Pour le petit P

Klimt
Felicidade e bolhinha de sabão! Maravilha é sentir esse amor profundo ao ver você nascer! É divino. É perfeito. Caço palavras para tentar contar o que é inexplicável, profundo, puro. ‘Fico só, inteiramente!‘ e deixo esse amor de tia me arrebatar o coração, o pensamento, o tempo e o sono. E amo. Dans mon coeur, mon petit P.
Parabéns, Luciano, meu irmão. Parabéns, Dani! Sou toda toda coração.

você é P, de Pa…
ele P, de Pe…
depois uma sílaba tripla: tri e dro.
Bem se vê que são velhos amigos de alma…
Durante todo esse tempo em que morei fora (na fase em Dublin, ou Londres, ou Paris, ou Estados Unidos), a internet sempre mostrou-se capaz de atravessar fronteiras. Eu uso telefone voip (voice over internet), e-mail, blog ou chats online para me comunicar com toda gente no Brasil. Com minha mãe, falo quase diariamente. Com meu irmão falo um pouco menos, mas ainda toda semana. Falo com minha avó, tias, tios e primos bem mais também. Lembro-me que quando eu estava em São Paulo, até mesmo porque todos estavam tão pertinho, eu dava menos importância para essas coisas.
Enfim, hoje aprendo o limite da Internet. Acompanhei o casamento do Lu e da Dani de longe, por fotos no Flickr, e já senti um aperto terrível no coração. Com o nascimento do Pedrinho, que saudade e isolamento. Todas as nossas cartas parecem mais demoradas. Sinto tanta vontade de estar mais perto nesse momento importante e único. É como se eu estivesse recebendo cartas por navio, estivesse em outro tempo, num passo diferente. Estou tão longe agora. Parece que estou no estrangeiro naquele tempo em que estar no estrangeiro era passar anos sem receber ou dar notícias. A distância física pela primeira vez fez-se presente.
Bem, chega de choro! Deixa eu contar essa história direito como ela merece ser contada (abro o envelope que segurava nas mãos e tiro a carta, uma notinha e uma foto).
Ah, uma notinha da minha mãe Miriam, aqui (comentário anterior)! Ela diz: Pa-tri tem uma ligação com Pe-dro! Que fofa! Veio junto com essa foto do Lu (olho a foto, sinto o cheiro e dou um beijo no rosto dele). Está vendo esse rapaz na foto? Esse rapaz é meu irmão, Luciano Kalil, quando ele tinha 29 anos. Ele é um ano mais velho que eu. Atrás da foto está escrito: “São Paulo, setembro de 2007 – Templo Zulai”. O Zulai é um templo budista que meu irmão adora ir. O Lu é vegetariano, meio budista de coração, meio zen de alma. Meu irmão é um sujeito especial! Tudo nele revela calma. Agora ele está estudando psicologia, está no último ano. Posso lhe mostrar outras fotos, mais tarde.
Deixa eu lhe contar um pouco do Lu. Diz a lenda que ele é calmo assim desde que nasceu! Ele nasceu com a ajudinha da Dona Cesariana no dia 07 de dezembro de 1977, lindo, gordinho, fofo. Um bebê que não chorava nunca, só sorria. Um ano depois, eu nasci com a ajudinha do Seu Fórceps no dia 19 de dezembro de 1978. Dizem que quando eu estava com fome fazia um escarcéu. Somos os dois sagitarianos, só que o Lu com o ascendente em aquário e eu em leão. O Lu é cobra e eu sou cavalo no horóscopo chinês. O Lu adora desenhar e eu adoro escrever. Ele é bom em matemática e eu gosto de português. O Lu ama videogame e eu amo ver o Lu jogando videogame porque ele faz muita careta de verdade! O Lu ama o Super-Homem e eu até hoje quando vejo qualquer coisa de super-herói lembro-me dele. O Lu faz piadas infames. Eu dou risada.
Dizem que mesmo sendo bebê ele acreditava que eu era mais bebê que ele e ficava me olhando com curiosidade. Vai saber o que ele pensava. Eu me viciei em ter aqueles olhões protetores sempre na minha direção.
Quando a gente era criança, dizem que eu aprontava um bocado com ele. Eu não lembro de aprontar tanto assim, os ‘de fora’ exageram demais. Verdade, uma vez no sítio empurrei o Lu no formigueiro de brincadeirinha e, coitado, ele era alérgico e ficou com a perna toda cheia de bolha (pauso, fico olhando para as fotos com um sorriso no rosto). Ah, tem também outra vez que fiz brigadeiro para ele no meio da tarde, mas ele foi colocar o dedo no prato antes de eu falar que podia, daí eu dei um tapa na mão dele. Pobre, a mão afundou no prato e ele foi parar no hospital com queimadura séria. Mas foi tudo sem querer e ele dá risada quando conta essas histórias. Houve também ‘o acordo das bananas’, conhecido entre as partes envolvidas como ’800 (oito-zero-zero)’, mas esse eu deixo para outro dia.
O que ninguém sabe é de nossas brincadeiras de soltar tatu-bolinhas no ônibus da escola, do tempo em que a gente andava de bicicleta e soltava pipa com cerol nas férias, das brigas em ‘dupla’ que a gente arrumava na escola (o Lu diz que eu era encrenqueira, é mentira! Ele entrava em briga porque era CDF demais e eu como irmã mais nova e parte da dupla de superpoderosos aparecia lá para defendê-lo. Daí, ele, sempre muito pacífico, ficava de olho enquanto eu levava a surra. Dizia que se fosse demais para mim, ele entraria). Ah, nós dois sempre sempre grudados, café da manhã, escola, almoço, tarde na rua e jantar! (dou risada) Por falar em comida, lembro dos almoços diários nos restaurantes perto de casa. A gente não tinha empregada e minha mãe tinha conta nos restaurantes do bairro para a gente escolher diariamente qual era o gosto do dia. Os frequentadores adoravam ver dois pequenos de 10-11 anos com o cardápio na mão. Certa vez, uma madama veio sentar na nossa mesa e, já sentada, perguntou se podia sentar com a gente. Eu olhei para cara dela e disse: Não, só porque a gente é criança? Eu não te conheço, oras. Você é uma estranha! Por que você não vai sentar na mesa daquela moça ali? O Lu me deu um chute embaixo da mesa! Ah, tem tanta coisa para contar: os telejornais de mentirinha feito com notícias do dia para minha mãe, a primeira empresa na escola para vender ‘supermini colas com fórmulas’ no dia da prova e por aí vai.
Durante a adolescência, entrei no Teatro Escola Célia Helena e o Lu começou o curso Aikido e um outro de energia que eu não lembro o nome. Depois, ele fez cursos de Visual Basic e já trabalhava nas lojas da família. Eu trabalhava como ‘secretária’ da minha avó na empresa de consultoria dela duas vezes por semana, para pagar a mensalidade do Célia. O Lu arrumou a primeira namorada. Eu arrumei o primeiro namorado. Ele mudou para o período noturno na escola e, agora, tinha amigos que bebiam cerveja. Eu continuei no diurno, mas saía com o Lu e os amigos dele que bebiam cerveja.
Depois, durante os nossos 20 a vida mudou bastante. Eu fiz jornalismo e fui morar fora com 21 anos. Voltei com 24 e fui embora de novo com 26, já casada com Laurent. Casei no Brasil, mas conheci Laurent em Paris. O Lu fez duas faculdades. A primeira foi ciências da computação e agora está no último ano de psicologia. Ah, acho que já falei que ele faz psicologia, né? O Lu sempre trabalhou muito, montou empresas de Web design com 17 anos, fechou, trabalhou para as lojas da família, comprou carro, apartamento, casou uma vez com a sujeita errada e separou rapidinho (que bom, eu não gostava dela), vendeu tudo e recomeçou a vida com muita calma. O Lu sempre transborda um amor e bondade de deixar qualquer um sem fala.
A Dani apareceu na vida dele como uma estrelinha que cai do céu. Na verdade, essa estrelinha estava na frente dele há muito tempo. Tive a feliz oportunidade de conhecê-la em dezembro de 2007, quando passei o Natal no Brasil! Ela é uma fofa e os dois se amam muito.
Esses dois trouxeram Pedrinho, a grande alegria de toda família. Ah, que bebê mais lindo. Como é realmente mágico essa história de ter filho, de fazer uma nova vida assim, de imaginar daqui para frente (pego uma caixa com fotos do Pedrinho e começo a mostrar)! A primeira semana foi um agito só, olha essa foto! Olha essa aqui! É muita novidade para os pais, mas também para avós, tios, primos! Como diz minha mãe, tão pequenininho e é capaz de encher nosso coração inteiro, fazer todo mundo parar para refletir sobre o que é importante ou não, parar para dar um abraço querido num parente distante, para festejar a vida como a vida deve ser festejada, sempre.
Bem, estou aqui contando histórias e já é tarde, imagino! Então deixa eu guardar essa foto e o bilhete da minha mãe nessa caixa de fotos que deixo embaixo da minha cama. É para ajudar a sonhar! Outro dia, eu conto mais.
Sempre, P.
Seattle, 07 de Janeiro de 2009.
Querida Pa…viu como é fácil ficar perto de novo? A mente vai levando a gente, como uma viagem de barco…sopra pensamento, sopra… sopra um dia feliz que nunca vai passar. Sopra o passado, que se faz presente, e sopra o futuro também neste momento.
Nesse momento tem tudo, inclusive o Pedro.
O Pedro, Pedrinho Kiriku (só para sua vó mineira), trouxe para cada coração toda a lembrança da vida. Especialmente para sua tia Pa. Eles se contaram, ele o presente, ela o passado… eles se encontraram, de alma.
É tão bom lembrar da vida pelos teus olhos-coração, Pa. Vem sempre o que foi essencial, bonito, alegre… Vem o que você tem de melhor, dentro.
Tamotanto
Que linda história Pati! Conta mais vai… adoro saber histórias do Lu. Viajo quando vejo as fotos dele de infância, o amo tanto que gostaria de ter vivido perto desde criança. Mas sei que as coisas acontecem no tempo em que tem que acontecer, mesmo que tenhamos que sofrer um pouco, faz parte.
Conheci o Lu em 2001, me apaixonei, mas na época ele namorava, depois ficou noivo… e casou. Foi difícil ver tudo isso, nem imaginava que um dia teria uma chance. Mas esse dia chegou (depois de 5 anos) e hoje eu sou muito feliz com ele, e com o presente que ele me deu, o Pedrinho. Com o Lu, realizei meu maior sonho, ser mãe. Desde criança sonho com esse momento e sabia que teria um menininho.
A gravidez, o nascimento, tudo mágico! Olho pro Pedrinho e vejo um pouquinho de mim, um pouquinho do Lu e nem acredito, que perfeição! Vai ser muito bom compartilhar momentos da vida do Pedrinho com a família, os amigos e todos que o amam!
Beijinhos Dani & Pedrinho
Pa-tri !
Não existe nada no mundo comparado a ser pai. Ninar um bebê, fazer ele parar de chorar, deixar ele no peito e sentir sua respiração, sentir seu cheiro, ver seu sorriso, oferecer o dedo para ele apertar com força quando tem cólica… avalanche de emoção.
Lendo seu texto lembrei-me de várias fases da infância. Vida boa a gente teve… Crescemos rápido, mas por mais que a mãe trabalhasse sabíamos que bastava um assobio e estava lá a super mulher. Amo muito você e amo muito nossa mãe.
Hoje eu estava ouvindo um cd de músicas só tocadas enquanto ninava o Pedro… Tinha o Boi da Cara Preta, Se Esta Rua Fosse Minha, Atirei o Pau no Gato, Alecrim, O Cravo Brigou com a Rosa, Nana Nenê… eu lembrava de quase todas letras! Incrível. Foi ai que pensei: Nossa, eu aprendi tudo isso na infância, lembrei também das músicas dos Saltimbancos… Eta infanciazinha boa.
Várias casas… várias escolas… vários amigos! Várias brigas e você para me defender!
Você sempre foi forte, mulher! Até hoje eu nunca conheci alguém com tanta força. Parece que não tem medo de nada e se tem deve ser o que te impulsiona a ir em frente. Eu gosto mesmo do Super-Homem, mas você com certeza é mais forte que ele. Afinal, se ele é indestrutível, do que ele teria medo? Você, não importa o desafio, está lá com a cara e coragem.
Acho que pelo fato de viver só com você e a mãe me fez me sentir como seu protetor. Espero ter desempenhado bem o meu papel. Sei que às vezes era até chato e que provavelmente ainda sou.
Sobre as coisas que você citou do passado, principalmente as que não deram certo, foram todas necessárias. Hoje sou o que o passado me fez e que bom que vivi tudo isso.
O Pedro me fez parar de acreditar no acaso. Com certeza tinha um Pedro e uma Dani no meu caminho, no meu caminho tem uma Dani e um Pedro. É como se eu tivesse vivido a vida toda só para chegar aqui.
Obrigado pelas lembranças. Revivi cada uma delas ao ler… me senti criança, adulto, pai, irmão, filho! Te senti aqui do lado, aqui dentro, aqui em volta! Saudade. Beijo, Lu
Amo vocês…. todos… muito….
O FÍGADO… A FLORINDA… O HOMEM ARANHA… O “COCHÊ FUNÉBRE”!!!!
Li… tudo isso e chorei… chorei, porque entendi q não tive filhos… mas tive!!!! Todos q me conhecem sabem q tem várias coisas das quais gosto muito… SONHAR, de COZINHAR, de RIR!!!!! Lendo essas histórias vejo o qto estive om vocês… Qdo o Lu arregalou o olho acreditando na existência do HOMEM ARANHA: “e não é q ele existe?”!! Lembro dos telejornais, você já deixando ver a jornalista q seria!! O Lu com seus grandes olhos, com o chapéu coco q e ele me tomava emprestado, já mostrava o sonhador que seria: vestia-se de Chaplin!! E a gente ria muito. E eu cozinhava para vocês, quando com o olhar vocês pediam: “cozinha, tia Marcia!!” Lembra do fígado cru??? Quem diria q o Lu se tornaria Vegetariano? Lembra do “cochê funébre”?? Quem diria que no Lu apareceria o poeta, o cronista do texto acima? E sabe o q mais? A chegada do Pedro mostrou o qto somos próximos, mesmo estando distantes… e que bom!!!!! Quero cozinhar muito para o Pedro, quero q ele tenha a oportunidade e o exerça o SONHAR!!!!! Sonhar muito… sonhar sempre!!! Quero muito estar nessa jornada!!!! Quero me propor a estar também mais peto da Dani, acho ela não sabe… mas gosto muito dela… Quero também contar muitas histórias do Lu pra ela!!!! Quero saber q faço parte de mais esse pedaço da vida de vocês…agora com novos companheiros de viagem q estou aprendendo a amar também!!! AMO MUIIITO!!!! BEIJO GRANDEEEEEEE
A emoção me fez cometer alguns erros de digitação!!! Deixa pra lá…..
Essas minhas tias mais queridas! Tia Márcia, eu sonho em comer do seu quibebe e beber do seu quicome! Tia Miriam, eu quero receber seu cafuné ouvindo LPs no sofá da sala. Dani, eu quero contar histórias do Lu. Calma, Lu, eu prometo não contar tudo. Mãe, conto tudo só para você!
Eta coisa bonita essa conversarada toda… Pois é. Hoje arrumava as coisas para me mudar e escaneava fotos, para poder jogar os álbuns pois nao vão caber na nova toca. E vi esta criançada toda. Muitos momentos bons. A garganta estava apertada que só.
Até que entrei aqui e li isto aí tudo – e a garganta destravou. Eta, aguarada…
As histórias da vida vão ficando mais bonitas quanto mais tempo passa. Parece que o olhar aprende a ver aquilo e muito mais além.