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Archive for September, 2004

Fim de Partida

20040925 19:33
Samuel Beckett

Quatro personagens em cena: Hamm, Clov, Nagg e Nell. Do lado de fora, o nada, o mundo que já não existe. Do lado de dentro, a repetição do ontem, da hora zero, da memória angustiante que inibe qualquer vontade de mudança. Pour quoi changé? Não há nada a fazer, só esperar o fim do jogo.

Por meio de ações encadeadas, Beckett questiona o sentido da vida, do homem, do sonho. O fio condutor se dá na relação entre “o abandono e a miséria humana” versus “a necessidade de convivência e troca”. Hamm, cego e preso a uma cadeira de rodas. Nagg e Nell, mutilados, vivem em dois latões. Clov, aquele que serve a todos e que “dá as deixas”. Essa situação teria tudo para ser dramática, mas não é. Beckett transita pelo cômico, pelo épico, pelo trágico, pelo dramático e não se apega a nenhum dos gêneros. Foge da forja.


Como diz Nell, “nada é mais engraçado do que a infelicidade”. É o funk “Da lata”! Na peça, o autor trata da falência do discurso, de um tempo em que já não vale a pena dizer. Pensamentos. A ilusão da fragmentação ocorre, mas não é fato. A solidão das personagens é capaz de dar continuidade a qualquer quebra de ritmo, num riso que vaza no trágico que encadeia no heróico e morre sem drama.

war is not the answer…

20040922 09:17

america when will we end

the human war?

Allen Ginsberg

fuerte cosa es!

20040922 09:14

Nosso fracasso é de imaginação,
de empatia: não conseguimos
reter na mente essa realidade”
Susan Sontag

No livro Diante da Dor dos Outros (Regarding the Pain of Others), a escritora norte-americana Susan Sontag avalia o impacto das imagens de dor e da guerra que são diariamente publicadas pelos meios de comunicação. “A imagem ultrafamiliar, ultracelebrada -de agonia, de ruína- constitui um elemento inevitável do nosso conhecimento de guerra mediado pela câmera”. Somos bombardeados como iraquianos, com imagens violentas da burrice e arrogância norte-americanas. Uma maneira de banalizar a dor e alienar a crítica do mundo. Doses homeopáticas de maldade.

Por um lado, sabe-se que o fotógrafo, ao enquadrar uma cena, exclui o que lhe convém. Mas por outro, as fotos trazem um testemunho de quem viu. Yo lo vi. Não entraremos aqui na discussão da subjetividade porque este pequeno texto cresceria num sem fim, mas ao leitor cabe fazer essas reflexões.

As intenções do fotógrafo, no entanto, não determinam o significado da foto “(Este) seguirá seu próprio curso ao sabor dos caprichos e das lealdades das diversas comunidades que dela fizerem uso”, escreve Sontag. E qual é o uso das imagens na mídia norte-americana? Ao falar em tevê, o que a Fox tem feito dos iraquianos?

Nas fotografias de guerra, as pessoas buscam por imagens que camuflam técnicas. No estilo oposto ao do artístico, as fotografias devem parecer menos trabalhadas com a finalidade de serem julgadas menos manipuladoras. Queremos ver sangue e horror sem jogo de luzes. Queremos o corpo nu. A autora traz um histórico do fotojornalismo. Desde a Guerra da Criméia (Roger Fenton, Felice Beato), passa pela Guerra Civil Espanhola (1936-1939 – a primeira guerra coberta por profissionais da imprensa), vai para a II Guerra Mundial (reconhecimento do jornalismo fotográfico; Robert Capa), a guerra do Vietnã (revista Life; Larry Burrows), pula para Pnhom Penh, no Camboja, e, de guerra em guerra, fala da dor palestina e israelense, salta para o World Trade Center, o ataque ao Afeganistão e a invasão do Iraque.

Site traz fotos de guerra:
Robert Fisk – Iraque
Robert Capa
Life (1936-1972)

Referências interessantes:
Agência Fotográfica Magnum (1947)
Revista francesa “Vu” (1929-)
Revista inglesa “Picture Post” (1938-)

a curious thing

20040917 19:36


A curiosidade é móvel, transformadora.
É o que move o mundo da narrativa;
o que posterga o conhecimento.

onívoros

20040915 21:00
onívoros
como eu

como vacas sagradas
e não nego um joelho de porco
delicio-me com peixes de água doce
quando fervidos com sal.
lágrima.
como até mesmo maçã,
como eva fez de elã,
como um belo pé de alface
amebas, nem vejo…
do avesso

igual ao mendigo que
morre na sé,
ao budista que fala
de fé,
ao cristão que prega
amor
sou igual

sou um pedro
sem a chave do céu
sou inútil
jogada ao léu
sou sem chão

sou bacteria de leite azedo
como cedo
como tarde
como noite
como tudo e todos na terra.
sou assim.

com descanso

20040915 20:41


Eta sombrinha boa, sô.

fisio me

20040915 20:33

Doce Lu Leone!

xadrez

20040915 20:31
the sequence ends

Pego a posição do cavalo – literalmente
Ando com a rainha
O rei grita
O peão gira
O jogo acaba.

tweedledum

20040915 20:29

“- Há leões ou tigres por aqui?
- É só o Rei Vermelho roncando – disse Tweedledee. Com o que acha que ele sonha?
- Isso ninguém pode saber – disse Alice.
- E se parasse de sonhar com você, onde acha que você estaria?
- Onde estou agora, é claro.
- Ora, você é só uma espécie de coisa no sonho dele – disse Tweedledee.
- Se o Rei acordasse, você sumiria… puf! – acrescentou Tweedledum”.
Lewis Carrol
Alice Através do Espelho

Machado

20040914 10:00
Comentário
Crônica de Machado de Assis
publicada no dia 23 de abril de 1893

Chronicles, chronicles, chronicles. Machado contava seu tempo, num tempo que não era mais dele. O amanhã fora então traduzido desde ontem: o relógio avançava e avançava, passando sempre pelos mesmos números. Humanidade. Assim, o escritor ainda hoje é capaz de revelar caprichos do dia seguinte. Não sobrevive de memórias. Ganha vida graças à eterna mesmice deste mundo-repetição, de caducos homens que se macaqueiam desde a civilização adâmica.

Machado de Assis capturou o mais sutil do humano: desejos, fraquezas, burrices, humores, paixões etc. Analisou fatos mais complexos, organizações, sistemas políticos, estruturas sociais. Olhos de poeta e mãos de jornalista. “Somos iguais na essência”, disse minha avó à minha mãe e a última repetiu a ladainha para mim. Eu converso com meu gato.

Na crônica do dia 23 de abril de 1893, Machado narra um boato que não sabe qual. Como? Ouvira na farmácia notícia incompleta: algo aconteceria no dia seguinte. O quê, ele não sabia. Mas o fuxico mexeu com ele, com o farmacêutico, com o dia e com a noite. Seria uma revolução?

Ontem mesmo uma suspeita provocou uma guerra; outra levou moedas de países emergentes; outra me fez tomar cuidado com um vírus de gripe que engordava. Na crônica de Machado, não houve guerra, não houve problemas no câmbio de moedas, ninguém engordou de gripe, não houve nada. Só a expectativa de um acontecimento. Machado narra o não-fato com uma linguagem perspicaz e elaborada. Sedução. Sua, sou eu.

Com humor e inteligência, Machado resgata Hamlet e comemora a data de aniversário de Shakespeare. Resume: “tudo são aniversários”. E novamente o relógio avança. Passa das 22hs, não a mesma de ontem, mas talvez similar de amanhã. Convenço-me: “just do it”!