copy writing, translation, localization and communication in Portuguese

Archive for August, 2007

Habitat for Humanity

20070830 16:55

new house

Burnaby, Canadá – encontramos Dallas e outros amigos para participar na construção de casas populares da organização sem fins lucrativos Habitat for Humanity. Saímos de Seattle quinta-feira à noite e sexta-feira às 8h da manhã já estávamos no local ao norte de Vancouver, prontos para trabalhar no quarto bloco de casas do complexo.

Os futuros proprietários destes pequenos sobrados de três quartos são famílias de baixa renda, sem recursos próprios, a maioria imigrantes latinos e chineses. Este é um verdadeiro projeto de inclusão. O mais interessante da proposta é apostar inteiramente no trabalho voluntário e doações, além de batalhar por parcerias importantes com o setor privado -para doação de materiais, serviços e expertise técnica local – e governo – para doação de terrenos e divulgação.

Brian at work

As pessoas que participam na construção das casas não são necessariamente as que vão morar nelas. No nosso grupo encontramos funcionários da Microsoft, pessoas de outras empresas de internet, um grupo de cinco funcionários de uma seguradora, mecânicos, engenheiros e até o dono de uma concessionária de carros. Qual a nossa parte? Um fim de semana por ano de trabalho voluntário e o sentimento de fazer algo concreto por uma comunidade mais eqüilibrada no futuro, sem jogar todo o peso da desigualdade exclusivamente no governo. Esperar a prefeitura construir casas para todos os excluídos é arrastar dezenas de famílias sem dar a chance de vida nova.

Em 2006, a organização comemorou o marco de 200 mil casas e mais de um milhão de pessoas com teto ao redor do mundo. Atualmente já são mais de 225 mil residências em três mil comunidades. Os projetos são simples, decentes e possíveis de financiar; o padrão varia de acordo com cada país. Enquanto nos Estados Unidos e Canadá as plantas têm três quartos e as casas são feitas de madeira, na América Latina são usados tijolos, na África e Ásia, barro e madeira. A organização busca soluções e modelos locais. O senso do que é digno varia dentro de cada realidade.

Os novos proprietários recebem a casa popular por um preço bem abaixo do mercado, além de contar com financiamento de 30 anos sem juros. Os preços variam entre 800 dólares, nos países em desenvolvimento, até 60 mil dólares, nos Estados Unidos e Canadá. Os moradores também precisam contribuir com 400 horas na construção de novos projetos na região.

roof trusses

Para minha alegria, descobri que o Habitat for Humanity também está no Brasil. Eles começaram o trabalho em Belo Horizonte há 15 anos e hoje já estão no Rio de Janeiro e São Paulo. Segundo dados da Fundação João Pinheiro, em 2000 o Brasil tinha um déficit de mais de 6,5 milhões casas, com uma concentração de 81,3% nas regiões urbanas. Mais de 50 milhões de pessoas vivem em condições precárias, em favelas.

Enquanto eu ajudava na seleção do lixo, eu fiquei imaginando o trabalho no Rio. Em 2004, Laurent e eu passamos um mês na cidade maravilhosa e devo confessar que apesar da beleza arrebatadora, senti a dureza da separação entre ricos e pobres, uma sensação muito mais cruel que em São Paulo. Encontramos ricos e milionários literalmente cercados por pobres e miseráveis, mas sem a menor integração. A idéia de grande família é somente ilusão de Carnaval. Manhã tão bonita manhã. E pensei nos moradores de Ipanema e Lagoa, bairros de classe média alta, com as mangas arregaçadas para refazer a Rocinha.

Determinação e Coragem de Rei

20070830 14:02

Lion running

Ron Kimball

Dia 18 de agosto, sábado de sol, aniversário de Laurent. Eu acordei já quase na pista do Convey Fun Run, com shorts e camiseta de atleta, para uma corrida com mais de 800 participantes. Laurent quis marcar a virada de idade com ritmo, força e firmeza. Ele fez o percurso de 10k e eu fiz o de 5k. Chegamos bem!

**

Na verdade, eu também tenho outra versão dos fatos. Acordei às 6 da manhã com meu sensível humor matinal, mas disfarcei pois a ocasião merecia. Vesti-me de esportista e fiz pose de Cicarelli: quase agarrei Laurent no chuveiro, mas além da webcam não sair do micro da sala (sem câmera, sem Cica), quis guardar o fôlego para correr feito uma queniana. Mesmo com tanta postura e propósito, não cheguei entre os primeiros. Fiquei ao lado de um velhinho de quase 100 anos, que desafiava o próprio corpo e gravidade. Num dado momento, o senhor quase desistiu e eu pensei: “Oh, não pare, eu tenho mais motivo pra dar pra trás! Conto somente 28 primaveras e estou no mesmo passo que o senhor. Continue firme e forte!” Terminei a corrida num sprint final com o velhinho. Fizemos a prova em 30 minutos. Eu cheguei em 50º lugar; ele em 51º.

**

Agora sério, correr tem sido um dos mais gostosos hábitos atuais. Comecei a treinar há 6 meses, por iniciativa de Laurent. Está aí um esporte que não depende de nada, nem academia, nem equipamento caro ou qualquer investimento. Para correr, só precisamos de vontade, treinamento diário e determinação. No início, eu corria 2 minutos e parava, sem fôlego nem para tomar água. Laurent me animava o tempo todo. Encontrou o podcast de Robert Ullrey, com aulas para correr 5k em 9 semanas. Vale a pena. Em 6 meses, já corremos 10k sem parar. Quase uma São Silvestre!

**

Enfim, depois do evento em Convey Run (diga-se, organizado ao redor de uma região de vinhas e com direito a pisar em uvas verdes no final da brincadeira para aliviar os pés), voltamos para casa e eu fiquei bonita para os olhos do meu bem. Almoçamos no japonês Todai. Tanto para comemorar!

**

No fim da tarde, fomos a um show de jazz no Egan’s Ballard Jam House. No entanto, a cantora estava mais para Família Addams que diva. Saímos no intervalo, sem peso. De lá, sorteamos um show de comédia stand-up no Mainstage Comedy Club para fechar a noite. “Que tal?”, “Vamos!” Rimos muito.

**

Laurent fez 29 e meu amor é infinito.

**

No sábado anterior, um jantar de leoninos com Vivian, Emmet, Bia Carlini, Eric e Laurent iluminou o salão do restaurante vegetariano Carmelita. A noite foi quente e colorida com as jubas de tantos leões.

Olive You – redux

20070814 15:11

Apresento Olive, a menininha que sempre leva uma mala para todos os cantos. O que será que ela esconde? Por que ela carrega a mala? Conheça o mundo de Olive na terra de Alice. ;)

Durandeau 2.0

20070804 09:54

Resumo do conto “Complementos”, de Émile Zola

Paris, século XIX - o belo inebria mais que hálito de vinho ou fumo. Beleza vira commodity e os investidores franceses produzem cosméticos e vestuários em larga escala. A indústria está a toda. Neste cenário competitivo, o inventor L. Durandeau busca uma idéia diferente para investir, algo com pouco risco e verdadeira chance de sucesso. Perambula. Eis quando passa por um casal de jovens amigas que atraem seu olhar com magnetismo. Apesar de indelicado, ele olha para trás de impulso: uma linda e a outra hedionda, repulsiva! Meu deus, como pode existir tamanho deseqüilíbrio! Qualquer sujeito faria a comparação inevitável. Uma tão assustadora e a outra a cada gesto mais cheia de graça. Euréka! É isso! Sem titubear, Durandeau abre sua Agência de Complementos, especializada em “acompanhantes de contraste” para mesdemoiselles ricas desfilarem na cidade da luz. O aluguel pode ser diário, para casos de festa, ou somente por hora, para vaguear pelas calçadas largas da Champs-Elysées. O produto prova-se mais eficiente que o melhor cosmético.

Já pensei antes em montar a rede pat-rent-a-pet para alugar cachorros na entrada de parques. Filhotes seriam mais caros. Mas depois de ler o conto de Zola, imaginei a versão da agência Durandeau para o século XXI. Um site especializado no aluguel de pessoas “extravagantes e inadequadas” para ocasiões especiais. Por favor, evite o julgamento precipitado. A agência não ofereceria qualquer tipo, somente os mais grosseiros, arrogantes e sem discernimento. Aqueles que fazem o comentário indevido, promovem guerras, têm convicções pavorosas, defendem causas nazistas e podem ser bodes expiatórios para quase toda ocasião.

They misunderestimated me“, diria o presidente americano. O primeiro desafio seria encontrar os candidatos, já que muitas das aberrações parecem bem empregadas. Mas com persistência e calma, perceberíamos que há matéria-prima para dar e vender, um artigo mais comum que vexame de celebridade pop americana em capa de revista. Mesmo assim, muita cautela na hora de convidá-los para o projeto. Nossos candidatos poderiam se ofender facilmente.

Até o mestre Durandeau enfrentou apuros para encontrar suas fealdades. Somente meninas razoavelmente jeitosas candidatavam-se espontaneamente. Um trabalhão para convencê-las do engano: veja bem, você não é suficientemente feia. No caso da agência de “extravagantes e inadequados” o problema seria outro: como atender um sujeito em fase de descoberta? Devemos estabelecer desde o princípio que não somos um consultório de psicanálise. Eu descartaria todo candidato voluntário na hora, sem dó. Se a pessoa já desconfia da própria falta de senso, isso é sinal de melhora, filosofia ou milagre.

Queremos pessoas categoricamente estúpidas, aquelas com o rei na barriga, certas de sua genialidade, missão, título e ética. Donos da solução para o mundo, para as gerações futuras e passadas, capazes de narrar qualquer caso em tom de sermão. Pessoas acima do bem e do mal, contra raios UV-A e UV-B, possíveis pastores evangélicos. O crème de la crème.

A agência ofereceria acompanhantes para toda ocasião, online e offline: chats no uol, lista de discussão, blogs, exposições e eventos culturais, convenções de vendas, jantares com sogros, festas da firma, casamentos. Um sucesso, principalmente entre políticos e assessores de imprensa.

Só não nos responsabilizaríamos pelo uso impróprio do material. Um pequeno contrato, com dois pontos obrigatórios, seria suficiente. A primeira regra: essencial destacar as diferenças e não as semelhanças entre você e o acompanhante. Regra número dois: nunca, nunca contrate um complemento para fazer uma entrevista de emprego na mesma empresa que você pretende trabalhar. Em testes realizados no mundo inteiro, ele tem mais chance de ser contratado.

Ah, que agito. Tantas solicitações, corre-corre, reservas… Teríamos um estoque de verdades. E depois viriam as notícias, escândalos, queixas, processos. Correntes, possíveis revelações, líderes e… seguidores. Começou a soar perigoso. Meu coração. Talvez seja melhor retrabalhar a idéia de pat-rent-a-pet no Ibirapuera. Menos risco, diria mestre Durandeau, menos! E filhotes sempre serão irresistíveis.

O fim dos tempos. Para isso que você tem blog?

You rock

20070803 14:51

A dialogue between a rock and a rule.

by Jennifer Berman

“City of Glass”, a primeira história do livro “New York Trilogy” de Paul Auster, é um divertido passeio pelo fantástico mundo da linguagem, da busca por significado, estranhamento, solidão e modernidade. Quinn, um escritor de romances policiais baratos, recebe um telefonema de socorro. Stillman precisa de ajuda. Seu “cliente” foi mantido sem contato social por toda a vida e agora corre risco de vida. O problema é que Quinn não é propriamente um detetive. É um homem sozinho e fracassado, sem nada a perder. Seria Stillman o novo livro, a razão para continuar?

No meu caso, a primeira história foi particularmente gostosa pelas conexões que Auster fez com Cervantes (Dom Quixote), Lewis Carroll (Alice) e Kasper Hauser. As outras duas histórias foram menos surpreendentes. “Ghosts” repetiu a fórmula de um detetive no escuro: Blue é contratado por White para espionar Black. “The locked room” é mais tensa, o mistério sobre o desaparecimento de um escritor.

Escritores solitários para Paul Auster e mães superprotetoras para Woody Allen. Ambos precisam de terapia e boa mesa. Americanos.