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Archive for May, 2007

Festival Sasquatch

20070528 00:28

Solmaz e eu

Ontem, fomos ao festival ao ar livre aqui pertinho de Seattle, no cânion do rio Colombia. Na programação, Björk chamava atenção entre outros 56 shows. Três palcos armados para uma multidão de mais de 50 mil pessoas.

Chegamos no evento por volta das 15h, preparados para assistir a três grandes shows: Björk, Manu Chao e Arcade Fire. O cantor franco-espanhol Manu Chao subiu ao palco depois das 19h. Chao revisitou velhos hits e exibiu canções do álbum que será lançado em setembro. O cantor fez o povo levantar, falou da importância da imigração para o mundo, da tristeza da exclusão social dos mexicanos e do horror à guerra no Iraque. Esquentou o público, formado principalmente por estudantes universitários.

Laurent vê o show do Arcade Fire

Na sequência, a banda canadense de indie rock The Arcade Fire embalou o público no cair da tarde. A banda entrou no palco com metade de uma orquestra: violinos, viola, cello e um grande órgão. As letras melancólicas beijavam a lua crescente, com doçura e acidez.

Olhar atento, todos à espera de Björk no palco principal. A cantora da terra do gelo surgiu como fogo. O novo álbum “Volta” é um grito de socorro para a “tribo humana planetária”, como diz a cantora. Depois de apresentar as novas composições, Björk resgatou hits de “Vespertine”, seu álbum de 2001. Dona de voz e estilos únicos, ela fechou a noite com uma explosão de criatividade. Poucos dançavam, Björk é feita para ouvir e contemplar. Magia. Aquela voz que ecoou no meio do deserto até agora repercute no meu coração.

Björk

Bloomsyear

20070527 22:10

Ao lado de Tani Makiko enfrentei a primeira estada em terra estrangeira e todas as angústias dos 21 anos. Companheira de quarto em Dublin, de aulas, bibliotecas, filmes no Irish Film Centre, compras no Temple Bar Food Market, descobertas e viagens. Há 6 anos não vejo esta pequena. Para grande alegria, Tani San (ou Tintin) chega este sábado em Seattle. Ela ficará em casa por uma semana. Quem sabe ano que vem vamos ao Japão visitá-la?

Sozinhas, na ilha esmeralda. Lembro-me do dia em que ela apareceu com a cabeça raspada em casa, para marcar o recomeço; do inverno brutal e de nós duas dançando a mesma música japonesa todos os dias no ponto de ônibus; das trocas de carinho e de cultura; da explicação sobre o poder curativo do umeboshi, green tea e misô.


Uma vez, resolvemos cruzar a Irlanda em 20 dias. A proposta era conhecer a ilha, explorar os castelos antigos, andar pelos monastérios abandonados, percorrer as ruínas de mais de 5 mil anos, caminhar nas pedras de Giants Causeway, descobrir os mistérios celtas e contrastar com a guerra do homem moderno, entender o conflito católico-protestante, visitar museus, observar as muralhas de Derry, alegrar-nos com as cores de Galway, torcer para encontrar druidas ou por ter a sorte de um leprechaun. Sempre, sob qualquer circunstância, deliciar-nos com todo o tipo de batata e agradecer a boa mesa!


Convidamos outro casal de amigas para a aventura, a também japonesa Oka e a bela francesa Laurence. Em quatro, seria mais seguro e tranqüilo. Tani e Oka não dirigiam, somente eu e Laurence. Grosseiramente, o roteiro deveria cobrir as seguintes cidades: ao norte, Belfast, de lá para o noroeste, em Derry, depois do outro lado da ilha em Galway, ao sul para Cork e depois, finalmente, voltaríamos para Dublin. O resto do mapa seria feito nos brindes da jovem curiosidade e sua irmã mais nova surpresa.


Eis que surgiu outra vila interessante no meio do caminho. Era cedo ainda. Eu queria ir ao museu local e andar pelas ruas de pedra; Oka e Tansan estavam cansadas e queriam ficar no hotel. Combinamos o reencontro ao meio-dia. Laurence veio comigo.

Na volta, olho para frente do hotel e nada do carro. Laurence também desesperou. Subimos para ver se as meninas estavam no hotel. Nada: nem Oka, nem Tani. “Elas devem estar por aí”. Deixamos um aviso na recepção.

“Roubaram o carro! Laurence e eu vamos à delegacia dar queixa! À noite, devemos pegar o primeiro ônibus para Dublin e ir até a locadora para descobrir o que precisa ser feito”.

Corremos para a delegacia. A cabeça de jornalista já fazia manchetes: “Estudantes roubadas perdem tudo e trabalham na locadora para pagar dívida”. Ríamos e chorávamos ao descrever o carro para o oficial, com inglês quebrado. Mostramos toda a documentação, nossa permissão irlandesa e a carteira vazia. Registro feito. O policial nos deu uma carona até o hotel.

Ao chegar, o carro.

“O carro!”
“Seu policial, eu juro que o carro não estava ali”
“Desapareceu por brincadeira de um duende”
“Ladrão irlandês tem culpa e remorso!”
“Aposto que não tinha para onde fugir: é uma ilha!”

O policial não falou nada, pelo menos nada que minha memória tenha se dado ao trabalho de registrar.

Laurence e eu subimos para ver se as meninas já estavam no hotel. Queríamos contar o susto que passamos. Ao entrar no quarto, encontramos Oka e Tani ajoelhadas no chão. Elas choravam. “O que foi? Aconteceu alguma coisa?”.

Pois é, a possibilidade que não pensamos: Tintin foi responsável pelo sumiço do carro, um plano para dominar o calmo vilarejo de poucas ruas. Cansada de descansar, resolveu dar uma voltinha rápida para relembrar como dirigir, testar o possante e quem sabe, ajudar na estrada. Oka foi de guia. Na volta, pegaram o recado na recepção: as outras moças estão na delegacia para registrar o roubo do automóvel.


Fotos do meu primeiro blog, Violetway, 2001-2002.

Play it once

20070525 07:39

“Por favor, garçom, um trem para Casablanca” pois lá dividiremos um vagaroso bonjour vespertino, com hálito de esperança marroquina. Ou desespero. Cobriremo-nos com o chão seco e deixaremos o calor passar à medida que nos polvilhamos com saudade. Um pouco mais, pozinho.

La vie est une imagination. Non nous ne réveillons pas, nous rêvons. Somos grãos no salão cheio. Somos vazios, vícios, bon-vivants fugidos da guerra. Toque uma vez. Somos descarnados, sans sang mais avec poésie.

A vida oferece entrada franca para românticos em retiro circunlunar. Será que essas coisas fundamentais existem também sem gravidade? Um suspiro é só um suspiro, afinal. Geofísica.

E que venha a chuva para saciar, incorruptamente fria. E que bata o silêncio duro. A noite no deserto é gélida, uma tese que o calor também adormece. “Por favor, garçom, outro copo, mas sem gelo agora”.

No mundo onde não houvesse memória, o esquecimento não seria sequer nascido, muito menos haveria projeto de amanhã. Passarinho acordaria livre a cada despertar. Here is looking at you, kid.

Moves perpetually in its stillness

20070515 22:04

“…And what you do not know is the only thing you know
And what you own is what you do not own
And where you are is where you are not…”

t. s. eliot. four quartets