cada um dos noturnos oferece um universo”, lembrou de ler isso em uma crítica. Ali afundou-se até o fim de tarde em busca de seu lado criativo. Silêncio interno.
Tocou o alarme. Às seis, JT tinha outro compromisso. E aquele dia, seu compromisso era especial. Talvez o último. Pela janela, olhou para a rua. Tudo ainda permanecia do lado de fora nos seus devidos lugares, exatamente como JT viu ao acordar: a melancolia e a preguiça, a lixeira cheia e o vazio. Sem saída. Buscou todos os relógios da casa e colocou-os num saco plástico qualquer. Pulou compulsivamente no saco, até ouvir os vidros quebrados e os pinos soltos. Será que havia parado o tempo? Buscou todos os blocos de nota nas gavetas da casa, jogou-os na banheira e encheu-a d’água. Acariciava o papel molhado e chorava e rasgava as palavras ao meio. Não conseguia mais escrever. Espuma de papel picado e sujo. JT já era um autor publicado, mas não sentia forças para continuar. Depois de tantos livros, estava certo que tinha chegado ao seu limite. “Tinha nostalgia da inocência, de quando escrevia sem ter ninguém para o ler nem entrevistar. Ele gostaria de não ser visto, de diluir-se nos próprios textos. Mas é difícil voltar atrás”.
A vida de JT terminou ali, embora ele tenha vivido ainda alguns anos mais. Sem esperança e sem vontade, ele se entregou à doença e à loucura. Foi mandado para uma casa de loucos, no fim do mundo. “Morreu aos 78 anos, congelado, na neve, após fugir do hospital psiquiátrico, onde passou os últimos anos escrevendo em letras minúsculas – invisíveis”.
Escrito numa tarde de março, a partir de pescarias de jornal, durante um encontro no tapetão com Miki.
