Sou leitora de Fernando Morais e biografias. Gosto de ouvir histórias das pessoas que acreditaram e correram atrás de seus sonhos. Vibrei com ‘Montenegro‘ e me emocionei à beça com o livro sobre o marechal que fez revolução no céu. Antes ainda, descobri ‘Chatô‘ e ‘Olga‘, que li, reli e anos depois, tresli nas telas do cinema. Agora, o ‘Mago’, conta a história mirabolante do polêmico escritor Paulo Coelho.
Mesmo sem fantasiar, Morais conta o incrível. Entre a culpa e o coito, surge um Coelho coitado. Entre o canto e o conto, um Coelho cultista. São páginas sobre a infância rica mas triste, com pais obtusamente conservadores e a revolta do menino, o fracasso na escola de jesuítas Santo Inácio, sucessivas internações em ‘casas de repouso’ onde levava choque elétrico para ‘educação’/'correção’ do filho, a dificuldade para completar os estudos, a culpa da masturbação punida com o fogo eterno do inferno, surtos de nervoso e solidão. Dos poemas infantis, Coelho parte para investidas teatrais, tenta se matar, recebe a visita do Anjo da Morte -com direito a sangue de cabra-, publica plágios em jornais no nordeste, dá aula de teatro em escola pública do interior fazendo experimentos com magia negra nos alunos, inventa entrevistas quando vira jornalista no Rio e vive muitos casos espetaculosos. Acompanhamos a obsessão de Coelho pela carreira literária desde a infância e sua incapacidade de escrever. Morais revela a angústia, a dúvida e os seguidos fracassos de Coelho, que ainda não era autor de best sellers mas já colecionava dezenas de diários pessoais trancados num baú. Tantos desvios e um só Coelho a colecionar manias supersticiosas, amores para toda vida, casos rápidos, experiências sexuais das mais diversas, drogas, versos satânicos, rock and roll, amigos da high society carioca e colegas de manicômio. Todo cheio e todo vazio, um verdadeiro vampiro a conjecturar sobre esquemas diabólicos para conquistar o mundo.
Coelho é ora sujo, ora hippie, mas sempre frágil. Com doses de covardia e desonestidade, o escritor parece ter passado grande parte da vida equilibrando-se na corda bamba amarrada entre o prazer e a fama. Um animal perdido no caminho que exalta o simplesmente hedônico e o totalmente questionável. Sem mágica, Morais pinta um Coelho humano.
Sua busca pelo poder consome até o dia quando misteriosa nuvem de fumaça negra com cheiro da morte e jeito do diabo invade seu apartamento no Rio. Ele gela, arrepende-se do satanismo e reza para o Deus católico. Aí vem a carreira na indústria fonográfica como diretor bambambã da Philips e aventuras de mochileiro endinheirado. Durante a viagem, Coelho tem encontro inexplicável com a fé. Torna-se parte de uma alegada ordem católica chamada Regnus Agnus Mundi/RAM e parece mudar da água para o vinho. A RAM seria organizada no modelo ‘estrela do mar‘ (sem líder no comando ou sede, como organizações terroristas), mas pouco se encontra a respeito da ordem na Internet e há especulações sobre sua real existência. De toda forma, tanto Morais quanto Coelho deixam pistas entre a semelhança da RAM e da Opus Dei, nas propostas para iniciantes com exercícios de autoflagelação, provas, privações e tudo mais. Sempre no extremismo religioso, ele oscila com o vaivém do pêndulo místico passando por catolicismo, satanismo, magia, vampirismo, espiritismo, beatismo. Seria mesmo um o avesso do outro?
Ainda na preparação para o caminho de Santiago de Compostela, Coelho faria outra (a última?) excentricidade à moda das Organizações Arco de sua infância: ele contrata um brasileiro zé-ninguém como ‘escravo’ para fazer o caminho de Santigo com ele durante três meses. Porém, depois de encontrar o ‘tesouro’ no meio do caminho e antes do prazo combinado, ele abandona o sujeito na Espanha e vai batucar samba para festa fechada da Opus Dei. Meses depois chegaria a primeira edição de ‘Diário de um Mago’. Deste ponto em diante, Morais começa a contar a vida de Coelho como escritor, as táticas de publicidade de guerrilha usadas no Brasil e no mundo, a fama nacional, o troca-troca de editoras, o sucesso internacional e a realização do grande sonho: ser um escritor lido mundialmente.
Fica a dúvida no ar sobre as esquisitices de outros tempos – elas teriam deixado de existir a partir do reencontro com o catolicismo? Essa é a impressão que se tem no livro. O escritor foi ‘curado’ pela fé católica? Todos os vícios e extravagâncias de quarenta anos teriam se apagado para sempre? Por mais estranho que soe, isso que me parece mais difícil de crer. Entendo que ainda havia muito assunto para tratar e todos igualmente polêmicos: o sucesso estrondoso e repentino (um passe de mágica), a imprensa sem saber o que fazer (uma voz muda), o desprezo dos intelectuais no Brasil (ignorar o popular), o desdém da delegação brasileira em feiras internacionais (perdidos na feira suja), a fixação para fazer parte da Acadêmia Brasileira das Letras (vamos rever os critérios) e a nova vida no interior da França (regrada e regada a vinho). Coelho viraria um Cordeiro categórico? Isso seria ainda tão inesperado quanto o feito de ser o autor vivo mais traduzido no mundo e ter a vendagem de mais de cem milhões de livros -marca que o autor atingiu em 2008, quando completou 60 anos.
Pulos mortais e saltos imortais! Sem mea-culpa, ele se auto-promove com sagacidade e ensina algo ao mercado editorial brasileiro: vende livros em regiões afastadas no esquema de porta em porta com caixeiros viajantes, aposta em edições populares para vender em rede de supermercado, escreve histórias ‘simples de maneira simplória’ mesmo porque sua vontade é ser entendido, abusa das ferramentas online para promover seu trabalho (com contas ativas no twitter, blog, flickr, facebook, youtube, seesmic, delicious, friendfeed etc), cria promoções online com a participação de seus seguidores, abre seu próprio site pirata com todos os livros para download. De Putin a Bill Clinton, da rainha Elizabeth ao Papa, de membros da Al Qaida ao zelador, o biografado conquistou multidões -e, sem o apoio da imprensa. Por essa e por outras, Coelho é um sujeito interessante de conhecer. Fico feliz de ler a biografia feita por Fernando Morais, que enfrentou o desafio de abrir esse baú cheio de magia, fumaça de gelo seco e caos.