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Pé de Pirilampos

avtg

Aiko sempre foi a guardiã da floresta Mori e uma protetora muito carinhosa, atenciosa e sensível. As vidas e o espírito da floresta seguiam em sintonia com a natureza, mesmo com o sortimento de imprevistos e desafios de cada época do ano. Porém, de umas estações pra cá, havia algo estranho no ar. Sim, sim, algo muito espiclondrífico mesmo! A floresta parecia ter virado do avesso.

“Desequilibrei!!” – gritava diariamente o bicho-preguiça estatelado no chão.
“Ah, eu queria dormir agora” – falavam as formigas cansadas.
“Do-re-mi-miiii…”, “Míi!!!”, “Miiii!”, os passarinhos erravam as notas, faziam duelos e soluçavam em fenômeno reflexo.
“Fluflu flafla” – nem mesmo as borboletas que antigamente pintavam o ar e deixavam toda gente entressonhar pareciam as mesmas!

Toda essa confusão tinha uma origem. Aiko tentava encontrar o ponto inicial e todos os desdobramentos que viraram Mori de cabeça pra baixo. Mais ainda, lá dentro dela, investigava demoradamente suas emoções e considerava suas próprias falhas como guardiã.

Voltemos no tempo… voltemos até o começo daquele último verão! Ah, noites de calor e amor! Tudo estava na desordem equilibrada de sempre até o dia em que o vaga-lume Hotaru chegou apressado para falar com Aiko. Trazia uma sementinha dourada que encontrara na beira do riacho Zawa, um grão de arroz de ouro luzidio e brilho tão intenso que parecia até feitiço. Contou Hotaru que quando estava pegando a pepitinha, a coruja Fukurou chamou-o de canto para revelar um segredo. Fukurou de olho bem arregalado torceu o pescoço para certificar-se que não tinha nenhum abelhudo ao redor e abriu o bico: aquela era uma semente muito rara da árvore de ouro, a rainha Kin, mãe de todos os vaga-lumes da floresta! De acordo com Fukurou, quando aquela árvore florescesse e ficasse forte, seria realmente esplendorosa: o tronco, os galhos e as ligas feitas de uma mistura de ouro com prata, as folhas já maleáveis feitas de ouro mais puro, a seiva de ouro líquido puríssimo e todos os frutos… ah, os frutos!… seriam casulos com vaga-lumes! Uma vez maduros, eles voariam diretamente do pé sem sequer encostar no chão, prontos para tremeluzir o ano todo pela floresta! A árvore teria uma luminosidade natural tão intensa que seria a única árvore sem qualquer ponto de sombra, em qualquer hora do dia ou da noite. Hotaru ficara tão excitado com o segredo de Fukurou! Depois da rainha-Kin, os vaga-lumes de Mori ganhariam o posto de vigilantes perenes da floresta. Aiko também ficou encantada a valer com a idéia e pegou a sementinha na mão!!

A menina prestou muita atenção em toda a orientação de Hotaru, que na verdade repetia tintim por tintim as coordenadas de Fukurou para semear a sementinha. A mãe Kin precisava ser cultivada em lugar secreto para ninguém da floresta roubar as folhas ou tentar tirar a seiva da árvore. Aiko matutava como daria conta de tão preciosa tarefa sem contar com a ajuda de um passarinho sequer! Queria ficar sozinha para ouvir a voz do Kaze, seu amigo invisível que sempre lhe soprava o que ela não conseguia ver. Buscou um cantinho no meio da floresta densa e não achou espaço, depois caminhou longas distâncias, correu até ficar com as pernas moles e quando estava quase perto do fim do mundo em um lugar deveras perigoso e pouco iluminado entre a floresta e a próxima vida, enterrou a sementinha lá. Fez tudo em confidência absoluta. O terreno não era muito apropriado, mas ela não tinha muito tempo antes do início da primavera e queria ver logo o famoso pé de Kin a dar vaga-lumes para iluminar a floresta! Imaginava pirilampos em pleno outono e inverno vagalumeando por aí! Nada parecia conter a batida do seu coração. Noites cintilantes, recheadas de mágica e uma árvore reluzente em Mori! O que poderia provocar mais intenso fascínio?!

Aiko sabia muito bem que toda aquela floresta teve seu momento semente. Ela mesma gabava-se de seus feitos. “Tá vendo aquele Jequitibá ali? Eu que plantei!” – listava árvores. Nas condições certas, em terra boa, água limpa, nutrientes e sol na medida certa, tudo poderia florescer. Mori era um sistema de vida inteira e brilhava verões, pintava outonos, calava invernos e ria primaveras! Era simples assim, a natureza não deixava espaço para contradição: semente não vira árvore sem o cuidado certo. E mesmo quando uma sementinha começa a brotar em outro lugar sem muita terra ou muita água, uma hora o brotinho precisa de espaço para poder crescer forte, saudável, grandiosa!

Apesar de certa experiência, Aiko parecia ter perdido o bom senso. Falava com paixão, coreografava na cabeça uma dança imaginária do nascimento dos vaga-lumes e agia com uma fervença que só o fanatismo é capaz de provocar. De tão obcecada com a tal árvore de ouro, enterrou-se viva com o destino da semente. Por não conseguir carregar duas obsessões na agenda, negligenciara o resto da floresta e esquecera que ela inteira também precisava de cuidado. Kaze tentou alertar… “Floresta madura só fica doente e padece quando descontente ou carece de alguma condição necessária para a vida: terra, água, nutrientes ou sol”. Aiko não ouvia! E se em Mori tudo era dinâmico e vivo – bastava ver a força e beleza da floresta -, tudo também precisava de atenção. Para lidar com a indiferença de Aiko, o espírito de Mori tentava resgatar sua força e enfrentava os desafios diários da natureza, o vai-e-vem dos bichos e estações, os ventos, as tempestades e tufões, altos e baixos… Porém, para continuar com vida, a floresta precisava do amor de Aiko.

Logo, algumas árvores começaram a ficar doentes, com braços lânguidos, folhas murchas, cores tristes. E tristeza na região não caia bem, imagina a fama de ‘moribundos de Mori’! Os bichinhos foram desaparecendo, outros ficando loucos e bizarros, alguns ficavam de passagem. Somente os insetos mais pavorosos deliciavam-se com a doença da floresta. Fora isso, o tempo passava e nada da sementinha Kin crescer. Aiko estava preocupada e resolveu mostrar o lugar onde plantara a sementinha para Hotaru. Os dois seguiram juntos, em silêncio. Quando chegaram, Hotaru fez algumas piruetas no ar, brilhou para fazer pesquisa, analisou a terra e o ar para constatar por fim a mais completa falta de movimento da semente. O vaga-lume começou a desconfiar que o grão dourado estava em terra errada, sem espaço, sem condições. Na verdade, estapeado na bunda com as mãos de sua própria lucidez, Hotaru contemplou a possibilidade de ter caído em golpe da coruja Fukurou.

Hotaru quis prevenir Aiko, mas percebeu que ainda não era o momento. Aiko não era mais a mesma, tornara-se egoísta, prisioneira da idéia da árvore-rainha, perdida no vazio de seu falso-castelo. Passava dias sozinha, admirando o próprio reflexo em poças d’água minúsculas que encontrava no meio do floresta. A menina buscava entender que descaminho provocara tamanho rebuliço na região. Estava lá já há nove meses e perdera o fôlego, o chão, o céu, o rumo, a fé! Xingara insetos, afrontava o calor e o frio, desacreditava a terra e o céu, lamentava o dia e a noite!A voz falava baixinho em seu ouvido: “Pare de olhar pra baixo. Respire e olhe pra frente. Respire, escute e confie”.

Depois de vagar muito e chorar outro tanto, Aiko sentiu falta de alguma coisa em tudo. Em tudo. O quê? Por quê? A menina tropeçou em um tronco que se fez cadeira naturalmente, como uma mão do destino. Sentou e sentiu um chuvisco do fim da tempestade. Foi quando percebeu que, às vezes, a gente pensa que árvore grande já grande é e pronto. Que floresta feita já é feita e deixa. Também pensou que talvez a sementinha, se sementinha fosse, realmente precisasse de terra livre para crescer de verdade, inteira, sólida. Precisasse do centro da terra e não do fim do mundo.

Começava outro outono. Aiko sabia que agora algumas árvores que sobraram vivas perderiam a roupa e enfrentariam o inverno nuas, outras ficariam sempre verdes, os passarinhos que ainda estavam por lá iriam todos embora nos próximos meses. Como deveria ser. Passaram duas estações até que Aiko reaprendesse a enxergar a floresta, a apreciar o brilho das estrelas, o trabalho das formigas, todos os tons de verde, diferentes tipos de terra, a barulheira e bagunça do pica-pau, o sol e a lua, o barulhinho da corrente de água escondida na mata, o instigante musgo na sombra da parte norte da floresta e os cogumelos nos troncos das árvores. Demorou, mas ela revia vida em todo canto, sem contradição. Era tempo de trocar de roupa. Aiko merecia aproveitar esse outono, o seu outono, com toda delicadeza.


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A querida Sakurako me contou essa história no fim de semana, por isso tantos nomes em japonês. Resolvi repassar. =)

10 Responses to “Pé de Pirilampos”

  1. Lucia Freitas says:

    Linda, linda, linda. que história boa de ler. Confesso: vc me fez correr ao dicionário para descobrir o que era espiclondrífico. Vontade de colocar no Achados. Posso?
    bj bj

  2. pakalil says:

    ^^ obrigada, Lu!
    Achados e vividos?
    beijo beijo,
    p.

  3. miki w. says:

    espiclondrífico? não corri ao dicionário porque achei que era uma palavra inventada (adoro palavra inventada hihihi), não era??? algo a ver com, por exemplo, clorofila hipocondríaca espivetada??? (hihihihihi)

    pat, que história mais mais mais linda ^^.

    adorei a fábula da vida e espero que, assim como aiko acordou e percebeu como havia se tornado egoísta, sua fábula possa inspirar muitas outras pessoas também ^^. a mim, já me inspirou e muito!

    beijos sabor muffim de cranberry!

    miki

  4. Tecka Mattoso says:

    Patrícia ,

    Que coisa linda!Ouvi com a trilha sonora certa de fundo hotarico do mawaca.
    Bom, chorei .Muitas vezes.
    posso contar por aí?
    quando vai publicar?
    tenho algumas indicações de editoras legais.

    BRAVO!!!

  5. pakalil says:

    Miki e Teca! =) Que lindas!! ^^
    Miki, adorei sua explicação para espiclondrífico!! hihi é isso mesmo, algo muito estranho e sem sentido!
    Beijo sabor amoras selvagens colhidas no pé! Mãos, boca e roupa, tudo sujo e tudo bem! =D

  6. Achados na web #21 » Ladybug Brasil - Sobrevôos, descobertas, achados. says:

    [...] Mais uma linda mulher para enfeitar as leituras da semana. Depois de muito tempo sem escrever, Patrícia Kalil manda uma linda crônica ao ar. Confira a aventura de Mori [...]

  7. miki w. says:

    pat pat pat!
    por que você não coloca (via blip) a trilha sugerida pela tecka em seu conto ^^?
    bisous! miki

  8. pakalil says:

    há! deu certo! agora com trilha de carpa luminescente: Teca pensou na trilha e Miki é hacker mesmo e ajudou a colocar a música no post! =) hihi

  9. miki w. says:

    hihi ^^
    liiiiindo!
    bisou fofa

  10. Tânia says:

    Pati, que lindo!
    Vou contar aos garotos, que com certeza vão adorar!
    Amo a cultura do Japão, tudo sempre tão delicado, sutil.
    Suave. Aliás você me passa essa suavidade sempre.
    Bjs
    Tânia

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