Oito (5/8)
Oito, por que Oito? Oito simboliza transformação, renascimento. Este conto foi uma experiência de criação em capítulos. A proposta inicial era contar uma história em 2 meses, um capítulo semanal, uma ‘micro-novela’ criada ali, no momento. O roteiro surgiu enquanto refletia sobre a invasão do Líbano em 2006; já o desafio de inventar no ar surgiu por pura curiosidade técnica. Queria discutir religião, exclusão, futuro. Queria pensar em novos fôlegos de paz. Queria escrever. No entanto, a pressão semanal ao lado da brincadeira (ou trapaça comigo mesma) de cada vez colocar algo novo como gancho para o próximo capítulo me colocaram pra trás. Enfim, dos oito capítulos pensados, rabisquei cinco online, ao vivo e sem audiência! hehe. Os três que ainda precisam ser contados… um dia serão. E depois, tudo será relido, amarrado e jogado fora. Fica o registro na casa de Alice! =D
Ele foi o único que escapou da invasão cataclísmica. Se não fosse um cachorro, contaria a história daquela casa. Uma outra versão dos fatos. Mas era um cão, agora sem dono, casa, nome ou lei. Todavia, se hoje era um sem-teto, caiu nessa condição ignominiosa por desejo de Deus.
O cão pertencera à família Oliveira, que um dia fora dona de todas essas terras. Diz a lenda que no inverno de 1984, alienígenas assassinaram toda a família. Creia ou não, é o boato que corre. O sangue dos Oliveira escorreu terra adentro. A prefeitura de Amareto fechou o local.Isso tudo aconteceu quando eu tinha apenas oito anos. Eu não me lembro de muito detalhe, apenas que queria o bicho e ele também me bem-queria. Meu pai deixava que eu desse as sobras de nossas refeições para o cão. “O mínimo de dignidade ao velho animal”, dizia.
Durante os primeiros meses, o cão parecia viver em outro mundo, perplexo, em surto. O olhar fixo, que não permitia latido, choro ou emoção. O pobre dormia, acordava, olhava para o imenso vazio.Ainda no final daquele ano, a prefeitura da cidade, em acordo com o governo central, doou à área inteira ao senhor Jacó Espiga, um cientista paranaense de descendência polonesa. O velho veio para o nosso vilarejo em Minas, como toda sua família. Havia algo de muito secreto em toda aquela missão. Uma pesquisa federal. A área 51 brasileira.
CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO:
… Desde quando cachorro fala?
PARA CONTINUAR
Estavam já há quatro meses no terreno dos Oliveira, aqui na pequena cidade mineira de Amareto, por conta da enigmática pesquisa federal. Mesmo assim, a distância de nossa vizinhança ainda era a medida de nossa indiferença. Do cão, os Espigas recebiam hostilidade latente. De Amareto, interrogação constante. De mim, o avesso da saudade. Era como se a família Espiga carregasse o peso da fatalidade.
O cientista era casado com dona Gorda Espiga, filha de belgas. Da epopéia de sua longa e trágica vida, pouco me dediquei ao registro. Tantos detalhes. Na memória, ficou o essencial: por confusões do destino, os pais de Gorda também se mudaram para o Paraná, nos anos 40. Lá ela nasceu, cresceu e conheceu Jacó, com quem casou e teve dois filhos, Ari, da minha idade, e Íris, dois anos mais nova.
Meu pai, seu Calixto da Matta, era o único comerciante do vilarejo. Vendia frutas, legumes, verduras, laticínios, carnes, bebidas, biscoitos, doces, pães, bolos, aviamentos de costura, remédios e outras miudezas. Todos conheciam e respeitavam o velho. Não demorou muito para dona Gorda -quem a obesidade só no nome trazia- vir à venda. “Virou cliente fiel”, dizia meu pai, sem se dar conta que a lealdade tinha pouco de gloriosa em tamanha ausência de concorrência.
Toda vez que dona Gorda e seus filhos passavam pela rua, o cão levantava e ficava com o olhar fixo e vazio. Eu encarava o bicho, na esperança de adivinhar o que ele pressentia. “O que você pode ver?”. Tanto fiz para ler sua mente, exercitar telepatia, penetrar sua alma, descobrir tais mistérios que, naquela tarde, obtive permissão. “Ajuda”. Pulei para trás assustado. “Preciso de ajuda”. Ele falou, calou e dormiu.
Voltei para casa, sem conseguir esquecer o diálogo. “Ajuda”. Será que ele falou comigo ou a imaginação quis colorir nosso silêncio? Desde quando cachorro fala? Da janela, fiquei a guardar o cão, numa inversão de papéis. Quando a lua trouxe ilusão à terra, o bicho acordou. Sonâmbulo, atravessou o portão dos Espiga.
CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO:
… Sangue, sangue!
A noite estava densa e sufocante. Os olhos, em busca de refresco, voltavam-se para o céu limpo… Cama da lua imensa e gorda. Há períodos em que a natureza grita por transformação. Em Minas sem mar, noites de maré cheia trazem um cardume de aflitos, privados da capacidade de sonhar.
Quando o cão invadiu o terreno dos Espiga, escondia em seu silêncio o ritmo da determinação. Coreografia solo. Eu corri para perto do portão vizinho; não queria perdê-lo de vista. O cão andou em círculos pelo território inteiro: passava pela casa grande e descia em direção ao pequeno laboratório -ainda com a luz acesa. Deu doze voltas, até a lua atingir o meio do céu. Foi quando o cão buscou um ponto na frente da casa principal e pôs-se a mijar.
Seu Jacó deixou o laboratório tarde, concentrado em especulações e improbabilidades. Trazia uma garrafa de vidro nas mãos. Ao subir para a casa, deparou-se com o cão imóvel e a grande poça de mijo. ‘Maldito!’, gritou, ao lançar a garrafa. O vidro espatifou na entrada. Os estilhaços brilhavam com a luz da lua.
O bicho paralisou, com medo. Tentei chamá-lo, com a força do pensamento. Não funcionou. Seu Jacó se aproximava. Eu precisava tirar o cão de lá… o infeliz pediu minha ajuda e eu não sabia o que fazer. Sem saída, revelei-me atrás do portão: “Vooolte!”, chamei. O cão olhou para mim e correu.
Surpreendido, o cientista tropeçou sozinho. Apoiou a mão esquerda sobre uma lasca de vidro e fez um pequeno corte na palma. ‘Sangue! Sangue!’. O grito. A voz do marido. Perigo. Dona Gorda, ainda insone, correu à porta. O estranho cachorro dos Oliveira lhe prestara visita.
CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO:
… O primeiro muro.
Ampulheta. O presente se esvazia para justificar o passado. O homem recorta um fato daqui, costura um ato de lá, refaz o mundo à sua imagem. Eis quando a criação asfixia o amanhã. O fôlego fica para o enganoso direito de punir e impor sofrimento, de defender, vingar, banalizar a vida. O homem confere tons sangrentos à realidade. Desde Cristo, as prerrogativas da justiça parecem baseadas na dor e no erro. Como se engano, dano, mentira e culpa pudessem ser boas referências para qualquer ação futura. Sinfonia de loucos. Ouvimos o grito áspero dos inflexíveis, notas desafinadas dos precoces, solos bombásticos: o ódio descabido ecoa em trechos arranjados à força. O assassínio soa grave; a guerra, surda.
Amareto amanhaceu amarela. A família Espiga estava decidida a expulsar o cão da face da terra. Se o cão também exalava aversão aos espigas, não tinha manha nem para enxotar pulgas do próprio corpo.Os moradores da cidade não entendiam o porquê do rebuliço. Afinal, desde quando cachorro mijar é inesperado? E se o pobre invadira o terreno para remarcar antigo território, ora, isso só dignificava sua existência animal. O despautério estava no fato dos novos moradores encararem o mijo como ameaça. O cão ganhava ares de Deus-chacal.
Eu estava atolado em confusão. O pedido de socorro do cão, a lua cheia, o mijo ácido, a garrafa, o sangue… Tentei conversar com o cachorro mais uma vez, mas o bicho não se manifestou. Teria me negado confidência ou eu perdera a capacidade de ouvi-lo? Qual fosse a resposta, não insisti contra a natureza. Na noite anterior, já havia me arriscado o suficiente.Meu pai, ao ver tamanha bulha, resolveu conversar com a família estrangeira. Mesmo que os Espiga não se esforçassem por uma aproximação com os moradores de Amareto, também não deveriam querer a rejeição.
- O seu filho e o maldito cão, que aprendam os limites de minha casa! – disse seu Jacó.
Ponderação e diplomacia é uma característica dos bons comerciantes. Ah, como o velho Calixto da Matta sabia conversar! Não se exaltou, mas também não se intimidou. Falou com Jacó, num tom amigo. A cidade acompanhava o diálogo.
- Vocês vão aprender a conviver. De Amareto, ninguém sai. – esclareceu meu pai.
Qual o quê? No dia seguinte, seu Jacó contratou uma empresa de segurança. Iniciariam a construção de um muro ao redor do terreno. Era o primeiro muro da cidade. Para arrematar, todo o contorno ganhou cercas elétricas.Desesperança. Tijolo por tijolo, a parede excluiu Amareto. O muro tinha cara de desforro. Esvaziamento do tempo… Divisória justificada no ontem. Areia parada na ampulheta.
CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO:
… Um túnel!
Olhos d’água. Os motivos que levaram os Espiga a excluírem Amaretto perderam-se entre a poeira levantada. O muro era de uma concretude sem maior. Em sua retidão, o desequilíbrio do vilarejo; em sua altura, a arrogância da família estrangeira. O muro alçou o terror. Sem motivo. Desde quando o medo é bom conselheiro?
Para a surpresa do cientista Jacó, a cidade também aprendeu a falar com base em evidências. Fofoca com substância! A velha gente explorava aspectos da ingratidão, em conversas na calçada, na igreja, no balcão da venda de meu pai. Amareto, que já era bolorenta por falta de assunto, ficou incoerente. Hálito de desconfiança, com café preto ralo. Um bando de pseudo-cientistas amadores com ódio.
O cão estava doente, nada podia reanimá-lo. Eu sabia disso. Rezava todas as noites. Queria paz em Amaretto. Queria a velha cidade, no tempo em que exclusão não era fato. Queria o cão livre na rua, no tempo em que ele tinha teto e não era um palestino mineiro. Sem direito de resposta. Ou de vida.O cão me apareceu em sonho. “O vazio surgirá como guia”, disse um velho. O cão havia morrido. Eu sabia, ainda em sonho.
- Meu filho!!! Chame um médico!
Na manhã seguinte, eu também não despertei como de costume; estava paralisado. Ouvia todas aquelas vozes. Minha mãe, que me buscava. “Você me ouve?” Meu pai. “Filho, fale com a gente!” A voz do muro. “MMM”. A voz do médico. “Fisicamente, ele está bem. Precisamos esperar…” De dona Gorda a gritar com seus filhos. A voz do padre. Nada me resgatava, porque essa busca era minha. Eu precisava entrar em um túnel de saída desconhecida. Enfrentar a incerteza. Viver um período de desligamento e silêncio. Olhos secos.
CENAS DO PRÓXIMO CAPÍTULO:
… A doença de seu filho contagiou minha pequena Íris!

por favor, continua!