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Archive for September, 2007

La belle e la bête

20070917 11:04

Resolvi aproveitar o sétimo dia nas ruas de Jordaan e no Festival de música tradicional holandesa. Não quis trabalhar, porque sou muito séria com essa história de tradição e dia santo. Pode-se dizer que gozo todos os feriados de todas as religiões para minha própria alegria e espiritualidade. Com isso, é justo que felicite todos os amigos judeus pelo ano novo que aconteceu sexta-feira. Rosh Hashaná! Axé meu povo, muita paz no ano novo e viva um mundo melhor para todos os homens da terra.

Eu não sou religiosa e nem judia, como o amigo pode desconfiar pelo meu sobrenome. Mas sou brasileira, filha de mãe zen, padrasto católico e pai libanês e ateu. E tantas são as voltas da vida e da lua, que desenvolvi minha própria crença. Acredito em feriados. Acredito que todo ser humano deva ter tempo livre para pensar, criar e transformar. Acredito no poder do ócio, da natureza e da catuaba selvagem.

Domingo, eu deveria dedicar o dia a outra religião, mas infelizmente eu tinha roupa para lavar e passar, além de dar um trato no apartamento. Sou rápida. Um pouco depois do almoço eu já estava livre para curtir o dia de descanso. Então, fui andar de bicicleta, tomar café com um livro de contos de Chekhov e novamente passear pelo FilmMuseum. Dessa vez, queria um filme para relaxar a cuca da semana de trabalho.

Primeiro, eu deveria escolher um filme ou em inglês, francês, ou português. Arriscar outra língua com legenda em holandês seria um pouco demais para um domingo de ócio. O filme da vez foi “Belle Toujours”, em francês, do diretor português Manoel Oliveira. Segundo a sinopse, uma homenagem ao clássico “Belle de Jour” de Luis Buñuel, com Catherine Deneuve. Como eu havia assistido ao primeiro, achei que seria interessante ver a nova obra, uma tentativa de diálogo com Buñuel. O filme traria um encontro de Severine e Henri Husson 38 anos depois.

Eu diria que o Manoel fez uma sequela para nada dizer. Não é nem que ele ligou pra dizer te amo, sabe? Manoel quis explicar o que deve permanecer inexplicável, colocar outro peso nas personagens, dar luz ao remorso. A contextualização do filme de Buñuel acontece num balcão de bar, quando Henri fala para o barman sobre as duas vidas de Severine. E depois disso, vamos ao encontro de Severine e Henri, num jantar com diálogo pobre, truncado. Depois de longo silêncio, ela diz: “Eu não sou a mesma”. Sim, Bule Ogier não é Deneuve. Tudo é muito raso, longo e arrastado. Tivesse eu revisto o original, na sala ao lado. Perdi 68 minutos do meu ócio para ver todo o trabalho de Manoel. Acho que o diretor também precisa de mais descanso.

Arqueei a sobrancelha, sou bonito, eu sei. Desculpe-me, tenho a boca seca de tanto bufar e bufar e bufar minha covarde reticência. “Belle de Jour”, um filme cheio de questões. Agora “Belle Toujours”, um filme de culpa… arqueei a sobrancelha de novo, eu sei. Falta-me tempo. It is not for me, como eles dizem, not for me. Sim, falta-me esperança. Matei toda dúvida com um tiro no peito. Mas sou bonito, eu sei. Disso, eu não duvido.

Some certainties

20070915 13:42

chain-lock

As certezas que me fazem andar para frente quando o mundo parece diferente, eu guardo sem peso no meu coração.

Vou de bike, cê sabe…

20070913 12:51

map from Wibautstraat to Holendrecht

1okm de Wibautstraat para Holendrecht

Ir trabalhar de bicicleta é muito gostoso, ainda mais quando o caminho é plano e existe ciclovia o trajeto inteiro. Não tem desculpa, é curtição pura. Você chega no trabalho acordado, animado para começar o dia, e em casa relaxado, pronto para aproveitar a noite. Além de tudo, é bonito.

As pessoas saem arrumadas, embora o grau de embelezamento dependa da personalidade e do compromisso do ciclista. A Holanda é um país informal (menos que os Estados Unidos), no entanto sobram pessoas que gostam de se vestir bem. Pedalam homens perfumados com sapatos elegantes e ternos modernos bem cortados, jovens com saltos finos ou botas, meia-calça e a echarpe fazendo onda no ar…

Eu, novata ainda, admiro com calma e alegria. E na hora de andar de bicicleta, ainda levo o sapato alto na sacola. Na minha terra, aprendi a usar tênis para o pé não escorregar do pedal e frear com a sola de borracha, em situações de emergência, nas descidas radicais da Aclimação.

Going home!

Saída do trabalho, camisa para fora e tênis. Na sacola preta, o sapato alto, meu laptop, outra blusa de frio e a bolsa.

Iguais no mundo inteiro

20070908 13:04

It Crowd

Moss, It Crowd – Channel 4

Os holandeses são muito simpáticos, educados, engraçados e irônicos. Dou muita risada o dia inteiro. Entra um que fala meia hora sobre o Brasil, EUA, faz piada e vai embora. Depois outro, depois outro.

Sexta-feira, no entanto, eu estava sozinha no escritório porque as outras meninas foram para a Indonésia fazer o lançamento do programa. No meio da manhã entrou um rapaz na sala, com cabelo cacheado longo e camiseta preta, olhou para mim e disse:

“Você tem problemas?”

Bem, eu não falo holandês, ele está fazendo um esforço para falar “oi” em inglês, mas isso aí não é “bom dia” que se dê. Já descobri que aqui posso responder como no Brasil, com leveza, em tom de piada.

“Mm, não que eu queira dividir agora”.

Ele não riu.

“E você, tem problemas?”, eu continuei rindo e ele ainda não riu.

Bem, eu descobri depois de 2 minutos que ele era do IT! Ah-ha!

“Ah, tenho problemas sim: preciso de uma segunda tela, um password para a rede blablabla”.

E por falar em IT Crowd, eles estão de volta! :)

No trabalho

20070908 12:56

A primeira semana foi bem intensa. Eu precisava aprender os detalhes do Eedo, sistema de gerenciamento de conteúdo para e-learning, antes de começar a subir o conteúdo. Tenho praticamente 19 dias úteis para subir 17 módulos, além de buscar imagens, fazer referências para outros sites, criar um glossário etc. E ainda sofro da coceira de querer reeditar um título ou criar um novo parágrafo, doença que fora do jornalismo ninguém parece ter simpatia. Sexta-feira eu já estava mais aliviada.

Eedo print-screen

A estrutura de um único módulo

O Eedo não é uma plataforma fácil. Cada elemento de uma página (como o título do curso, o título do módulo, o subtítulo, o texto geral, as imagens, as legendas etc) merece um “arquivo especial”. Para montar a página só devemos fazer referências aos “arquivinhos” no banco de dados.

Então lá vou eu montar a página de introdução do módulo 1. A lista básica: já criei um arquivo para o nome do módulo, o título, para o subtítulo, outro para a imagem, outro para a legenda da imagem, outro para o texto? Salvei todos estes arquivos com um nome lógico que vou lembrar (e outras pessoas também podem encontrar)? Sim? Então posso começar a montar a página 1, do módulo 1. Sacou o tamanho da fera?

Agora já peguei o jeito e aprendi atalhos para fazer a tarefa mais fácil. Não é como um CMS de site, mas é bem mais poderoso e flexível no final das contas. Por exemplo, se eu quiser atualizar uma imagem ou título usado em 20 seções, só preciso entrar no arquivinho desta imagem ou título e altero todos de uma vez.

Bread and Tulips

20070908 12:40

Hartog's bakery entrance

@ Wibautstraat – Amsterdã

Sou parte da turma que curte turismo gastronômico e quando viajo faço roteiros para incluir os pontos recomendados nos guias e jornais locais. Por sorte, dessa vez, não precisei andar muito para descobrir becos interessantes. No primeiro dia, três diferentes pessoas recomendaram a padaria Hartog, uma das mais famosas de Amsterdã. Ela fica ao ladinho de casa, além de dezenas de restaurantes e cafés na beira dos canais, com cadeiras na calçada para assistir ao pôr do sol.

Já comprei o famoso pão da Hartog e também experimentei um croissant com farinha integral, coisa que francês deve torcer o nariz. No supermercado escolhi queijos, salmão, saladas e otras cositas. O colesterol vai bem, obrigada.

Linda Amsterdã. Hoje andei até o Nieuwmarkt e de lá saltei de tram em tram para explorar o centro, com direito a parada obrigatória para comer um bom Haring holandês. E tinha jogo de futebol. Não sei contra quem a Holanda jogou hoje, mas os laranjinhas estavam com tudo.

Photo of soccer fans dressed with Orange t-shirts - Amsterdam

Por dentro

20070908 03:28

Vondelpark Ghost biker - coming

eco se eco
me eco e se…
penso
quando não houver mais
canto
ar hei de pedalar
vento

eco se eco
me eco e se…
lembro

quando não houver mais
tanto
ar hei de escutar
dentro
pernas para pedalar
vento
mais chão, braços
mais lento
até a porta
do mar
lamento

Hallo Amsterdam, Hello Seattle

20070904 13:02

Blossoming Almond Tree - Van Gogh

Blossoming Almond Tree – Van Gogh

Goedemorgen! Cheguei em Amsterdã ontem para trabalhar durante um mês e meio no upload de conteúdo do novo programa de e-learning da universidade. Eu não sei qual gerenciador de conteúdo eles usavam antes, mas agora mudamos para a plataforma Eedo. O projeto precisa de um sistema que também garanta o uso do material em regiões com difícil acesso à internet – os cursos na África e Ásia são entregues em USB flash drive, por segurança.

O coração aperta. Quando aqui são 6am, em Seattle são 9pm. Este é o tal do 69.

- Bom dia, meu amor!

- Boa noite, meu amor!

- Você já jantou?

- Sim, e você já tomou café da manhã?

- Sim, você vai dormir?

- Vou dormir, comigo…

- Vou trabalhar, consigo…

- Está muito frio?

- Frio, como aí, imagino.

- Põe cobertor, para não pegar gripe.

- Leva blusa para o trabalho, não quero ninguém ruim da garganta.

- Levo sim.

- Não esquece.

- Não esqueço, meu amor, não esqueço.

- Preciso ir…

- Preciso dormir…

O quadro acima, Blossoming Almond Tree, foi um dos mais marcantes quando visitei o museu Van Gogh, em fevereiro. Olhos d’água. Este é um dos últimos quadros de Van Gogh e revela tanta delicadeza, esperança e carinho. Diferente das pinceladas de desespero, desassossego e dor das outras telas do pintor, a amendoeira traz um cheiro calmo e doce. Ela vem em flor, para comemorar o nascimento do sobrinho Vicent. E floresce, sempre.