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Archive for September, 2003

Não diga noite

20030917 18:56

Starry Night – Vincent Van Gogh

O décimo romance de Amóz Oz se passa em Tel Kedar, pequena cidade à beira do deserto de Negev.Theo, um engenheiro civil com mais de sessenta, sente que sua vida entrou em um processo de declínio inevitável, no caminho que só pode levar “da tristeza à dor”. Sua mulher, Noa, é uma professora universitária de literatura hebraica. Aos 45 anos, desde os 38 casada, sente a necessidade de afirmação diante o marido.

O dia-a-dia do casal é contado entre palavras não ditas, silêncios revelados em monólogos interiores. As versões dos protagonistas se intercalam. Cada um, ao seu modo, narra o dia e a falta de amanhã. Certos questionamentos não ousam atingir um volume audível.

A pequena cidade, agitada na cotidianidade, frente ao deserto, calado em seu gigantismo, podem ser um paralelo aos personagens: Noa, a citadina, Theo, o desértico. É interessante lembrar que Theo foi um dos planejadores da cidade. Noa seria, então, a beleza que surgiu entre seus traços; talvez até uma curva apagada que marcou o papel.

O autor escreve com perspicácia e fineza, no diálogo pontuado pelo cansaço, o vazio e a saudade. Noite, noite, noite. Não diga nada.

LIVRARIA CULTURA: Não diga noite

A fabricação da realidade

20030914 20:11

Kaspar Hauser, jovem criado em um sótão sem contato social até 18 anos, século XIX, na Alemanha. O filme intitulado “O Enigma de Kaspar Hauser” (em alemão: “Cada um por si e Deus Contra Todos”), de Werner Herzog, começa pouco antes de Kaspar ser retirado do esconderijo no qual fora mantido até 1828. Ele não sabia falar, andar, relacionar-se socialmente. Seu guardião, que o visitava apenas para dar-lhe comida, resolveu deixá-lo na praça de Nuremberg, com uma carta na mão como referência. Kaspar, que fora privado durante toda sua vida de qualquer bagagem social ou lingüística, deparava-se com sombras jamais imaginadas. De repente, o mundo ganhou formas animadas e inanimadas, cores e grandeza, vazio e solidão.

O filme mostra o choque deste primeiro contato com o mundo exterior. Como será que Kaspar interpretaria a vida e o mundo do lado de fora da cela? Kaspar não tinha referente, ou seja, segundo Platão, ele não possuía uma idéia de cavalo e nem mesmo a visão de sua sombra. Tudo assustava nesse estranho mundo novo: as dimensões, os movimentos, a lógica, a perspectiva, o pensamento, a fala, o riso.

Em entrevista exclusiva, o professor Izidoro Blikstein, do Departamento de Lingüística da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (FFLCH/USP), fala mais da relação entre prática social, linguagem e percepção de mundo.

P. – Kaspar seria como um analfabeto no começo do filme. Qual a importância do domínio da língua?

Blikstein: Desde a metade do século passado, o francês Emile Benveniste já apontava a língua como um grande sistema interpretante. No livro “Problemas de Lingüística Geral”, ele mostra a língua como o interpretante de todos os outros sistemas de comunicação. Você quer falar de um filme, você usa o sistema lingüístico, você quer falar de um quadro, você usa o sistema lingüístico. Para contar um sonho, você usa o sistema lingüístico.

P. – Só através da língua se produz pensamento?

Blikstein:A escola, sem querer, instituiu a língua como interpretante de todos os outros sistemas de comunicação. Cria-se um pensamento lingüístico. Uma reflexão se dá por meio de um pensamento lingüístico. Nós descrevemos uma foto, falamos um sonho, escrevemos nossos pensamentos, etc. Porém, não existe só o pensamento lingüístico. Existe também o pensamento visual. E quem sabia disso era o cineasta Sergei Eisenstein (conhecido por seu filme “O Encouraçado Potemkim”, de 1925). Ele dizia que a gente podia falar por imagens também: um pintor fala com sua tela, um fotógrafo fala com sua foto, e assim vai…

P. – Mas quando eu penso sobre uma foto, eu reflito sobre ela por meio da língua?

Blikstein: Não obrigatoriamente. Nós não precisamos pensar por meio da língua. Posso traduzir essa imagem em outras imagens também. Mas acontece que a nossa educação é lingüística. Existe este vezo que nos faz traduzir tudo por palavras. Para ilustrar, uma vez o cineasta Stanley Kubrick foi convidado para falar sobre o filme “2001: Uma Odisséia no Espaço”. Ele disse: não é um filme para se falar a respeito, mas para ser visto. Ponto. As imagens falam por si.

P. – O analfabeto funcional, professor, tem o pensamento visual mais forte que o pensamento lingüístico?

Blikstein: Às vezes, o pensamento visual se torna frágil, debilitado pela influência do pensamento lingüístico. Pode-se trabalhar com o analfabeto funcional por meio de imagens, dando uma foto para ele analisar, por exemplo. Seria explorada a percepção visual dele. Um filme mudo de Chaplin , uma foto. Ele poderia falar muito a respeito. Mas a língua, por força do pensar ocidental, é o grande interpretante. O Kaspar tem um pensamento visual . Ele consegue refletir sobre o que ele vê e elaborar um pensamento sobre aquilo. Na verdade, como ele não tinha prática social, ele elabora um pensamento que não coincide em nada com a lógica da sociedade.

P. – Quanto menor for o domínio da língua, maior seria a tendência à estereotipia, unilateralidade e visão monológica da realidade? A falta de repertório lingüístico acarreta em uma catalogação das coisas sem um questionamento prévio?

Blikstein: Concordo plenamente. “Viver é perigoso” como nos adverte João Guimarães Rosa. Vamos entrar no universo conotativo e aí viver é perigoso. O problema do analfabetismo funcional é que a língua aprisiona as idéias, os lugares-comuns, os estereótipos e o indivíduo não é capaz de refletir criticamente.

P. – Poderíamos dizer que, no fim das contas, é a língua que domina o homem e não o contrário?

Blikstein: Roland Barthes foi convidado para uma aula sobre linguagem, no Colege de France, o ponto máximo da academia. Ele começou a palestra assim: toda a linguagem é fascista. E ele explicou: à medida que a linguagem aprisiona, cria estereótipos, banaliza os pensamentos ela passa a exercer um controle autocrático. As práticas sociais convivem com a língua e com a percepção do mundo, uma é tributária da outra em um verdadeiro círculo vicioso. Então, diria, que a língua domina o homem, sim.

Blikstein fala do momento que antecede a fase de transformação da realidade (desconhecida) em referente (qualificável). Isso acontece da seguinte forma: o objeto conhecido, já catalogado em nossas mentes, recebe o nome de “referente” em diversas teorias de análise de linguagem. Sabe-se, no entanto, desde de Platão, que o “referente” é somente uma “idéia de realidade”, entre muitas que cada observador pode ter. O referente nada mais é do que a nossa fabricação da realidade.

Livros e filmes citados:

  • Blikstein, Izidoro. Kaspar Hauser ou a Fabricação da Realidade. São Paulo: Cultrix: 2003
  • Rosa , João Guimarães. Grande Sertão: Veredas. Rio de Janeiro: Nova Fronteira , 1986
  • Herzog, Werner. O Enigma de Kaspar Hauser.

Contempla rio…

20030911 17:19

“Cê vai, ocê fique, você nunca volte!”
Paris, França – 2003

Transformação da Linguagem

20030907 20:37
“Marcela amou-me durante quinze meses e onze contos de réis”
Machado de Assis – Memórias Póstumas de Brás Cubas
Machado de Assis, para falar do aspecto interesseiro do amor de Marcela por Brás Cubas, no romance “Memórias Póstumas de Brás Cubas”, apresenta as alternativas de transformação da linguagem que o registro padrão propicia. Brás diz: “Amei Marcela durante quinze contos de reis e quinze dias”. No sentido denotativo, muito da beleza da frase se vai. Mas é necessário interpretar, trata-se de uma frase sintética.
Para chegar a essa resultado, houve várias transformações. Então, um registro padrão e urbano, traz muitos recursos de transformação e de fluência. De fato, dá mais precisão à linguagem, sintaxe clara, vocabulário. Instrumentos que promovem alternativas de transformação da linguagem. Permitem escrever longos períodos, com variedade. E não somente frases curtas, às vezes, repetitivas, enfadonhas e sem graça. Por isso se diz que um grande escritor é um grande transformador da linguagem. Ele é capaz de tornar uma frase simples em uma obra de arte.

O velho diálogo de adão e eva

20030907 13:22

(eu, com 4 anos ou algo assim)

Capítulo LV

Brás Cubas . . . . . ?
Virgília . . . . . .
Brás Cubas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Virgília . . . . . . !
Brás Cubas . . . . . . .
Virgília . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ? . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Brás Cubas . . . . . . . . . . . . . . . . . .
Virgília . . . . . . .
Brás Cubas . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . ! . . . . . . . . ! . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . . !
Virgília . . . . . . . . . . . . . . . . . ?
Brás Cubas . . . . . . . !
Virgília . . . . . . . !