
Leslie e eu em: “Mulheres em Coma” – foto do Renato
A fila da segurança arrastava. O avião sairia em duas horas. Pose de bailarina, mesmo com os pés doloridos do fim do espetáculo. Dias de arabescos, battements, fouettés e pequenos saltos. Eis o grand pas d´action: o solo final. Decolar e deixar pra trás. A última vez que chorei em um avião foi quando deixei Paris, em 2003. Despedi-me de Laurent , sem saber se nos encontraríamos novamente. Chorei durante a primeira hora de vôo tudo o que não fui capaz de falar, o silêncio que não ousava prometer “até qualquer dia”. Dessa vez, pela primeira vez, chorei ao deixar o Brasil.
São Paulo é meu porto seguro. A cidade guarda minha mãe Miriam e pai Cláudio (mesmo que eles ensaiem certa mineirice), meu pai Ricardo, meu irmão Luciano e os caçulas, cada vez mais velhos e sabidos. Minha avó, sempre bonita. Minha outra avó, sempre calada. Tias, tão queridas, e tios. Os amigos que gosto tanto. Todos com a vida diferente, mas todos lá: Lu Leone, Ana, Renato, Lu3, Heinar, Pitty, Mauro, Ícaro, Leslie, Lucia, Raoni, Sô, Giba, Trentas, Lulix, Tecka, Mari, Evandro, Marinho, Sandra… Até mesmo aqueles que não vejo, mas recupero nesse sonho particular de verão.
No Brasil, não quero falar sobre mim. Só quero estar por perto e pertencer. Ver, ouvir, dançar, entender o ritmo e a rotina, as modas, conhecer o que é legal, fechar os olhos.
Se eu pudesse, congelaria todo mundo e ficaria com cada um, em silêncio, um tempo infinito. Invisível. Descobriria as novas rugas, o riso, o hálito que nunca cheirei, os sonhos, as desilusões, o brilho… Seguraria cada mão. Palmas molhadas ou secas. Firme. Meu amor, o que mudou de verdade e o que permaneceu?
Tumtumtum. Metralharam-me com perguntas carinhosas. E repetidas. As mesmas curiosidades. Luciano, meu irmão, disse-me que eu não respondia mais coisa com coisa. “Que tanta pergunta! Eu tou cansada de mim comigo mesma!” Não ouvia mais, respondia, inventava, falava qualquer coisa para tapar buraco. Dei até receita de como fazer o que nunca fiz.
E o tempo voou. O outro avião partiria em qualquer instante. Meu riso tímido cantava saudade. Queria feijão e um abraço profundo. “Senhores passageiros do vôo 92 sejam bem-vindos a bordo”. Ainda precisava correr a Paulista embaixo da tempestade, para lavar o suor e esfriar a pressa. “As máscaras de ar cairão automaticamente em caso de descompressão da cabine”. Ver o largo São Bento, o corre-corre, o chão sujo e os meninos no farol. “É proibido fumar nos banheiros”. A fumacinha da esfiha de escarola no Jaber, as barracas da feira, o pastel de jabá e a gordura nas mãos. É proibido proibir! Sua idéia, perfume, riso, música… Segure as pontas, bailarina, força para a velha pirueta. “E boa viagem”. Empacotei tudo no fôlego e fechei os olhos. Um menininho lindo ao lado desenhava as férias. Apertem os cintos. Eu sentia. Meus olhos rebatiam o pulso. Respirava fundo. O menininho lindo. O Brasil. Vocês. Onda veio, vagamundo, meu verão. Vai…