~^.^~
20080324 17:03ôoo, para o neko luan,
um gatemperatura!
(ou seria o gatomômetro?
o gato do tempo?)
ôoo, para o neko luan,
um gatemperatura!
(ou seria o gatomômetro?
o gato do tempo?)
“Everything exists in emptiness: flowers, the moon in the sky, beautiful scenery”
Sotoba, Zenrin Kushū
Sakura (florescência da cereja em japonês) by Sakura
Uma pausa para falar algo precioso e passageiro, tempo das cerejeiras e ameixeiras explodirem cobertas de pequenas flores brancas e rosas. Desabrocham para revelar toda a delicadeza e transitoriedade da vida, a relação do homem com o mundo, com a vida, com o próximo. O que é importante? O que é a ausência? Sakura conta sobre a impermanência e a existência. Vem e vai, sua idéia fica. Fora e dentro, sua idéia é. O que é efêmero mesmo?, pergunta Sakura com um sorriso. O menino floresce, o homem floresce… e segue.
Quem sabe um dia terei a sorte de vivenciar Sakura ao lado de Tani no Japão.

Dona Juliana, na calçada, 5h30 – esperava o posto abrir
Posto de saúde rural de Manhiça, externa, dia. Os pacientes ficam nos corredores a céu aberto, porque não há ventilação nos dormitórios e o calor é infernal. Mosquitos, sujeira e mau cheiro são repelentes para o homem. Enquanto isso, no corredor aberto ou no pátio, ah! o canto do lado de fora!, tem o sol, tem o riso que ri e persiste e ri e existe, o papo furado com os colegas e o ar fresco da cidade beira-mar. No chão, deitados no cimento, mulheres, homens e crianças conversam para tornar o dia mais interessante. Alguns aproveitam uma papa de farinha muito tradicional, ou batata doce cozida, outros não comem. É verão e tem cheiro de chuva. Chove, chove sim, chove muito, chove tudo de repente, chove tudo e rapidinho. Por isso, vez por outra, vê-se um corre-corre geral. Pacientes e acompanhantes disputam qualquer área coberta, um toldo, uma árvore, uma pequena cobertura. Correm e carregam suas bolsas de água, sacos, pratos com papas, remédios, filhos e tralhas. Enquanto isso, os poucos trabalhadores do posto estão ocupados de lá para cá, não por pressa ou esperança: a urgência é costume e, muitas vezes, a falta de solução vem de brinde.

Papa de farinha
Caminho para a área de atendimento de crianças. A fila é enorme e já começa na escadaria de entrada. Em época de malária, mais de 200 crianças aparecem com sintomas da doença diariamente. Crianças deitadas no chão, mães também doentes. O ruído é constante, são crianças e um choro, são mães e suas vozes, cantos, conversas moles. Ao fundo, uma sala pequena, sem janela, com uma mesa de madeira velha. Só há uma agente de saúde na pediatria, um armário pequeno com algumas caixas de medicamento, os poucos remédios acessíveis no posto rural. A agente é uma profissional com conhecimentos básicos de saúde, mas que nunca cursou faculdade ou ensino técnico. Entrei na sala enquanto ela atendia uma criança com febre. Ela prescreveu o medicamento e deu a receita para a mãe, pegou uma caneca de alumínio com água e deu um analgésico para controlar a temperatura do menino. A fila precisava andar e não parecia parar de crescer. Em menos de dez minutos, outro paciente entrava na sala. Enquanto isso, um centro improvisado com uma lona branca no meio de um campo aberto ali perto abrigava um grupo de crianças com sintomas avançados de malária. Elas precisavam ser internadas e como não havia leito no hospital, os médicos criaram esse circo sem palhaço, sem picadeiro e com sorte, sem mais picada de mosquito.
De lá, fui conhecer o setor pré-natal, onde as mulheres grávidas do pequeno vilarejo fazem exames e recebem orientação sexual, educação sobre a saúde do bebê e da mulher. Como a prevalência de HIV é altíssima, todas as pacientes são aconselhadas a fazer um teste para detecção de anticorpos do vírus. Em caso de resultado positivo, mães são iniciadas em profilaxia para reduzir o risco de transmissão do vírus durante a gestação em até 70%. No entanto, ainda existe o perigo de contágio no contato com sangue contaminado durante o parto, além do dilema da amamentação, que às vezes é a única opção que a mãe tem para alimentar o filho (uma questão econômica – bebê não sobrevive com água e não come papa de mandioca – e também cultural – não amamentar por opção significa revelar publicamente que se tem HIV). Muitas das pacientes não conseguem acompanhar a explicação médica, outras não entendem português. Há também o grupo que já vem informado, diga-se mal-informado, com soluções para a cura e defesa do poder mágico do curandeiro.
Entrevista com dona Margarida, na frente do hospital
Momento de enfrentar o pronto-socorro e enfermagem. Do lado de dentro, só estavam os pacientes terminais que não tinham forças para ir ao lado de fora durante o dia. Entrei sozinha, porque estava perdida, perdida no posto rural. Sai correndo porque não me achei. Ar puro. No meio dessas construções velhas de parede acinzentada pelo tempo, via-se um lote de casas brancas e um novíssimo prédio cor-de-rosa na esquina do quarteirão. As casas brancas são para uma pesquisa de um grupo britânico. O projeto pretende desenvolver um microbicida anti-HIV para criar uma possibilidade de proteção da mulher quando ela não pode exigir do parceiro o uso de camisinha, por motivos culturais ou de força. A proposta parece interessante e o estudo ainda pode levar anos. Por ora, como não sou da área médica ou de pesquisa, tive uma sensação muito estranha ao ver casas novas e anti-sépticas para teste de novas drogas em seres humanos, nos fundos de um posto aos pedaços.
E os prédios cor-de-rosa? Com orgulho, os médicos do posto mostram a nova construção financiada pelo governo, que por sua vez contou com apoio internacional. O posto rural muito em breve será um hospital rural, um local de referência para todos os vilarejos da região. Enquanto a inauguração não acontece, uma ala já acabada faz o atendimento das pessoas com HIV que recebem tratamento anti-retroviral. E o leitor pode ter a mesma curiosidade que eu: quantas pessoas do posto também tem HIV, uma vez que a taxa de prevalência em Moçambique está entre 20 e 26%, o que quer dizer de cada 4 ou 5 pessoas 1 tem HIV, dependendo da cidade. Afinal, o posto representa uma amostra muito específica da população, um grupo de pessoas já doentes e conseqüentemente a taxa de HIV deveria ser mais elevada que a taxa nacional. Faço a pergunta que não quer calar. Cerca de 90% dos pacientes atendidos no posto são seropositivos, inclusive as crianças. Desses pacientes, cerca de 50% tem tuberculose, uma nova estirpe de TB resistente aos medicamentos por causa de anos de tratamento falho e mutação.
Quando entrei na pequena área para tratamento anti-retroviral, um líder comunitário seropositivo aproveitava a reunião de pacientes na manhã daquela quarta-feira para fazer uma palestra sobre a doença. Além de ser um sujeito importante no vilarejo, fazia com firmeza e coragem uma palestra bilíngüe, em português e no dialeto local. De repente, ele soltou uma informação errada que doeu meu ouvido. Depois passou, à medida que eu mesma entendia que ele estava ali e eu não. Ele era de lá, eu estava. Ele pertencia, eu passava.
Entrevistas com estudantes de Beira, em Moçambique
Eis meu primeiro vídeozinho da África. Fiz algumas entrevistas com os estudantes do curso de e-learning na faculdade de medicina da Universidade Católica de Beira. As entrevistas são em inglês porque o alcance do vídeo é maior, o pessoal da Holanda e outros participantes do curso no mundo também podem acompanhar. Espero que gostem da minha edição caseira!! Eu apanhei um pouco mas… fiz!
Every word is like an unnecessary stain on silence and nothingness. And, still, words are all we have.
Samuel Beckett
Em gotas, vou contar a nova perspectiva do continente africano, esse meu entendimento crescente que já nasce condenado à superfície. Sigo assim, prisioneira de tantas observações e associações, sejam elas inteligentes, burras, engraçadas, sem humor, irresistíveis, mirabolantes, bonitas, poéticas, tristes, desconexas, perdidas, distantes ou simplesmente rasas. Querido leitor, você está convidado a observar da sua cela a prisão do meu olhar.

Café da tarde, no segundo dia em Manhiça
minha mala tinha sumido, eu estava sem roupa,
sem anti-mosquito, sem remédio, um sol danado…
e fazendo cara de “vou pegar malária, morrer e tal, mas vai rolar”!
Phoda Poser – foto de Lieke van Kerkhoven
A seguir, em qualquer tempo ou ordem, conforme bater na cuca, coração ou tecla:

Turnê de Rat Singer
Imagem divulgada por Vá Chicano
Peccamen, peccamen
Aee e cheese para o rap papal
Peccamen, peccamen
Viva livre dos novo pecado capital
Manipulação genética
Dolly ê, dou-lhe ô, dolly ah
O uso de drogas safadas
Injetou e vai danar
A desigualdade social
Rico vai ter de queimar
Bill Gates vai se ferrar
Steve também vai pagar
dou-lhe ô, dou-lhe náaa
E sobre a poluição ambiental
A Amazônia agora é do papa!
A Amazônia e os índio é do papa!
E também geração de pobreza,
Mugabe vai ajoelhar e rezar
Olha o pó e tráfico no morro
O Cristo não vai perdoar
Experimentos discutíveis
Funfou vai ter de casar
A violação de direitos fundamentais
Ban Ki-moon vai concordar
Peccamen, peccamen
Aee e cheese para o rap papal
Peccamen, peccamen
Viva livre dos novo pecado capital
Este post ficará aqui até o arrependimento falar mais alto. E óia só que de pouco em pouco eu já tou com peso. Segundo Rat Singer, tenho 15 dias pra confessar e o mesmo prazo pra tirar do ar. Sem contar os terços.