
Paul Klee, Flora and Sand
The Fountainhead, da escritora Ayn Rand, é um romance filosófico que faz a apologia do espírito livre individual como a base da transformação do mundo. Para a autora, somente aquele com integridade possui autodeterminação para agir com independência moral e intelectual. Além de coragem, o homem livre manifesta verdadeiro auto-respeito e por isso tem forças para proteger o que lhe é importante e vital, buscar a felicidade, viver o amor, reconhecer a unidade e a existência. Ayn Rand contrasta esse sujeito herói com os homens movidos por ambição, poder, medo, culpa, necessidade de reconhecimento, validação, prestígio, títulos, fama e dinheiro, pondo em dúvida a ética da sociedade que considera tais valores como virtudes.
A estrutura para construir arranha-céus
A história se passa em Nova York, nos anos 30. Howard Roark é o arquiteto íntegro que segue suas inclinações naturais e possui total confiança em seus atos e julgamentos; Roark não se importa com a aprovação alheia. Peter Keating é a antítese, o arquiteto que vive em função do prestígio e, por conseqüência, é passível de ser corrompido. Roark cria com autonomia e autenticidade, mas é visto como um cabeça-dura egoísta; Keating é ambicioso, estratégico, mas não tem força de caráter ou confiança para romper padrões e seguir o que realmente acredita. Ele esquece. Vamos acompanhar o desenvolvimento da carreira dos dois, seus amores e ideais. Quem chega lá? Onde e o que é lá? O principal antagonista de Roark, no entanto, não é Keating, mas o crítico cultural Ellsworth Toohey. Colunista do jornal The New Yorker Banner, Toohey é maestro do grande coral popular. Eis um crítico capaz de afinar o murmurinho vulgar feito por vozes agudas e graves e transformá-lo em peça de homogenia monocórdica. Vox populi, vox Dei. Por que ele quer derrubar Roark? Qual é a ameaça que o homem de espírito livre representa?
Somos vulgares…
… e fomos condenados por nossas próprias mãos. Rand alfineta a academia, a imprensa, as religiões, a classe média, organizações políticas, beneficentes e sociais. Segundo ela, a imposição de práticas e padrões sociais e culturais -ética e estética- são meios para enfraquecer, corromper e dominar o espírito humano. Qualquer ação feita em nome dos outros (em nome de Deus, do amado, do estado, do bem cultural e até mesmo de causas coletivas) sufoca a autonomia individual e corrói aos poucos a confiança do indivíduo. Isso cria uma relação, por essência, corrupta e doentia.
Rand conclui que a felicidade deve ser a maior aspiração do indivíduo e que só o homem livre mantém sua integridade, poder criativo e respeito pela vida para buscá-la. Não existe espaço para concessão. Ignore o burburinho. Vox Populi é a ferramenta para abafar os ideais e necessidades interiores do indivíduo. Rand fala em escravos modernos que se retro-alimentam para sustentar a ordem. Homens como parasitas de homens em troca de reconhecimento, satisfação pessoal, influência e prestígio. E eu pergunto: o que é mesmo felicidade para você? E para mim?
(risos e suspiros) Blogs, bugs e bobagens! Rand é uma russa americanizada louca, mas uma coisa ela disse bem. O real prazer de um crítico é transformar o lixo em produto cultural. O que já é extraordinário não precisa ser anunciado. Agora fazer Britney Spears vender o novo álbum Blackout depois de deitar na lama é o verdadeiro poder da nossa profissão.