Espuma Branca

Para a turma do Haja Saco
Janelas fechadas, cortinas velhas e ar parado de aquecedor elétrico no meio do inverno. Tamara e Juan dormem. O telefone toca, toca, toca e insiste. Não é engano. Tamara levanta da cama. Toca, toca, toca e reclama. Arrasta-se em direção ao corredor, com olhos semi-abertos. São 2:30 da madrugada. Resmunga.
- Alô?
O gato mia.
- Como ela está?
Juan levanta.
- Oy-vay!
Tamara perde a voz.
Tamara não visitava a mãe há 5 anos. Ao desligar o telefone, fez um minuto de raro silêncio, o que revelava momento de extrema gravidade. Judia de família pobre, nascida no Queens, ela falava mais que cabeleireiro de bairro quando quer vender produto novo para cliente antiga. Todas as conversas revelavam paixão e gênio, até mesmo quando ela barganhava o preço da calça jeans um número menor no brechó. Aquele súbito estado de silêncio denunciou o choque e, neste caso, o choque foi puro descuido. A notícia já era tão esperada quanto antiga: Dona Golda tinha Alzheimer avançado. Sim, a velha já estava para lá de Bagdá, com toda a força que a expressão pode carregar atualmente.
PARA CONTINUAR/
Golda começou a manisfestar sinais da doença muito cedo, com cerca de 50 anos. Os lapsos ficaram comuns e a distração cada vez mais aceitável. Com a morte do pai, o alfaiate David Epstein, o estado de saúde de Golda ficou evidente. A falta de interesse e confusão mental pareciam mais intensos que os sintomas naturais do luto. Ela não se lembrava de onde estava, o dia da semana, tinha problemas para fazer simples contas de cabeça, esquecia-se das pessoas mais próximas. Em menos de um ano, a vizinha entrou em contato com Tamara para dizer que Golda não podia mais ficar sozinha. Tamara ligou para o irmão Josh para resolverem a situação. Como os dois não moravam em Nova York e nenhum queria a mãe na própria casa, resolveram contratar uma enfermeira. Tudo seria pago com a pensão que o pai havia deixado.
A situação ficou sem controle quando a velha desapareceu. Perdida nas ruas de Nova York, sem lembrar do próprio nome, muito menos do telefone de casa ou endereço. Depois de quatro horas de angústia, a enfermeira resolveu ligar para os filhos. Josh chamou a polícia e voou para Nova York. Tamara também viajou às pressas. Colocaram cartazes com a foto da mãe na região: “Golda Epstein, 62 anos, desaparecida. Precisa tomar medicamentos. Por favor, ajude-nos”. O cartaz não falava em recompensa, mas apostava em piedade. A polícia encontrou Golda dormindo em um banco em Conney Island, na parte sul do Brooklyn, dois dias mais tarde. Depois do susto, Josh e Tamara concordaram em mandar a mãe para um asilo. Venderam a casa da família e tudo o que sobrava dos Epstein no Queens. Naquela altura, Golda não se lembrava nem que tinha filhos. E por isso, com o tempo, os filhos também esqueceram-se que tinham mãe.
A vida de Tamara sempre foi um caminhão de tristezas. Mudou-se para Los Angeles com o sonho de trabalhar na indústria de entretenimento. Cinema na virada dos anos 80, a “nova Hollywood” de Coppola, Spielberg, Lucas, Brian de Palma. Queria ser atriz, ou co-atriz, ou ponta, ou produtora, ou assistente de produção, ou contra-regra… até maquiadora ela aceitaria. No entanto, a personalidade forte, a rispidez nova-iorquina e os comentários maldosos não fizeram muito sucesso em Beverly Hills. Ficou com fama de chata, louca e exaltada.
Depois de muitos trabalhos temporários e longos períodos sem dinheiro, Tamara resolveu arrumar a vida. Como não tinha formação universitária ou conhecimento específico, suas oportunidades eram poucas. Entrou no processo seletivo para trabalhar nos correios e foi selecionada para uma vaga na agência de East Los Angeles, o centro latino da cidade. Há mais de 8 anos estava na abafada agência, com as mesmas pessoas. Engordou muito. O efeito invisível do guichê provou-se mais eficaz que qualquer cirurgia plástica. Tamara inexistia, mesmo em seu volume crescente. O desânimo, a rotina e a falta de sentido arruinaram sua capacidade de sonhar.
O seu dia-a-dia consistia em receber pacotes de estranhos e colocá-los em uma das duas caixas: nacional ou internacional. Ela não sabia o motivo da remessa ou a qualidade da expectativa do destinatário. Com o sorriso no rosto, rispidez ou expressão lavada, ela permanecia uma intermediária sem nome. Insignificância estampada. Nada poderia fazer seu desempenho melhor, nem pior: não havia desafios. Dos correios, o carteiro era o único funcionário que ainda poderia ter algum respeito – às vezes, era o responsável por trazer a felicidade para uma casa. Os atendentes do guichê não! Estavam ali para sempre condenados ao anonimato e à indiferença.
Apesar de alguns clientes visitarem a agência de East L.A semanalmente, poucos realmente se importavam em conversar com os funcionários. Normalmente, os únicos que mostravam certa inveja eram os estrangeiros ilegais. “Ah, se eu falasse inglês e tivesse o meu greencard!”, sonhava um, “Eu também poderia trabalhar aqui”, admirava outro. “Isso sim era vida boa”, pensava um terceiro. Foi assim que há 2 anos, Juan Torres entrou na vida de Tamara. Um sedutor, o pobre vendedor de tacos e burritos do TacoTruck na frente da agência. Juan passava nos correios mensalmente para enviar uma remessa de dinheiro para sua mãe Teodora Torres, em Poveda de La Sierra, Guadalajara, México. Depois de uma breve paquera e sorrisos na agência, Tamara contratou o tal latino para fazer pequenos ajustes em sua casa: consertar a porta da garagem emperrada, instalar a cortina nova, arrumar o vazamento do chuveiro elétrico, o entupimento do ralo… e por fim, o sexo. Por pura falta de algo melhor para fazer nasceu um caso amoroso. E pelo mesmo cansaço com a vida e vontade de gozo ocasional, casaram-se. Juan precisava de documentação legal e ela de alguma companhia. Não foi amor à primeira vista, Juan não era nenhum príncipe e Tamara estava longe de ser a garota de Malibu. Mesmo assim, eram íntimos na solidão e isso garantia momentos agradáveis juntos.
- ¿Qué pasa, Tamarita?
- Minha mãe…
- ¿No telefone?
- Não, ela morreu.
Juan abraçou a mulher, pediu para Nossa Senhora do Guadalupe e rezou um pai nosso. O pobre não sabia o que falar. Tamara pegou a agenda telefônica para ligar para o irmão, seu único e distante laço. Josh virou dono de uma loja de perfumes em Miami Beach e tinha dois filhos, Ariel e Marc. Se os sobrinhos eram adoráveis, a cunhada era insuportável na mesma medida. Íris, segundo Tamara, era mais nojenta que cobra seca de farmácia chinesa em dia de calor. Quando atendeu o telefone, Josh já sabia da notícia. A cada palavra de conforto, mais realidade: a mãe estava morta. Combinaram um encontro em Nova York, no dia seguinte. Ela iria com Juan e aproveitaria a ocasião para apresentar o marido ao irmão. Juan ainda não conhecia ninguém da família, muito menos a defunta. Íris pedia desculpas mas infelizmente precisava ficar em casa para cuidar dos meninos.
Tudo marcado. Tamara olhou mais uma vez a agenda. Embora o caderninho guardasse os números de pessoas famosas dos seus primeiros anos em Los Angeles, ela sabia que tudo era pura ficção. Mesmo se os telefones ainda fossem os mesmos, ninguém atenderia tal chamado… “Tamara Quem?” Ela fazia parte dos esquecidos na terra das ilusões perdidas. Olhou letra por letra, com profunda tristeza. “Essa merda de agenda, tão vazia de alguém de verdade”.
Na manhã seguinte, Tamara ainda sem dormir e Juan ainda sem saber o que falar. Pegaram o primeiro vôo para Nova York. Saíram do aeroporto, deixaram as malas no hotel mais barato que puderam encontrar no Queens: Paris Suites. Juan aproveitou a parada e passou na loja de conveniência no caminho para comprar lenços de papel e uma garrafa de tequila. Pegaram outro táxi, agora com destino ao Asilo New Bay.
- Oh Josh, meu irmão…
- Tamara, Tamara… – abraçaram-se para dividir o sentimento que somente os dois poderiam entender.
- Tamara, eu preciso ser direto: o que vamos fazer com a mamãe?
- Precisamos ver o cemitério do papai, organizar o velório e enterrá-la.
- Não, Tamara, você não me entendeu: quem vai pagar o enterro?
- Você é dono de loja e…
- E eu tenho filhos pequenos! Mesmo se eu tivesse dinheiro para jogar embaixo da terra, eu ainda não teria tempo para organizar esse evento todo.
- Não sei o que dizer, Josh… eu não posso pagar o enterro sozinha.
- A mamãe não conhecia mais ninguém.
- Não precisa ser nada grandioso, Josh.
- Tamara, o que você acha de cremá-la?
- Cremar! Isso vai contra o Torah! Está louco?
- As funerárias pedem uma fortuna atualmente…
- Josh…
- Se ela soubesse os preços de enterros, não teria dúvida.
Juan preparou doses de tequila para o cunhado e a mulher. “À memória de dona Golda!”, exclamou. Silêncio. Além de não aceitar o copo, Josh fez pose de ofendido. “Um mexicano que falava um inglês porco, um amhaaretz. Pelo menos Íris tinha educação”. Tamara pegou a dose de tequila e fez um brinde com Juan. “À memória de minha mãe”, murmurou. Para não deixar o marido sem graça, bebeu também o copo do irmão. Enquanto isso, Josh andava e falava sozinho, ditava ao ar os passos para solucionar a morte da mãe.
- Eu organizo e pago tudo! – chamou atenção de Tamara – Só preciso que você faça uma coisa: preciso falar para Íris que você organizou o enterro. A família dela não aceitaria a possibilidade de cremação.
- Eu não tenho dinheiro nem para pagar o hotel em Nova York!
- Não estou dizendo que vamos enterrá-la, mas que vamos dizer que enterramos. É a única opção que temos, infelizmente. Só que eu não posso me responsabilizar pelas cinzas, entende? Isso me daria problemas em casa. Vou falar que enterramos a mamãe.
Tudo foi arranjado rapidamente. As cinzas seriam enviadas para Los Angeles, por correio, em uma semana. Tamara ficou em Nova York mais dois dias, pois já havia pago o hotel e queria levar Juan para conhecer a casa onde nasceu, o Queens, a ilha de Manhattan, o Central Park, o Empire State Building e comer o melhor sanduíche de pastrami dos Estados Unidos.
De volta em Los Angeles, ela pediu mais alguns dias de licença para ficar em casa. Queria esperar pelas cinzas da mãe e ficar sozinha. Abriu a velha garrafa de uísque. “Um gole para parar de sofrer”. Sofria de vazio. Naqueles infinitos dias, pensou em sua infância, na morte do pai, nas brigas, no sonho de trabalhar no cinema, nos primeiros sinais de Alzheimer da mãe, na falta de oportunidade em Los Angeles, na distância do irmão, no asilo, em tamanha solidão, em nunca ter encontrado seu verdadeiro amor, no casamento com Juan, na falta de sentido ou destino, nos correios. Uma coleção de pensamentos ruins que só foram interrompidos pela campainha. O pobre carteiro não tinha noção do conteúdo da caixa de papelão vinda de Nova York. Tamara sabia. Falou boa tarde, pegou o pacote e assinou o comprovante de recibo. Fechou a porta e abriu a caixa de papelão, sem pressa. Havia um plástico preto, com tampa e uma etiqueta: Golda Epstein. Começou a chorar.
Na manhã seguinte, Tamara pegou a caixa preta de plástico com a mãe, colocou na mochila e dirigiu até Manhatan Beach -julgou aquela praia a mais oportuna para a ocasião. O céu limpo, um dia claro e frio. Ao chegar na praia, estacionou o carro, pegou a mochila com a mãe e foi andar. A praia estava quase deserta: o mar gelado só guardava surfistas. Todos vestidos com neopreno preto, como se fossem meninos em luto sobre as ondas. Tamara também estava de preto. Usava botas, calças e blusa de manga comprida. Não havia nenhum pier por perto e Tamara continuou a andar com a mãe nas costas. Areia, mar, Tamara, as cinzas, gaivotas, homens de preto, o vento, areia. Chorava. Ela, em pedaços, a mãe, em cinzas. Ela, em mil partes, um quebra-cabeças sem todas as peças; a mãe completa e serena, ainda que em pó. Golda que viveu os últimos anos no presente absoluto, um presente particular e sem embrulho, um presente sem laço, sem qualquer laço ou nó…
Cansada, Tamara parou para contemplar o oceano, infinito. Que imensidão e mistério. Sentou-se na areia molhada, perto das ondas. Colocou a mochila no colo, tirou o plástico, abriu a tampa e começou a acariciar as cinzas. Suava frio e chorava. “Será que é hora?” De repente, uma ventania explodiu em Manhatam Beach. As gaivotas gritavam, exaltadas. Os surfistas saíram do mar para esperar o vento acalmar; homens de preto caminhavam, perdidos. Com o agito, uma gaivota voou rasteiro e assustou Tamara. Ela derrubou a caixa. As cinzas na areia, a mãe… Tamara chorava compulsivamente e mexia nas cinzas. Soluçava, revolvia a areia, as cinzas, o choro, as ondas, o vento. Por todos os lados, os homens de preto.
Sem perceber, começou a construir um castelo. “Minha pequena princesa”, era assim que minha mãe me chamava. Lembrou das vezes que foi à praia com a mãe, sempre em Conney Island. Fazia o castelo, de areia e cinza, de mar e lágrimas. Uma espuma branca surgia do mar, ou das cinzas. Uma espuma leve partia das mãos de Tamara. Ela já tinha o pensamento longe. Começou a rir, a pequena princesa. Fez um castelo com a forma da caixa de plástico. Um castelo só para ela. A pequena princesa levantou suja de areia, rindo feito criança, tirou a roupa e foi mergulhar no mar.

a mãe, o irmão, os sonhos, o correio, o sexo, a areia, as cinzas, os homens de preto… a caixa.
o vento e a espuma do mar…
Bom de ler o Espuma Branca. Interessante o povo já globalizado. a judia reza para a santa católica, provavelmente influenciada pelo mexicano, e assim vai. Hoje é tudo assim mesmo: cinza misturada com areia, branqueando a espuma. Global…
Flui o texto como flui a vida. Go on writting, baby!