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Archive for November, 2008

Além do frio, isso é science fiction

20081127 14:02

Maman prepara um fabuloso almoço francês de mil pratos para nosso Thanksgiving. Receberemos a australiana Lynne, uma pré-histórica ex-tenista de idade desconhecida e sua amiga Pat, essa de 92 anos. Lynne gosta de contar histórias da vida extremamente elegante e gente absurdamente besta. Eu gosto de imitar Lynne depois e antes dos nossos encontros. Imito pombos, ronronando como pombos que cagam em sua grama verde. Isso porque depois de aposentada do tênis internacional, Lynne passou a ser uma pesquisadora de aves e quando acaba o assunto, ela gosta de imitar os sons das mais diversas criaturas como se fosse um gravador portátil. Adivinha que ave é essa? 

Chegamos ontem à noite, depois de ler uma semana sobre a guerra na África, ouvir sobre os atentados na Índia, querida Índia, e ler sobre a catástrofe da natureza no sul do Brasil. Uns agem por Deus, outros tentam entender o castigo divino. 

Estou no meio da ponte, essa vida, e todos gritam verdades aqui e ali.

– resolvi publicar outro post private. Reli e achei engraçado. Sorry, Lynne. Já me arrependi da piada, depois eu tiro do ar. Eu gosto de você, principalmente da sua gaivota que ri.

Sobre audiobooks

20081118 21:57

Esse mês ouvi Neil Gaiman, Neil Gaiman e Neil Gaiman! Estou gaimanzada para sempre! Encontrei meus passos no mundo da fantasia e aplaudo tanta imaginação. Se você tem conta no Audible e ainda não leu ‘Neverwhere‘ ou ‘Graveyard‘, busque no site. O próprio Gaiman narra os livros e ele o faz com graça, ritmo e talento. Fora isso, como é o autor das histórias, exibe domínio das personagens e defende tudo com bonita empolgação. A narração é também quase uma aula sobre como ‘contar histórias (storytelling)’ e arrancou-me risos, surpresa e ar. Fiquei muitas vezes com olhos arregalados, em momentos da mais sincera concentração. Adorei!

Agora estou ouvindo ‘American Gods‘, mas não é Gaiman quem lê. A próxima da lista é Ursula Kroeber Le Guin.

Mia Couto

20081118 19:48

As belezas se subtraem:
a gente vê borboleta e esquece a flor.

Somava tanta espera que já esquecera o que esperava.

Termino de ler dois livros de Mia Couto com olhos d’água. Ele escreve poesia em prosa e reinventa a língua para contar histórias de Moçambique, um país que depois de quase cinco séculos como colônia portuguesa -a independência só viria em 1975- enfrentou uma longa e devastadora guerra civil. Estima-se que entre 1977 e 1992 mais de um milhão de moçambicanos tenha morrido por causa do conflito e da fome no país. O interior ficou com um legado de campos minados e homens amputados. A poesia de Mia surge como fruto da pobreza, guerra, fome, seca e dor do país. Vamos viajar juntos para “esse território onde todo homem é igual, fingindo que está, sonhando que vai e inventando que volta”. 

Mia vem manso como gato e queima palavras como sol no verão moçambicano. ‘Lamentochão’ ou ‘pressentimentalismo’ em terra tão ‘perfumegante’? Diria uma de suas personagens com o copo de cerveja na mão, ‘estou bebendo é o tempo, a ver se ela não demora tanto’. A partir de toda aquela tristeza que esconde ‘mais gravidade que o planeta’, o autor desemudece para narrar a vida de um ‘cabistonto’, outro ‘reumasmático’, um ‘desajuste de contas’, um inusitado ‘hiperpótomo’, dias ‘neblinublados’, uma menina de ‘olhos cristalindos’, outra ‘calafrígida’, os saltos de uma ‘alma pernarda’, o ‘penúltimato’, um que começa a ‘desviver’ e outro que ‘cai, esparramorto’.

Mergulhamos nas crendices populares moçambicanas, religiões, a sociedade machista e  a ‘lenga-lengação’ bonita das mulheres. Enquanto uns cometem o ‘pecado imortal’ porque não crêem em platonismos e praticam ‘sexo à primeira vista’, outros mais religiosos não escondem certezas. Mia trata de todas convicções, mesmo aquelas políticas, para mostrar como ‘sem a luz da dúvida, o ódio cresce melhor’. Eis quando a guerra desembarcou naquele chão ainda recém-recente e foi ‘capaz de todas as variedades de morte. A vida se tornou demasiado mortal’.       

Em todo o Moçambique a guerra está parar. 
Sim, agora já as chuvas podem recomeçar. 
Todos estes anos, os deuses nos castigaram com a seca.

Nos últimos dias, naveguei em ‘Terra Sonâmbula‘ e ‘Estórias Abensonhadas‘. Cai na manha de Mia e quero mais. Mesmo assim, ouso também desdizer o que se escreve em muitas críticas literárias brasileiras nessa mania de classificar tudo que se vê pela frente. Dizem que Mia é a voz da África -a cantora sul-africana Miriam Makeba, morta no mês passado, também recebeu esse título. Enfim, eu não concordo com a generalização porque a África é muito complexa para exigir que um único autor ou cantora, por melhor que seja, fale por todo o continente. Jorge Amado é a voz da América Latina? A África, atualmente, se grita em uníssono, é um choro mudo de dor dilacerante. Ou teremos sempre peneira nos olhos para o que acontece por lá? Ainda se quiséssemos ler Mia como a voz de Moçambique, eu seria contrária a esse rótulo. A criatividade e sensibilidade de Mia contam a vida com voz dele mesmo. É um modo singular e muito lindo. Acho que o autor já ficaria bem feliz com esse título.

O pouco se fazia tudo e o instante transbordava eternidades.

O Mago: de coelho a cordeiro

20081118 18:49

Sou leitora de Fernando Morais e biografias. Gosto de ouvir histórias das pessoas que acreditaram e correram atrás de seus sonhos. Vibrei com ‘Montenegro‘ e me emocionei à beça com o livro sobre o marechal que fez revolução no céu. Antes ainda, descobri ‘Chatô‘ e ‘Olga‘, que li, reli e anos depois, tresli nas telas do cinema. Agora, o ‘Mago’, conta a história mirabolante do polêmico escritor Paulo Coelho.

Mesmo sem fantasiar, Morais conta o incrível. Entre a culpa e o coito, surge um Coelho coitado. Entre o canto e o conto, um Coelho cultista. São páginas sobre a infância rica mas triste, com pais obtusamente conservadores e a revolta do menino, o fracasso na escola de jesuítas Santo Inácio, sucessivas internações em ‘casas de repouso’ onde levava choque elétrico para ‘educação’/'correção’ do filho, a dificuldade para completar os estudos, a culpa da masturbação punida com o fogo eterno do inferno, surtos de nervoso e solidão. Dos poemas infantis, Coelho parte para investidas teatrais, tenta se matar, recebe a visita do Anjo da Morte -com direito a sangue de cabra-, publica plágios em jornais no nordeste, dá aula de teatro em escola pública do interior fazendo experimentos com magia negra nos alunos, inventa entrevistas quando vira jornalista no Rio e vive muitos casos espetaculosos. Acompanhamos a obsessão de Coelho pela carreira literária desde a infância e sua incapacidade de escrever. Morais revela a angústia, a dúvida e os seguidos fracassos de Coelho, que ainda não era autor de best sellers mas já colecionava dezenas de diários pessoais trancados num baú. Tantos desvios e um só Coelho a colecionar manias supersticiosas, amores para toda vida, casos rápidos, experiências sexuais das mais diversas, drogas, versos satânicos, rock and roll, amigos da high society carioca e colegas de manicômio. Todo cheio e todo vazio, um verdadeiro vampiro a conjecturar sobre esquemas diabólicos para conquistar o mundo.

Coelho é ora sujo, ora hippie, mas sempre frágil. Com doses de covardia e desonestidade, o escritor parece ter passado grande parte da vida equilibrando-se na corda bamba amarrada entre o prazer e a fama. Um animal perdido no caminho que exalta o simplesmente hedônico e o totalmente questionável. Sem mágica, Morais pinta um Coelho humano.

Sua busca pelo poder consome até o dia quando misteriosa nuvem de fumaça negra com cheiro da morte e jeito do diabo invade seu apartamento no Rio. Ele gela, arrepende-se do satanismo e reza para o Deus católico. Aí vem a carreira na indústria fonográfica como diretor bambambã da Philips e aventuras de mochileiro endinheirado. Durante a viagem, Coelho tem encontro inexplicável com a fé. Torna-se parte de uma alegada ordem católica chamada Regnus Agnus Mundi/RAM e parece mudar da água para o vinho. A RAM seria organizada no modelo ‘estrela do mar‘ (sem líder no comando ou sede, como organizações terroristas), mas pouco se encontra a respeito da ordem na Internet e há especulações sobre sua real existência. De toda forma, tanto Morais quanto Coelho deixam pistas entre a semelhança da RAM e da Opus Dei, nas propostas para iniciantes com exercícios de autoflagelação, provas, privações e tudo mais. Sempre no extremismo religioso, ele oscila com o vaivém do pêndulo místico passando por catolicismo, satanismo, magia, vampirismo, espiritismo, beatismo. Seria mesmo um o avesso do outro?

Ainda na preparação para o caminho de Santiago de Compostela, Coelho faria outra (a última?) excentricidade à moda das Organizações Arco de sua infância: ele contrata um brasileiro zé-ninguém como ‘escravo’ para fazer o caminho de Santigo com ele durante três meses. Porém, depois de encontrar o ‘tesouro’ no meio do caminho e antes do prazo combinado, ele abandona o sujeito na Espanha e vai batucar samba para festa fechada da Opus Dei. Meses depois chegaria a primeira edição de ‘Diário de um Mago’. Deste ponto em diante, Morais começa a contar a vida de Coelho como escritor, as táticas de publicidade de guerrilha usadas no Brasil e no mundo, a fama nacional, o troca-troca de editoras, o sucesso internacional e a realização do grande sonho: ser um escritor lido mundialmente.

Fica a dúvida no ar sobre as esquisitices de outros tempos – elas teriam deixado de existir a partir do reencontro com o catolicismo? Essa é a impressão que se tem no livro. O escritor foi ‘curado’ pela fé católica? Todos os vícios e extravagâncias de quarenta anos teriam se apagado para sempre? Por mais estranho que soe, isso que me parece mais difícil de crer. Entendo que ainda havia muito assunto para tratar e todos igualmente polêmicos: o sucesso estrondoso e repentino (um passe de mágica), a imprensa sem saber o que fazer (uma voz muda), o desprezo dos intelectuais no Brasil (ignorar o popular), o desdém da delegação brasileira em feiras internacionais (perdidos na feira suja), a fixação para fazer parte da Acadêmia Brasileira das Letras (vamos rever os critérios) e a nova vida no interior da França (regrada e regada a vinho). Coelho viraria um Cordeiro categórico? Isso seria ainda tão inesperado quanto o feito de ser o autor vivo mais traduzido no mundo e ter a vendagem de mais de cem milhões de livros -marca que o autor atingiu em 2008, quando completou 60 anos.

Pulos mortais e saltos imortais! Sem mea-culpa, ele se auto-promove com sagacidade e ensina algo ao mercado editorial brasileiro: vende livros em regiões afastadas no esquema de porta em porta com caixeiros viajantes, aposta em edições populares para vender em rede de supermercado, escreve histórias ‘simples de maneira simplória’ mesmo porque sua vontade é ser entendido, abusa das ferramentas online para promover seu trabalho (com contas ativas no twitter, blog, flickr, facebook, youtube, seesmic, delicious, friendfeed etc), cria promoções online com a participação de seus seguidores, abre seu próprio site pirata com todos os livros para download. De Putin a Bill Clinton, da rainha Elizabeth ao Papa, de membros da Al Qaida ao zelador, o biografado conquistou multidões -e, sem o apoio da imprensa. Por essa e por outras, Coelho é um sujeito interessante de conhecer. Fico feliz de ler a biografia feita por Fernando Morais, que enfrentou o desafio de abrir esse baú cheio de magia, fumaça de gelo seco e caos.

Acho que acordei um dormouse…

20081108 17:09
É o rabo do 
rato? Mato!
É o medo
do burro!
Longo ou
curto?
Mudo!
-Espelho?
-Tem pêlo?
-Com hair!
fair?
fairy tail:
Long
furry
strong
Aqui 
tem
gato
gata
pato
queijo
beijo
horse…
- Rabo é 
o primeiro
que vejo!
É a casa
de Ah!
Tudo
tem e
pode!
Alice,
Oz,
nós..
você
viu? o
gato
vê o
pato
lê a
Alice
vai
vem
volta!
corre!
Rabo 
some
pi
do
    sem ela saber

Bobagem-Homenagem a Lewis Carrol.

Comunicação vai bem, obrigada

20081106 14:20

Quando você mora fora, você tem  uma visão de platéia de tudo que acontece na família. No meu teatro de Boal, eu participo quando quero. Quando vejo que a situação vai dar xabu, só acompanho a novela, acelero para as cenas que interessam e peço replay: de novo! Não me envolvo em fofoca familiar, apesar de receber indiretamente informações picantes. Virei a grande irmã? Naaaa. Sou tão ciente da minha ignorância. Nas últimas semanas, então…

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